O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu hoje aos 83 anos, confirmou à Lusa fonte editorial.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
“Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, declarou o escritor à agência Lusa, em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina (2003) pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (“Manual dos Inquisidores”) e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
O seu primeiro livro, “Memória de Elefante”, surgiu em 1979, logo seguido de “Os Cus de Judas”, no mesmo ano, sucedendo-se “Conhecimento do Inferno”, em 1980, e “Explicação dos Pássaros”, em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
A República Portuguesa condecorou-o com a grã-cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.
Foi Prémio Camões em 2007.
Dom Quixote compromete-se a trabalhar para promover obra
A editora Dom Quixote lamentou hoje a morte do escritor António Lobo Antunes, aos 83 anos, e reafirmou o seu compromisso com a divulgação e promoção de uma obra “cuja importância ultrapassou fronteiras”.
“Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores”, pode ler-se numa mensagem publicada nas redes sociais da editora de sempre do escritor.
A editora compromete-se “a continuar a trabalhar e a promover a sua obra, cuja importância ultrapassou fronteiras” e “despede-se assim do grande escritor português, o verdadeiro escritor, que dedicou toda a sua vida à literatura, prestando-lhe a devida e merecida homenagem e deixando sentidas condolências à sua família, aos seus amigos e aos seus leitores”.
Ministra da Cultura lamenta morte de um escritor maior
A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lamentou hoje a morte de António Lobo Antunes, considerando-o um escritor maior e intérprete sensível, que deixa um legado inesquecível.
“É com profundo pesar que lamentamos a morte de António Lobo Antunes, escritor maior de Portugal, intérprete sensível e incomparável da condição humana, um dos nossos autores mais reconhecidos das últimas décadas”, disse a ministra da Cultura numa mensagem divulgada na rede social X.
Na opinião de Margarida Balseiro Lopes, António Lobo Antunes deixa “um legado brilhante e inesquecível”.
Primeiro-ministro evoca “figura maior da cultura portuguesa”
Lisboa, 05 mar 2026 (Lusa) – O primeiro-ministro recordou António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos, como “uma figura maior da cultura portuguesa”, dizendo que o seu legado deve continuar a inquietar e a inspirar todos.
“Presto muito sentida homenagem a Antonio Lobo Antunes – figura maior da cultura portuguesa. O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, escreveu Luís Montenegro, numa publicação na sua conta oficial na rede social X.
O primeiro-ministro expressou ainda, em seu nome e do Governo, “as mais sentidas condolências à família e aos amigos”.
APE considera morte do escritor uma grande perda para a literatura
O presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE) considerou hoje que a morte de António Lobo Antunes é uma grande perda para a literatura portuguesa, destacando que deixa uma grande obra como legado.
“O António Lobo Antunes foi e será um dos nomes nucleares de toda a nossa história literária. É pois a perda de alguém que deixa uma obra absolutamente fundamental que irá sendo sempre reencontrada nos seus diversos géneros através de múltiplas gerações”, disse José Manuel Mendes.
Para o presidente da APE, a morte de António Lobo Antunes é uma perda dolorosa e o momento é de luto para a literatura portuguesa.
“Da ‘Memória de Elefante’ ao último dos seus romances e às suas crónicas singularíssimas e muito sedutoras tudo vibra de uma intensidade que conjuga experiências literárias, profundidade psicológica e conhecimento do humano na sua dimensão social, mas também, senão sobretudo, no seu labirinto interior e numa escrita que se desafiava a si proporia, procurando soluções inovadoras que foi construindo de página a página”, disse.
Secretário de Estado da Cultura defende importância do que Portugal e o mundo ganharam com obra
O secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, lamentou hoje a morte do escritor António Lobo Antunes como a perda de “homem com uma humanidade comovente” e sublinhou a importância de olhar para o futuro do seu legado.
“É uma grande perda para Portugal, para a cultura, para a literatura em particular, porque o António Lobo Antunes foi uma das vozes das últimas décadas que mais se distinguiu no modo de contar histórias, no modo como olhou para nós próprios, para a nossa condição de portugueses e retratou momentos muito importantes do nosso passado e presente”, afirmou Alberto Santos, que era presidente da Câmara Municipal de Penafiel quando Lobo Antunes foi o homenageado, em 2012, do festival literário Escritaria.
