Albano Jerónimo: “A cultura é agregadora, não há cultura de primeira ou de segunda”

Espera-se um ano cheio de projetos para Albano Jerónimo, mas o mote desta conversa foi o filme "Primeira Pessoa do Plural", do realizador Sandro Aguilar. Com estreia em Portugal marcada para 19 de fevereiro, este projeto já foi premiado a nível internacional. Mas como acredita que a "cultura faz bem", e deve deixar de "ser…
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Na semana de estreia do filme "Primeira Pessoa do Plural", a Forbes falou com o protagonista Albano Jerónimo.
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Espera-se um ano cheio de projetos para Albano Jerónimo, mas o mote desta conversa foi o filme “Primeira Pessoa do Plural”, do realizador Sandro Aguilar. Com estreia em Portugal marcada para 19 de fevereiro, este projeto já foi premiado a nível internacional.

Mas como acredita que a “cultura faz bem”, e deve deixar de “ser extraordinária para passar a ser ordinária”, o ator falou também sobre o momento que o cinema ultrapassa em Portugal, a sua experiência no streaming com “Rabo de Peixe” e o palco onde regressa sempre: o teatro. Onde, aliás, o poderá ver em peças como “Veneno” ou “Festa”.

O que é que nos pode dizer sobre este projeto “Primeira Pessoa do Plural”?
Estamos a falar de um casal que perde uma filha e que tenta diluir esta perda de várias formas, é uma espécie de manual de sobrevivência, como é que se continua junto, como é que se recupera, como é que se ultrapassa, como é que se digere esta dor. Uma das possibilidades, clinicamente falando, que pode acontecer é que os pais que passam por isto, para melhor suportarem esta dor, projetam-se noutras vidas. E o Sandro, o realizador, filmou estas possibilidades. Eu faço quatro ou cinco personagens e a Isabel [Abreu] faz três. É um filme onde conseguimos estilhaçar, ou tentamos pelo menos, através de uma fotografia inacreditável, há um contraste feito propositadamente pelo Sandro, tornar o filme altamente apelativo, desde a fotografia, as cores. E também falar aqui de uma perspetiva cómica, uma curiosidade que se pretende estabelecer com o público para exatamente termos este contraste. Existe uma espécie de linguagem física, que muitas vezes nós propomos, enquanto atores, para desenvolver uma perspectiva mais leve, sempre tendo como pano de fundo esta perda. É um contraste e acreditamos que o público se possa rever também.

O Sérgio Aguilar disse numa entrevista que as suas referências para este filme foram o cinema musical e os filmes dos anos 40. Na construção dos seus personagens em específico, o que é que o inspirou?
Partimos dessas referências, vimos muitos filmes dessas épocas, porque uma vez mais aqui o interessante é exatamente este contraste, esta contenção brutal. A título de curiosidade, não me era permitido chorar enquanto pai de uma criança que morreu, e em contraponto teria que ter eu sim uma musicalidade muito mais marcada, muito mais perto de uma ideia de um musical, e então este contraste foi meio imposto, digamos assim. Eu gosto, as regras do jogo foram estabelecidas para mim desta forma. Depois obviamente é confiar, é confiar tremendamente no Sandro, é confiar tremendamente numa equipa, desde a direção de arte. maquinaria, figurinos, todo este ensamblo. Uma das coisas que este filme trouxe à superfície é a necessidade tremenda do outro para existir, para sobreviver, ora seja dramaturgicamente no próprio filme, ora seja a nível de trabalho puro e duro na estrutura e logística que é fazer o filme.

E em relação ao público, que lições espera que se tirem deste filme?
Primeiramente, que se divirtam, porque a proposta deste filme é muito dentro dessa lógica: que consigamos, através da dor, rirmo-nos e nesse mecanismo que nos consigamos ver ou reinventar através deste casal que tenta sobreviver. Obviamente que sou altamente suspeito, mas que presenciem um objeto cinematográfico único, porque estamos a falar aqui de um rigor estético e de um bom gosto acima da média. Tudo o que acontece e que vão ver neste filme, foi pensado e trabalhado com um rigor absolutamente único. O resultado é uma obra, esteticamente falando, com sumo, ou seja, com corpos dentro. Aquilo que o público pode esperar é exatamente isso, um filme, nem vou dizer um filme português, é um filme incrível. Tenham a capacidade de não vir com muitos pré-conceitos, venham sim para entrar nesta história, neste delírio, através da dor que estas personagens vivem, para tentarem sobreviver.

O filme estreou no Festival de Cinema de Roterdão e já foi também premiado. Que peso tem este reconhecimento internacional num projeto?
É sempre relevante. A primeira montra foi Roterdão, onde teve uma recepção inacreditável e críticas incríveis. Depois tivemos prémios e um reconhecimento na Mostra Internacional de Valência, que é uma referência a nível europeu. Pessoalmente, fui reconhecido como o melhor ator também em Valência. O que isto me dá a mim? Alguém que não me conhece de parte nenhuma, de repente reconhecer-me pelo trabalho é altamente gratificante. Porque é só o trabalho que fala, não há aqui outras coisas. Estes prémios vêm dar um alento, de que é possível fazer acontecer coisas lá fora, com qualidade, e que as pessoas, de facto, se liguem. Que é possível criar objetos em português que comunicam, seja aqui ou lá fora.

