O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou cerca de três milhões de documentos relacionados com Jeffrey Epstein, ao abrigo da chamada Epstein Files Transparency Act. Entre emails, mensagens de texto e outros registos, surgem múltiplas referências a Bill Gates, cuja relação com o investidor tem sido alvo de escrutínio há vários anos e que, segundo relatos, teve impacto no seu casamento com Melinda French Gates.
Apesar das novas revelações, não há documentos que acusem Gates de envolvimento em crimes relacionados com Epstein ou de conhecimento das atividades de tráfico sexual de que o investidor foi acusado.
O que se sabe sobre a relação entre Gates e Epstein
Já era público que Bill Gates manteve contacto com Epstein a partir de 2011, quase três anos depois de este se ter declarado culpado, em 2008, por aliciar uma menor para prostituição na Florida. Os dois encontraram-se várias vezes entre 2011 e 2014, inicialmente para discutir a criação de um fundo filantrópico financiado por grandes doadores.
Os documentos agora divulgados incluem comunicações sobre essa relação profissional, mas também alegações feitas por Epstein, incluindo consumo de drogas, encontros ilícitos e a alegada contração de uma doença sexualmente transmissível. Numa dessas alegações, Epstein sugeria que Gates teria fornecido antibióticos à então mulher, Melinda French Gates, sem o seu conhecimento. Em nome do fundador, a Fundação Gates classificou estas alegações como “absolutamente absurdas e completamente falsas”.
O que Gates disse após a divulgação dos ficheiros
Num encontro interno com colaboradores da Fundação Gates, a 24 de fevereiro, citado pelo The Wall Street Journal, Gates afirmou que “foi um erro enorme passar tempo com Epstein” e pediu desculpa “a outras pessoas que foram arrastadas para isto por causa do erro que cometi”. Acrescentou: “Não fiz nada ilícito. Não vi nada ilícito.”
O empresário reconheceu que manteve dois casos extraconjugais, um com uma jogadora russa de bridge e outro com uma física nuclear russa que trabalhava numa das suas empresas. Segundo o The Wall Street Journal, Epstein terá tido conhecimento dessas relações. Gates não confirmou outras alegações constantes dos documentos e reiterou que a sua relação com Epstein se limitou a conversas sobre filantropia.
Gates afirmou ainda que, quando começou a reunir-se com Epstein, soube que este tinha tido um “assunto de 18 meses” que limitava as suas deslocações, mas não investigou mais a fundo o seu passado. “Saber o que sei agora torna tudo cem vezes pior, não só pelos crimes do passado, mas porque é claro que havia comportamentos errados contínuos”, disse aos colaboradores.
Em entrevista ao canal australiano 9 News, a 4 de fevereiro, Gates afirmou que é “factualmente verdadeiro que estive apenas em jantares” e que “nunca fui à ilha” de Epstein nem “conheci mulheres” nesse contexto. Acrescentou que “quanto mais vier a público” sobre a sua ligação a Epstein, “mais claro ficará que, embora o tempo tenha sido um erro, não teve nada a ver com esse tipo de comportamento”.
Após a divulgação dos documentos, Gates também desistiu de participar numa cimeira sobre inteligência artificial na Índia, em fevereiro, num contexto de crescente escrutínio público.
O primeiro encontro e o estilo de vida “intrigante”
Emails revelados mostram que Gates deveria ter-se encontrado com Epstein em 2010, mas impeditivos se agenda impediram o encontro. No dia 2 de dezembro desse ano, escreveu que estava “ansioso pelo jantar” e esperava que se concretizasse no futuro.
O primeiro encontro teve lugar a 31 de janeiro de 2011, na residência de Epstein em Manhattan, depois de terem sido apresentados por dois responsáveis da Fundação Gates, Melanie Walker e Boris Nikolic. Num email enviado no dia seguinte a colegas, Gates escreveu que acabou por ficar “até bastante tarde” e descreveu o estilo de vida de Epstein como “muito diferente e algo intrigante, embora não funcionasse para mim”.
Registos e reportagens indicam que os dois se encontraram regularmente entre 2011 e 2014, incluindo em Nova Iorque, Alemanha, França e Washington. Gates confirmou ter viajado no avião privado de Epstein, mas afirmou que nunca passou a noite em propriedades do investidor. Reiterou também que nunca esteve na ilha privada de Epstein, apesar de um email de outubro de 2011 incluir a nota “gates to island”.