O secretário de Estado da Cultura salientou que “é um legado que se perde hoje com a sua partida, mas por outro lado também [há] que olhar para aquilo que ele deixou, nomeadamente para todo o seu edifício literário, para aquilo que Portugal e o mundo ganhou com a sua escrita”.
“Eu espero, tenho a certeza, [que] será cada vez mais reconhecido por aqueles que haverão de estudar e de compreender melhor esse trabalho”, acrescentou o governante.
Seguro recorda obra de lucidez e exigência moral
O Presidente da República eleito, António José Seguro, recebeu hoje com “enorme tristeza” a notícia da morte de António Lobo Antunes, cuja obra considerou “profundamente marcada pela lucidez” e “exigência moral” para com o país e a condição humana.
“A sua obra, profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana, ocupa um lugar incontornável na nossa cultura. Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade”, escreveu António José Seguro na rede social Instagram.
Para o Presidente eleito, “António Lobo Antunes foi um escritor de rara coragem intelectual, capaz de transformar a experiência individual e coletiva em literatura de grande fôlego”.
“A sua escrita ficará como um testemunho poderoso do nosso tempo e como um património duradouro da cultura portuguesa”, escreveu Seguro, que referiu ter recebido “com enorme tristeza a notícia da morte de António Lobo Antunes, uma das vozes maiores da literatura portuguesa contemporânea”.
“Neste momento de pesar, apresento as minhas mais sentidas condolências à sua família, aos seus amigos e a todos os leitores que, em Portugal e no mundo, encontraram nos seus livros uma forma única de compreender a vida. A melhor homenagem que lhe podemos prestar será continuar a ler a sua obra e a reconhecer nela uma parte essencial da nossa memória cultural”, acrescentou.
Ordem dos Médicos manifesta profundo pesar pela morte do escritor
A Ordem dos Médicos (OM) manifestou hoje o seu “profundo pesar” pela morte do médico e escritor António Lobo Antunes, destacando a perda de uma personalidade que honrou a Medicina e a Cultura.
A OM salienta que António Lobo Antunes é reconhecido como “um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea”, tendo projetado internacionalmente a cultura nacional.
Recorda que o escritor era formado em Medicina e especializado em Psiquiatria, tendo exercido no Hospital Miguel Bombarda antes de se dedicar plenamente à escrita.
“A sua obra, marcada pela experiência clínica, constitui um contributo ímpar de memória e identidade”, sublinha a OM.
A Ordem dos Médicos presta a devida homenagem a António Lobo Antunes e expressa sentidas condolências à família.
Gonçalo M. Tavares lembra a “obsessão boa por escrever até ao fim” (C/ÁUDIO)
O escritor Gonçalo M. Tavares recordou António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos, como alguém que “marca completamente a literatura portuguesa” e em quem admira, entre outros, a “obsessão boa por escrever até ao fim”.
“É um dia muito triste, no geral, para a Cultura e para a Literatura”, começou por dizer Gonçalo M. Tavares, em declarações à Lusa, falando de António Lobo Antunes como “um escritor absolutamente importante, absolutamente central, que desde os primeiros livros até aos últimos teve sempre na linguagem – numa espécie de vertigem da linguagem -, o seu centro”.
Para Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes é “um caso extraordinário de alguém que criou uma forma de a língua se exprimir”. “Através de repetições, apanhando muito a fala popular, o ‘deslarga-me’, a conversa de café, apanhando muito as repetições, apanhando tiques de linguagem e retransformando-os num conjunto de vozes infinitas de grande literatura”, justificou.
Além disso, considera que Lobo Antunes “deve ser um dos autores que mais influenciou outros autores”.
“Ele falava de se ler um livro quase como se apanhasse uma gripe, uma doença. Eu acho que muitos escritores, muitos leitores, apanharam o vírus, o seu vírus benigno, o seu vírus bom, da linguagem”, disse, defendendo haver “inúmeros escritores, de diferentes gerações, que se vê que leram António Lobo Antunes”.
Gonçalo M. Tavares recorda-se bem de, em jovem, ter lido livros como “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas” e do impacto que tiveram em si.
O escritor identifica na escrita de Lobo Antunes várias fases, mas “há duas muito essenciais”: a das primeiras obras, que o impactaram “muitíssimo, até porque foram os primeiros”, e a das últimas.