Foto: Tiago Sales

Em que momento está o cinema português?
Está em movimento, assim quero acreditar. Está a caminho de se encontrar, de sobreviver. Sabemos perfeitamente que as condições orçamentais são sempre escassas. A matéria-prima artística é única, temos variadíssimos exemplos de uma massa jovem de realizadores a aparecer cada vez mais, a ter expressão lá fora. Já conseguimos identificar um género português, nem que seja o facto de não ter género, que eu acho que é uma grande vantagem, são obras abertas, que comunicam. Mas este é o ponto, de um lado temos uma perspetiva artística de quem faz muito pujante, muito musculada, e por outro, de governo para governo, um desinvestimento permanente. O cinema, muitas vezes, ainda é tido como uma espécie de luxo, mas não é. Qualquer arte, na minha opinião, é uma linguagem social. E se nós não cuidarmos da nossa linguagem social, da nossa identidade, há um desinvestimento permanente, ou seja, ficamos sempre em nenhum, dá sempre aqui uma zona meio insípida, pouco clara, no fundo. Portanto, o balanço é sempre este. Portanto, há uma perspetiva muito otimista, mas há um confronto com a realidade e a realidade fala por si: há um desinvestimento. Mas rematando esta minha opinião com otimismo, acreditamos sempre que o amanhã será melhor, há pequenos movimentos que começam a surgir, esta própria Ministra da Cultura tem-se mostrado interessada em ouvir a classe, os agentes culturais, portanto, querendo ser um otimista cético, como diria o Jorge Palma, acredito no melhor amanhã e espero que assim se materialize.

Em fases de instabilidade a nível nacional, qual pode ser o papel da cultura?
Um barómetro, é exatamente nesta desordem que estamos a viver que a cultura serve como barómetro, são uma espécie de ilhas de reconhecimento para todos nós e ao mesmo tempo, como disse há pouco, é uma base identitária, para nós sabermos onde voltar. A cultura é agregadora, não há cultura de primeira ou de segunda. Estes momentos servem para separar a sociedade, como vimos nas eleições recentemente, mas a cultura é de facto uma plataforma que agrega e que convoca todas as pessoas para construirmos em conjunto algo que se chama humanidade.

Foto: Tiago Sales

Como ator, o que é que acha que os outros setores podem aprender com o seu, e, por outro lado, o que é urgente mudar no seu setor?
Eu sou um agente de comunicação e pretendo que o meu trabalho toque várias ou uma pessoa que seja, para que essa pessoa consiga sentir-se ouvida, reconhecida naquilo que sente, que vê, que imagina, e que isso seja uma espécie de estímulo para propagar aquilo que eu, com o meu trabalho, posso fazer sentir. No fundo, aquilo que eu quero dizer é que aquilo que eu faço como agente de comunicação que sou, que consiga tocar no maior número de pessoas e que seja transformador, sobretudo num sentido em que as pessoas se questionem, interroguem aquilo que veem, aquilo que ouvem, aquilo que acreditam, que não tomem nada como garantido. Que seja uma espécie de montra de discussão pura e dura, onde possamos pôr tudo em perspetiva.

Há várias perspectivas aqui, há uma perspectiva em televisão. Se por um lado temos as séries a crescerem no nosso país, assistimos paralelamente o formato de novela a querer ter cada vez menos tempo de trabalho para ser mais produtiva, isso obviamente descaracteriza o trabalho de todos os setores. Há uma otimização do formato de novela, fazer tudo acontecer em muito menos tempo, o que faz com que tudo fique mais comprimido. Aí as pequenas coisas perdem-se e começa-se a jogar tudo numa onda só de produtividade. Em teatro vivemos tempos verdadeiramente estimulantes. Em digressão, e eu tenho uma estrutura que é a Teatro Nacional 21 há mais de 15 anos, pautamo-nos sempre pela descentralização cultural. As casas estão lotadas, as pessoas estão com uma apetência brutal para o teatro, de ver pessoas em cena. Acredito que o cinema português está cada vez mais musculado, isto na relação com o espetador, que já está completamente longe daquelas questões do cinema português: que é parado, ou qualquer coisa que seja. Há filmes portugueses incríveis, faz-se bom cinema neste país, e o público sabe disso. As pessoas estão à procura de pessoas, tanto no teatro como no cinema isso sente-se de forma claríssima. E isso é de salutar.

O Albano fez “Rabo de Peixe”, de que forma é que o streaming tem contribuído para o crescimento do mercado em Portugal?
Primeiro, em relação ao público. Foi um movimento muito interessante durante a primeira temporada, de facto dinamizou todo o país à volta de um produto made in Portugal. Isso é o mais interessante. Depois há toda uma perspetiva financeira, de Portugal como um país capaz de produzir algo economicamente viável lá fora. Isto para uma plataforma de streaming, obviamente, é o determinante. Outra perspetiva, de forma mais pessoal agora, é que isto, mal ou bem, pode-nos, e estou a deixar isto com aspas, dar aqui uma montra para nos agilizar a perspectiva de algum realizador ou um diretor de casting poder olhar para nós. No fundo, aproxima-nos deste mercado global, pôs Portugal no mapa do streaming, a dizer que é possível fazer acontecer algo que também tenha um eco lá fora. E espero, e esta agora é para mim também uma das questões centrais, que tenhamos a inteligência de deixar portas abertas ou de deixar um campo semeado para quem aí vem. Que “Rabo de Peixe” tenha sido um bom exemplo de atitude profissional, de produção, e que isso sirva de mote para que as plataformas de streaming olhem para Portugal como um terreno fértil para poder investir e, aí sim, continuarmos a desenvolver os nossos escritores, os nossos artistas, realizadores, diretores de fotografia, técnicos, por aí fora.

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