O fundo filantrópico que nunca avançou
Um dos principais pontos de contacto entre ambos foi a tentativa de criar um fundo filantrópico com o apoio do JPMorgan e de outros grandes doadores, destinado a financiar projetos de saúde a nível global.
Num email de agosto de 2011 citado pelo The Wall Street Journal, Epstein escreveu que o fundo “permitirá que Bill tenha acesso a pessoas de maior qualidade, investimento, alocação e governação sem perturbar o seu casamento ou as sensibilidades dos atuais funcionários da fundação”.
Em fevereiro de 2014, Gates escreveu a Epstein que o fundo “poderia ser uma grande coisa”. O projeto acabou por não avançar. Em dezembro de 2014, Gates escreveu: “É uma boa ideia, mas não se vai concretizar com 4 a 6 parceiros tão cedo.” Mais tarde, afirmou que a promessa de angariação de fundos feita por Epstein “foi um beco sem saída”.
Documentos indicam ainda que Epstein terá ajudado Boris Nikolic a negociar o seu pacote de saída depois de este ter sido afastado da Fundação Gates em 2013. Gates agradeceu a Epstein essa ajuda, escrevendo: “Não sei como dizer isto de forma suficientemente enfática.”
O afastamento em 2014
Segundo relatos do The New York Times, no final de 2014 Epstein queixou-se a um conhecido de que Gates “tinha deixado de falar com ele”. Um porta-voz de Gates afirmou então que, com o tempo, a equipa percebeu que as capacidades e ideias de Epstein “não eram legítimas” e todo o contacto foi interrompido.
Gates disse aos colaboradores que não voltou a reunir-se com Epstein após 2014, embora tenham surgido algumas “questões secundárias”. Mensagens posteriores mostram que Epstein continuou a tentar contactar Gates em 2015 e anos seguintes, mas não é claro se obteve resposta.
As alegações de Epstein contra Gates
Entre os documentos divulgados constam emails que Epstein enviou a si próprio em julho de 2013, aparentemente dirigidos a Gates. Não é claro quem redigiu essas mensagens. Numa delas, o autor alega que Gates lhe teria pedido para apagar mensagens relacionadas com uma doença sexualmente transmissível e com um pedido de antibióticos para Melinda French Gates.
Noutra, o autor afirma ter sido solicitado a participar “em coisas que iam do moralmente inapropriado ao eticamente questionável” e a ajudar Gates a obter drogas, além de facilitar encontros extraconjugais. Gates negou essas acusações.
Um porta-voz da Fundação Gates afirmou: “Estas alegações são absolutamente absurdas e completamente falsas. A única coisa que estes documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter uma relação contínua com Gates e até onde estaria disposto a ir para o comprometer e difamar.”
O impacto no casamento com Melinda French Gates
Mensagens entre Epstein e Melanie Walker sugerem que Melinda French Gates se opunha à relação do marido com o investidor. Em janeiro de 2017, Walker escreveu que Gates “quer falar consigo, mas a mulher não o deixa”.
A Forbes estima a fortuna de Bill Gates em 107,4 mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de 91,1 mil milhões de euros.
Melinda French Gates afirmou publicamente que a associação do ex-marido a Epstein foi um dos fatores que contribuíram para o divórcio. À CBS declarou: “Não gostei que ele tivesse reuniões com Jeffrey Epstein, não. Deixei isso claro.” Em declarações à NPR, classificou os alegados abusos de Epstein como “para lá de devastadores” e afirmou que as revelações lhe trazem “uma tristeza inacreditável”, acrescentando: “Tive de sair do meu casamento, quis sair do meu casamento.”
Gates reconheceu no encontro interno que a ex-mulher sempre foi “cética” em relação a Epstein e que continuou a reunir-se com ele apesar das suas reservas.
Contexto
Jeffrey Epstein morreu na prisão em 2019, depois de ter sido acusado de tráfico sexual. O caso mantém-se no centro do debate público devido às ligações do investidor a figuras influentes do mundo empresarial e político, incluindo antigos presidentes e outros bilionários. Até ao momento, nenhum dos documentos divulgados acusa Bill Gates de envolvimento direto em crimes relacionados com Epstein ou de conhecimento das atividades ilegais de que o investidor era suspeito.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