“Estes últimos livros são livros em que ele assume que a linguagem é mesmo o centro daquilo a que podemos chamar romance. E já não está interessado na história, está interessado numa espécie de encantamento da linguagem. E tem livros nesta fase final que acho extraordinários a esse nível”, referiu.
Gonçalo M. Tavares admira também em Lobo Antunes uma obsessão, “que os grandes escritores têm”, com a escrita, “que é uma brincadeira uma pessoa escrever um livro, uma espécie de passatempo”.
“Uma pessoa começa a escrever aos 20, aos 30 e depois continua aos 40, aos 50 e até aos 80. Certamente ele teve uma quantidade de convites extraordinários para ir para administrações, para cargos de super poder, e o que disse na sua prática foi ‘eu quero escrever, preciso de escrever’. E eu admiro muito isso, essa obsessão boa. Obsessão por escrever até ao fim”, explicou.
Gonçalo M. Tavares salienta ainda a importância das crónicas, “que António Lobo Antunes algumas vezes desvalorizava publicamente”.
“Há crónicas absolutamente incríveis. Há crónicas que estão nas melhores crónicas escritas em língua portuguesa, e há crónicas que têm uma densidade e uma intensidade absolutamente afetiva que é definitiva”, considerou.
Além de ter recordado “um dos grandes, nomes da literatura”, Gonçalo M. Tavares lembrou também “uma pessoa que foi, em diferentes momentos, muito generosa”.
“Tenho essa experiência prática da generosidade dele e é bom lembrar isso, porque às vezes há uma imagem do Antóbio Lobo Antunes mais pública que não corresponde a pequenos gestos que ele tinha, mais longe dos holofotes”, disse.
“Em termos literários e humanos é uma perda grande”, reforçou.
Aguiar-Branco afirma que revolucionou a literatura nacional
O presidente da Assembleia da República manifestou hoje profundo pesar pela morte do escritor e médico António Lobo Antunes, considerando que revolucionou a literatura nacional e que deixa uma obra extensa premiada em Portugal e no estrangeiro.
António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu aos 83 anos.
Numa mensagem publicada na página da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco manifesta “profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes”.
“Escritor e médico psiquiatra, revolucionou a literatura nacional. Deixa uma obra extensa, premiada em Portugal e no estrangeiro”, escreve o presidente do parlamento.
José Pedro Aguiar-Branco deixa depois uma mensagem de “sentidas condolências” à família e amigos do escritor.
PR homenageia escritor com grande-colar da Ordem de Camões
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou hoje a morte de António Lobo Antunes, a quem prestou homenagem anunciando que vai depositar junto dele o grande-colar da Ordem de Camões.
Numa nota de pesar publicada no sítio oficial da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa considera que Lobo Antunes deixa “uma bibliografia vasta, visceral, sofisticada em termos narrativos, atenta ao quotidiano, e muito tributária de experiências como a guerra e a prática clínica da psiquiatria” e que “ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes”.
“Seu leitor, admirador e amigo há décadas, pude em 2022 atribuir-lhe as insígnias da grã-cruz da Ordem de Camões, com a certeza de que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno. Vou agora depositar junto dele o grande-colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa”, acrescenta o chefe de Estado.
Governo aprova um dia de luto nacional que será cumprido no sábado
O Governo aprovou hoje em Conselho de Ministros um dia de luto nacional em homenagem a António Lobo Antunes, que será cumprido no sábado.
“O Governo também propôs ao Presidente da República, que prontamente aceitou, a atribuição do Grande-Colar da Ordem de Camões a António Lobo Antunes”, informa uma nota divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Na mesma nota refere-se que o Conselho de Ministros, hoje presidido pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, “aprovou o decreto que determina um dia de luto nacional em homenagem a António Lobo Antunes, que será observado no dia 7 de março de 2026”, no sábado.
De acordo com a lei, cabe ao Governo decretar o luto nacional, “sua duração e âmbito, sob a forma de decreto”.
O luto nacional é declarado pela morte do Presidente da República, do presidente da Assembleia da República e do primeiro-ministro e ainda dos antigos Presidentes da República, bem como “pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de excecional relevância”.
com Lusa





