Opinião

Quando foi preciso pedir ajuda, apareceram mulheres

Ana Ines Patricio

A tempestade já tinha passado. Os estragos estavam à vista, os pedidos acumulavam-se e tornou-se evidente que os meios disponíveis não chegavam para responder a tudo. Foi alguns dias depois, quando a urgência deixou de ser apenas climática e passou a ser humana, que nasceu a plataforma Tempestade SOS.

A plataforma não surgiu como um projecto acabado. Surgiu porque havia demasiados pedidos e poucas mãos. Pedimos ajuda. De forma simples, directa, quase crua. E a resposta foi imediata.

Em minutos começaram a chover voluntários. Em muito pouco tempo eram centenas. E eram mulheres. Todas. No back office, desde o primeiro momento até hoje, a resposta foi feminina. Não por desenho prévio, não por intenção declarada. Foi simplesmente assim que aconteceu.

Mulheres com profissões diferentes, idades diferentes, vidas já cheias. Algumas com experiência em voluntariado, outras a fazer aquilo pela primeira vez. Não perguntaram quanto tempo ia durar nem se a estrutura estava perfeita. Perguntaram apenas o que era preciso fazer.

A plataforma ainda estava a ser afinada e, ao mesmo tempo, começou uma aprendizagem colectiva acelerada. Em poucos dias, estas mulheres fizeram um verdadeiro curso intensivo em reconstrução prática. Aprenderam a distinguir tipos de telhas, quais serviam, quais não serviam, quais eram compatíveis e quais só iam criar mais problemas. Aprenderam que nem todas as telhas são iguais e que esse detalhe muda tudo no terreno.

Aprenderam também que “um camião” não é uma ideia vaga. Que há camiões pequenos, médios, TIR, carrinhas, plataformas abertas e fechadas, com grua ou sem grua. Que classificar mal um transporte pode significar horas perdidas, material inutilizado e frustração desnecessária. E, por isso, começaram a categorizar, a filtrar, a perguntar melhor.

Pelo caminho, aprenderam ainda a identificar painéis sanduíche, um termo que até há pouco tempo não fazia parte do vocabulário de muitas, mas que passou a ser urgente saber reconhecer. Tudo isto feito entre mensagens rápidas, áudios curtos, fotografias enviadas à pressa e muitas frases começadas por “desculpem a ignorância, mas…”.

As mensagens chegavam quando o corpo já devia estar a descansar. Às duas da manhã discutiam-se filtros. Às três afinavam-se categorias. E, pelo meio, alguém tinha sempre a lucidez de mandar parar. “Agora vão dormir.” “Não se trata Roma num dia.” “Descansem, por favor.” Organizar, sim, mas sem esquecer que do outro lado estavam pessoas cansadas.

As ofertas continuavam a surgir, muitas delas sem qualquer pedido prévio. Materiais comprados de propósito para ajudar, transporte assegurado, disponibilidade imediata. Nem sempre era simples saber onde encaixar tudo, mas havia uma preocupação comum: resolver, não complicar. Ajudar, não aparecer.

Havia humor, porque sem ele ninguém aguenta. Havia tensão, porque a urgência não espera. Havia bom senso a travar impulsos e a pedir calma quando era preciso. Tudo isto feito sem cargos, sem hierarquias rígidas, sem discursos sobre liderança. Apenas trabalho. E aprendizagem constante.

Esse trabalho não parou. Pelo contrário. O que começou com cerca de vinte pessoas cresceu rapidamente. Hoje, à data de hoje, são quarenta e três mulheres no back office, a tratar pedidos, a cruzar informação, a fazer triagens, a responder a quem precisa. E há muitas outras no terreno, de caderno na mão, a recolher dados, a ouvir histórias, a garantir que nada se perde.

E vai continuar a ser preciso mais. Mais tempo, mais disponibilidade, mais capacidade de escuta e de organização. Mais voluntariado. Até agora, tem sido feminino. Não como bandeira, mas como realidade.

Não há aqui romantização do voluntariado. Há cansaço, há erros, há correcções feitas em tempo real. Há gargalhadas a meio do caos e mensagens de boa noite que não significam desligar, apenas ganhar forças para continuar no dia seguinte.

Para já, importa registar isto. Quando foi preciso pedir ajuda, ela apareceu. E apareceu sob a forma de mulheres que aprenderam em dias o que nunca pensaram precisar de saber, que continuam, que sabem que isto ainda não acabou.

Sem aplausos, sem palco, sem pose. Apenas com a certeza tranquila de que, enquanto for preciso, ninguém fica para trás.

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