Turismo nos EUA prolonga “Trump Slump” em 2026 com quebra de visitantes e impacto multimilionário

O turismo internacional para os Estados Unidos registou uma queda de 4,8% em janeiro face ao mesmo mês do ano anterior, marcando o nono mês consecutivo de recuo no número de visitantes estrangeiros, segundo dados divulgados pelo National Travel and Tourism Office, organismo do Departamento do Comércio dos EUA. A descida ocorre no arranque do…
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O turismo internacional para os Estados Unidos caiu 4,8% em janeiro, prolongando a chamada “Trump Slump” no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump. A descida de visitantes estrangeiros está a traduzir-se em perdas de milhares de milhões de dólares para a economia norte-americana.
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O turismo internacional para os Estados Unidos registou uma queda de 4,8% em janeiro face ao mesmo mês do ano anterior, marcando o nono mês consecutivo de recuo no número de visitantes estrangeiros, segundo dados divulgados pelo National Travel and Tourism Office, organismo do Departamento do Comércio dos EUA.

A descida ocorre no arranque do segundo mandato de Donald Trump e prolonga a tendência observada ao longo de 2025, num fenómeno que a indústria já voltou a apelidar de “Trump Slump” (“Recessão Trump”).

De acordo com os dados oficiais, em janeiro verificou-se uma redução de 7,5% no número de visitantes provenientes da Ásia e de 5,2% da Europa, em termos homólogos. O mercado canadiano, tradicionalmente o maior emissor de turistas para os EUA, registou uma quebra ainda mais expressiva.

Em 2025, o número de viajantes canadianos caiu 22% face ao ano anterior, uma descida que custou à economia norte-americana cerca de 4,5 mil milhões de dólares (3,82 mil milhões de euros). E os dados iniciais de 2026 não apontam para uma recuperação.

As reservas aéreas da Europa para os Estados Unidos no pico do verão estão mais de 14% abaixo do registado no mesmo período do ano passado, segundo a Cirium, empresa especializada em análise de dados de aviação.

Sebastian Ebel, CEO da TUI, a maior agência de viagens da Europa, afirmou recentemente, numa apresentação de resultados, que a empresa continua a observar “boa procura para o Médio Oriente e para a Ásia”, mas “menos procura para os EUA”.

Também no grupo Air France-KLM, o diretor financeiro Steven Zaat referiu uma procura fraca proveniente dos países do Norte da Europa, sublinhando que a popularidade dos Estados Unidos nesses mercados está “a um nível muito, muito baixo”.

O que foi a primeira “Trump Slump”?

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos registaram uma quebra de 4% no número de visitantes internacionais nos primeiros sete meses de 2017, segundo dados do mesmo organismo. A descida foi então atribuída à retórica anti-imigração da política “America First” e ao endurecimento das regras de vistos para alguns países.

Antes da pandemia de COVID-19, o impacto económico do turismo internacional manteve-se relativamente estável. Entre 2014 e 2016, os últimos três anos da administração Obama, e 2017 e 2019, os primeiros três anos do primeiro mandato de Trump, as receitas provenientes de visitantes estrangeiros cresceram menos de 1%, situando-se em cerca de 156 mil milhões de dólares por ano (132,39 mil milhões de euros).

O que mudou no segundo mandato?

No primeiro ano do segundo mandato de Trump, o recuo foi mais acentuado. Em 2025, enquanto o turismo internacional crescia globalmente, os Estados Unidos registaram uma quebra de 6% no número de visitantes estrangeiros e foram o único país, entre 184 destinos analisados pelo World Travel & Tourism Council, a ver as receitas do turismo internacional diminuírem.

A análise atribui a descida a políticas que tornam mais difícil ou mais onerosa a entrada de viajantes estrangeiros no país. Ao longo do ano, a administração Trump ponderou alargar a proibição de viagens, atualmente aplicada a 38 países, e anunciou que viajantes de alguns mercados poderiam ter de apresentar cauções de visto até 15.000 dólares (12.730 euros).

Erik Hansen, vice-presidente sénior de relações governamentais da U.S. Travel Association, afirmou que a organização espera que a administração reavalie duas medidas anunciadas mas ainda não implementadas: uma taxa de integridade de visto de 250 dólares (212 euros) e a proposta de verificação obrigatória de redes sociais para viajantes oriundos de países abrangidos pelo Visa Waiver Program.

Notícias sobre inspeções a dispositivos eletrónicos de viajantes e detenções na fronteira também terão contribuído para uma perceção menos favorável do país como destino turístico. Hansen descreveu parte da cobertura mediática como “alarmista e imprecisa”, acrescentando que “a perceção errada é um grande desafio”.

O impacto económico

Em 2024, os visitantes internacionais gastaram 254 mil milhões de dólares (215,55 mil milhões de euros) em bens e serviços relacionados com viagens e turismo nos Estados Unidos, segundo a International Trade Administration.

No início de 2025, a Tourism Economics, divisão da Oxford Economics, previa um aumento de 9% no turismo internacional de entrada, o que representaria um acréscimo de cerca de 16,3 mil milhões de dólares (13,83 mil milhões de euros) em receitas para a economia norte-americana.

No entanto, até agosto, a consultora reviu a estimativa em baixa, passando a prever uma queda de 4,2% na despesa dos visitantes internacionais, o que se traduziria numa perda anual de 8,3 mil milhões de dólares (7,04 mil milhões de euros) face ao ano anterior e numa diferença de 24,6 mil milhões de dólares (20,88 mil milhões de euros) em relação à projeção inicial.

Grande parte das perdas teve origem no Canadá. Em 2024, mais de 20 milhões de canadianos visitaram os Estados Unidos, contribuindo com 20,5 mil milhões de dólares (17,40 mil milhões de euros) para a economia norte-americana. Em 2025, cerca de quatro milhões de visitantes canadianos deixaram de viajar para os EUA, optando por destinos como o México ou as Caraíbas, contribuindo para a quebra de 22% e para uma perda estimada de 4,5 mil milhões de dólares (3,82 mil milhões de euros).

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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