Num contexto global marcado por incerteza económica, tensões geopolíticas e crescente polarização política, o orgulho nacional permanece um indicador revelador de identidade coletiva. Um estudo internacional conduzido em 2025 pela Pew Research, com mais de 30.000 adultos em 25 países (Portugal ficou de fora), procurou responder a uma pergunta aparentemente simples: “O que o faz sentir orgulho no seu país?”
As respostas, recolhidas em formato aberto, desenham um retrato variado sobre aquilo que sustenta o sentimento de pertença.
Os 25 países considerados para este estudo foram: Argentina, austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha. Grécia, Hungria, Índia, Indonésia, Israel, Itália, Japão, Quénia, México, Países Baixos, Nigéria, Polónia, África do Sul, Coreia do Sul, Espanha, Suécia, Turquia, Reino Unido e EUA.
Cultura: o motor simbólico mais consistente
Entre os vários fatores mencionados, cultura e artes emergem como uma das fontes mais universais de orgulho. A Itália lidera destacadamente: 38% dos italianos referem artes e cultura como principal razão de orgulho — o valor mais elevado entre todos os países analisados. Património, arquitetura, tradição artística e estilo de vida dominam o discurso.
Também França (26%) e México (30%) revelam forte associação entre identidade cultural e orgulho nacional.
O estudo aponta ainda uma clivagem geracional relevante: os jovens adultos e os mais escolarizados valorizam a cultura de forma significativamente superior. Em vários países, os inquiridos entre 18 e 34 anos têm pelo menos o dobro da probabilidade de mencionar cultura face aos maiores de 50.
História: celebração e desencanto coexistem
Na Grécia, 37% evocam a história — sobretudo a Antiguidade e o legado democrático — como principal fonte de orgulho. A mesma tendência surge em França, onde muitos destacam a Revolução Francesa e os direitos humanos.
Mas surge uma nuance importante: orgulho no passado nem sempre significa satisfação com o presente. Expressões como “apenas da nossa história” refletem uma tensão latente entre memória coletiva e realidade contemporânea.
Estilo de vida: felicidade como ativo nacional
Em países como Espanha (14%) e Austrália (13%), o estilo de vida é um dos fatores mais citados. Convívio social, clima, descontração e qualidade de vida surgem como elementos centrais. Nos Países Baixos e na Suécia, emerge a ideia de bem-estar relativo: orgulho em viver melhor do que em muitas outras geografias.
Pessoas: orgulho emocional e social
O orgulho nas pessoas do país é um dos temas mais recorrentes. Na Argentina, 35% destacam solidariedade, empatia e resiliência. No Brasil, surgem referências frequentes à alegria e capacidade de superação. No Japão (41%), os valores mais citados incluem respeito, honestidade e diligência. Na Coreia do Sul, o orgulho recai frequentemente na ética de trabalho.
Diversidade: orgulho para uns, fricção para outros
O Canadá e a Indonésia estão entre os países onde a diversidade cultural e étnica surge com mais força como motivo de orgulho: cerca de 30% dos inquiridos em cada país referem explicitamente o multiculturalismo, a convivência entre grupos ou a pluralidade linguística e religiosa.
Nos Estados Unidos, o padrão é diferente. A diversidade não figura entre as principais fontes de orgulho a nível agregado — apenas cerca de 11% dos americanos a mencionam. Ainda assim, este número esconde uma clivagem: entre inquiridos posicionados à esquerda, a diversidade é referida por cerca de 11%; entre os posicionados à direita, o valor cai para apenas 4%.
Dinâmicas semelhantes surgem no Reino Unido e na Suécia. No Reino Unido, 16% referem a diversidade como motivo de orgulho, enquanto outros a associam a críticas sobre imigração e mudanças sociais. Na Suécia, o tema aparece tanto em discursos positivos como negativos, frequentemente ligado ao debate migratório.
O estudo aponta um padrão transversal: eleitores e inquiridos ideologicamente à esquerda são consistentemente mais propensos a valorizar a diversidade, tendência observável no Canadá, Austrália, Países Baixos, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos.
Mais do que um simples fator identitário, a diversidade revela-se um marcador das tensões culturais e políticas contemporâneas.
Política e governação: confiança gera orgulho
Nos países de elevado rendimento, o sistema político surge frequentemente como fonte de orgulho. A Suécia apresenta o valor mais expressivo: 53% mencionam explicitamente o modo como o país é governado. A Alemanha (36%) segue padrão semelhante. Democracia, estabilidade e instituições fortes são os elementos mais valorizados.
O caso dos Estados Unidos: um orgulho atípico
Os dados adicionais revelam um retrato particularmente singular dos Estados Unidos.
Apesar da forte presença simbólica do país no imaginário global, os norte-americanos estão entre os que menos mencionam política, história ou cultura como fontes de orgulho: apenas 8% referem o sistema político como motivo de orgulho — bem abaixo de Suécia (53%), Alemanha (36%) ou Canadá (22%); só 3% mencionam a história nacional.
Artes e cultura colocam o país penúltimo entre os 25 analisados.
Mais surpreendente: um em cada cinco americanos respondeu com algo negativo ou crítico, tornando os EUA o quinto país com maior incidência de respostas de teor negativo — apenas Reino Unido, Espanha, Nigéria e Hungria registaram níveis semelhantes ou superiores.
Liberdade: o pilar central
Os EUA foram o único país onde a liberdade surge como a principal fonte de orgulho. Cerca de 22% dos inquiridos destacaram-na, superando qualquer outra categoria.
Este dado reforça uma narrativa identitária profundamente enraizada: o orgulho americano parece assentar menos em instituições ou legado histórico e mais em valores fundacionais.
Polarização visível nas respostas
O estudo expõe também diferenças claras entre eleitores: Republicanos são mais de duas vezes propensos a mencionar liberdade (32% vs. 15%), demonstram maior orgulho na economia, sistema político, forças armadas e papel internacional. Os democratas valorizam mais diversidade e multiculturalismo.
Outro dado revelador: os americanos são mais propensos do que a maioria dos países a mencionar o líder político pelo nome. Nos EUA, 6% referem um líder ou partido como fonte de orgulho — e, destes, 60% mencionam Donald Trump explicitamente. Noutras geografias, apenas 35% dos que valorizam líderes o fazem pelo nome.
Orgulho nacional em queda?
Outro estudo, neste caso da Gallup, apenas 58% dos adultos norte-americanos afirmaram em 2024 estar “extremamente” ou “muito” orgulhosos de ser americanos — um mínimo histórico. A quebra foi mais acentuada entre democratas e independentes, enquanto os republicanos mantiveram níveis relativamente mais estáveis.
O que nos dizem estes dados?
O estudo global aponta para três conclusões essenciais: o orgulho nacional é sobretudo cultural e humano — vive nas pessoas, tradições e estilo de vida; orgulho e crítica coexistem — sentimentos de pertença não anulam insatisfação política ou económica; e os EUA revelam um padrão atípico — orgulho menos ancorado em história ou cultura e mais centrado em liberdade, num contexto de elevada polarização.





