Os fatos de patinagem artística dos Jogos Olímpicos não são baratos. Os designers explicam esses bastidores

Um fato de patinagem artística tem de fazer duas coisas ao mesmo tempo, sem falhar. Tem de ser funcional, como equipamento desportivo, e tem de parecer alta-costura, como se tivesse saído de uma passerelle. E essa combinação, quando feita ao mais alto nível, paga-se caro. Para a sempre mediática competição de patinagem artística nos Jogos…
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Os fatos usados pelos patinadores de elite em Milão-Cortina podem custar até 8.000 dólares (6.700€) por peça, não tanto pelos materiais, mas pelo tempo de trabalho artesanal, que pode chegar às 150 horas. Para os Jogos, há quem tenha gasto “milhares” apenas para subir ao gelo com o visual certo.
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Um fato de patinagem artística tem de fazer duas coisas ao mesmo tempo, sem falhar. Tem de ser funcional, como equipamento desportivo, e tem de parecer alta-costura, como se tivesse saído de uma passerelle. E essa combinação, quando feita ao mais alto nível, paga-se caro.

Para a sempre mediática competição de patinagem artística nos Jogos Olímpicos de Inverno, neste caso de Milão-Cortina 2026, o tema voltou a ganhar destaque: afinal, quanto custa vestir um atleta que vai competir no palco mais exigente do mundo?

Segundo os designers que trabalham com os principais nomes da modalidade, um fato pode levar até 150 horas a ser tingido, pintado, cortado e cosido, o que empurra o preço para valores que podem chegar aos 8.000 dólares (6.746€) para os atletas que entram no gelo em Milão.

O “bónus” olímpico que pode desaparecer… em vestidos

Se a norte-americana Alysa Liu conseguir levar até ao fim o seu regresso à competição, depois de dois anos afastada, e conquistar o ouro olímpico em Milão-Cortina, terá direito a um prémio de 37.500 dólares (31.625,36 euros), pago pelo Comité Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos.

Patinar com estilo: entre os clientes da designer Lisa McKinnon, sediada em Los Angeles, estão Liu e a atual campeã nacional dos EUA, Amber Glenn. Foto: Ian Fischer

É um valor significativo para a maioria dos atletas olímpicos de inverno. Mas, no caso da patinadora norte-americana de 20 anos, esse dinheiro já está, na prática, comprometido. “Isso seria só para os fatos”, diz, a rir, a designer Lisa McKinnon, de Los Angeles, que fez seis fatos para Liu ao longo do último ano.

McKinnon cobra, em regra, entre 3.500 e 8.000 dólares (2.951,70 a 6.746,74 euros) por peça, e os fatos olímpicos tendem a situar-se no topo desse intervalo.

E os custos disparam rapidamente por uma razão simples: a maioria dos atletas leva pelo menos três visuais para os Jogos, um para o programa curto, outro para o programa livre e outro para a gala final, uma atuação de encerramento sem pontuação.

Porque é que é tão caro? Não é pelos cristais

Ao contrário dos collants usados pela equipa feminina de ginástica dos EUA nos Jogos de Paris 2024, que estavam bordados com milhares de cristais e pérolas e custaram cerca de 5.000 dólares (4.216,72 euros), os fatos de patinagem artística são caros por um motivo diferente. O peso está no trabalho. O processo é altamente artesanal e iterativo: os desenhos mudam com o feedback do atleta, e entre tingimentos, aerografia, pintura, corte e costura à mão, o resultado final pode levar meses a ficar pronto. Além disso, há um problema estrutural no mercado: simplesmente não existem muitos profissionais capazes de acertar no equilíbrio entre estética e desempenho técnico.

Um mercado concentrado e um pequeno “clube” de criadores

Muitos dos melhores patinadores do mundo, sobretudo os que competem pelos Estados Unidos, acabam por recorrer a um número reduzido de designers. Além de Lisa McKinnon, uma das referências é o designer Mathieu Caron, sediado no Quebeque, que trabalha com Madison Chock e Evan Bates, um casal norte-americano de dança no gelo que conquistou o ouro por equipas em Pequim há quatro anos e que vai competir em Milão ao lado de Liu.

Já a japonesa Satomi Ito desenhou os fatos de Ilia Malinin, o patinador norte-americano de 21 anos que é apontado como favorito ao ouro em singulares masculinos. “Penso que há um nível de arte por trás dos nossos fatos que as pessoas valorizam muito”, afirma McKinnon.

Quanto ganham os designers e quanto tempo demora um fato?

A procura criou um mercado lucrativo, mas restrito. McKinnon cobra 90 dólares (75,90 euros) por hora e produziu entre 60 e 70 fatos personalizados no último ano, com uma média de cerca de 50 horas por peça.

Caron tem uma tarifa horária mais baixa, em torno de 35 dólares (29,52 euros), mas os seus prazos são mais longos: os fatos podem levar entre 80 e 150 horas a concluir. E quando chegam os Jogos Olímpicos, de quatro em quatro anos, o cenário muda.

Os pedidos de alterações de última hora aumentam, o stress sobe e, como admite Caron, o dinheiro também começa a circular com outra facilidade: “Todas as carteiras estão abertas. Toda a gente quer garantir que tem a melhor opção.”

Um custo pesado para atletas com rendimentos limitados

Para muitos patinadores, este é um encargo difícil de suportar, porque os fatos são, regra geral, pagos do próprio bolso. Há exceções. Ilia Malinin terá recebido, segundo estimativas, cerca de 700.000 dólares (590.340,10 euros) em patrocínios no último ano. E Chock e Bates terão um rendimento anual conjunto superior a 1 milhão de dólares (843.343,00 euros). Mas são casos raros.

Para a maioria, o esforço é mesmo considerável: Não estamos a falar de pessoas que ganham milhões de dólares, ou sequer centenas de milhares de dólares, em todas as épocas”, sublinha Jackie Wong, analista de patinagem artística. “E é um desporto bastante caro.”

Com o visual certo: os dançarinos no gelo americanos Madison Chock e Evan Bates, que conquistaram a medalha de ouro por equipas em 2022, trabalharam com o designer Mathieu Caron, sediado em Quebec. Foto: Matthew Stockman/Getty Images

Há formas de poupar, mas nenhuma é perfeita

Alguns atletas de topo recebem fatos em troca de promoção dos designers. Outros recorrem a soluções mais criativas. O par alemão Minerva Fabienne Hase e Nikita Volodin recebeu apoio financeiro de Katarina Witt, duas vezes campeã olímpica pela Alemanha de Leste nos anos 1980.

Já Karen Chen, que conquistou o ouro por equipas com os EUA em 2022 antes de abandonar o circuito competitivo, passou grande parte da carreira a patinar com vestidos feitos pela mãe, que terão custado entre 1.000 e 1.500 dólares (843,34 a 1.265,01 euros) cada.

Este ano, há ainda um caso particular no Canadá: se Deanna Stellato-Dudek conseguir recuperar de uma lesão e competir em pares, usará os primeiros vestidos de patinagem artística desenhados pela casa Oscar de la Renta. É um exemplo raro de uma grande marca de moda a entrar no desporto, com uma exceção histórica bem conhecida: Vera Wang, que quase se qualificou para a equipa olímpica norte-americana em 1968 e que, ao longo da carreira, desenhou fatos para nomes como Nancy Kerrigan, Michelle Kwan e Nathan Chen.

Depois dos Jogos, os fatos não ficam guardados numa caixa

Com investimentos tão elevados, a maioria dos patinadores tenta reutilizar os fatos depois de os retirar da competição. Usam-nos em espetáculos, galas e exibições. Ou emprestam-nos.

Alysa Liu, por exemplo, pediu emprestado um vestido à dançarina espanhola Olivia Smart para a gala dos Jogos de 2022. E a dançarina no gelo Emiliea Zingas usou um dos fatos de Amber Glenn nos campeonatos dos EUA deste ano, em St. Louis. “Há muita troca, reutilização e reciclagem”, diz Wong. “São peças desportivas disfarçadas de moda, por isso são muito duráveis.”

Num ano olímpico, «todos os bolsos estão abertos», afirma o designer Matthieu Caron. «Todos querem ter a certeza de que têm a melhor opção.» Foto: Martin Girard/Shoot Studio

Um negócio difícil de escalar, mesmo quando há procura

Para os designers, pode parecer fácil imaginar um futuro em que o trabalho continua a ser procurado por atletas de topo. Mas, na prática, é um negócio difícil de expandir. As operações de McKinnon e Caron são pequenas, com cinco e 17 funcionários, respetivamente. E contratar é um desafio, porque muitos candidatos não têm experiência com os tecidos elásticos usados na patinagem.

Ainda assim, os principais nomes do setor procuram formas de chegar a um público mais amplo. O estúdio de Caron lançou uma plataforma semi-personalizada chamada Iconic Skate, que permite aos patinadores misturar e combinar opções pré-definidas: “É como uma cozinha do IKEA, mas para patinadores”, diz.

Já a loja de McKinnon vende versões simplificadas dos fatos, que reduzem o custo de mão de obra e custam entre 399 e 2.000 dólares (336,09 a 1.686,69 euros). “Também têm de ser mais baratos, para que as pessoas consigam realmente comprar um”, sublinha. E McKinnon tem razão: nem todos os atletas podem contar com ganhar ouro de quatro em quatro anos.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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