Com os Jogos Olímpicos de Inverno a decorrerem em Milão-Cortina, volta uma pergunta que aparece sempre que o mundo se fixa no pódio: afinal, quanto vale uma medalha olímpica?
A pergunta tem duas respostas: a primeira é o valor do metal propriamente dito, que este ano está em máximos históricos. A segunda, e muitas vezes a mais relevante, é o valor de mercado da medalha enquanto objeto de colecionismo, que pode multiplicar o montante por dezenas ou centenas de vezes.
O metal está mais caro, e isso muda tudo
Segundo a Forbes, as medalhas de Milão-Cortina valem mais do que em qualquer edição anterior, devido à escalada do ouro e da prata nos últimos meses.
Apesar de os preços terem recuado ligeiramente depois de máximos atingidos na semana passada, a prata está hoje cerca de três vezes mais cara do que estava durante os Jogos Olímpicos de 2024 em Paris, enquanto o ouro está aproximadamente duas vezes mais caro. Resultado: as medalhas desta edição têm um valor intrínseco muito superior.
Importa, no entanto, um detalhe essencial: as medalhas de ouro não são feitas integralmente de ouro.
De acordo com a informação citada pela Forbes, as medalhas de ouro são compostas por cerca de 500 gramas de prata, revestidas com 6 gramas de ouro. Já as medalhas de prata são feitas com 500 gramas de prata.
Quanto valem, afinal, as medalhas de Milão-Cortina?
Stephen Hare, economista principal da Oxford Economics, explicou à Forbes que, com base nas previsões de preços da Oxford para 2026, uma medalha de ouro de Milão-Cortina deverá valer cerca de $1.940 (1.641,55 euros), enquanto uma medalha de prata deverá valer aproximadamente $1.000 (846,16 euros).
Estas estimativas usam previsões de $4.690 (3.968,50 euros) para a onça de ouro e $64 (54,15 euros) para o da prata.
Hare sublinhou que estas previsões são inferiores aos preços spot atuais, porque o objetivo é retirar volatilidade a um mercado que, nas últimas semanas, tem oscilado de forma extrema.
A diferença face a edições recentes é muito expressiva. Nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, a Oxford Economics avaliava as medalhas de ouro em cerca de $700 (592,31 euros) e as de prata em cerca de $350 (296,16 euros).
Uma estimativa ainda mais alta: a visão do mercado
A Forbes cita também uma estimativa superior da empresa Dillon Gage Metals, uma firma de trading de metais no Texas, que projeta um valor de cerca de $2.357 (1.994,40 euros) para uma medalha de ouro de Milão-Cortina e $1.399 (1.183,78 euros) para uma medalha de prata.
Neste cenário, a conta é feita com um preço spot do ouro de $4.967,90 (4.203,65 euros) por onça troy e um preço de $87 (73,62 euros) para a prata.
O verdadeiro valor pode estar no leilão, não no metal
Mas o mercado dos metais preciosos é apenas uma parte da história. Segundo Bobby Eaton, especialista em memorabilia olímpica da casa de leilões RR Auction, sediada em Boston, um atleta disposto a vender uma medalha conquistada em Milão-Cortina pode estar perante um pagamento muito superior ao valor do metal.
Eaton estima que uma medalha de ouro pode ser leiloada por entre $60.000 (50.769,72 euros) e $80.000 (67.692,96 euros) se o atleta decidir vendê-la nas semanas imediatamente a seguir aos Jogos.
O valor pode subir ainda mais se a medalha tiver sido conquistada por um atleta famoso ou numa modalidade particularmente popular.
Segundo Eaton, é precisamente no pós-Jogos que existe maior potencial de valorização, porque “não há muita oferta no mercado, e isso aumenta o valor porque os colecionadores querem um conjunto completo”.
Ainda assim, o especialista considera que a subida do ouro e da prata não deverá ter impacto direto no preço final de leilão: o que os compradores procuram é o simbolismo e a raridade da medalha olímpica, e não o metal em si.
Quanto já renderam medalhas olímpicas no passado?
A Forbes recorda vários exemplos recentes que ilustram como o mercado pode atingir valores muito acima do material.
Bobby Eaton revelou que a RR Auction vendeu, em julho, três medalhas do mergulhador Greg Louganis por mais de $430.000 (363.849,66 euros). Entre elas estavam:
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$200.000 (169.232,40 euros) por um ouro conquistado em Seul 1988
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$199.000 (168.386,24 euros) por um ouro de Los Angeles 1984
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$30.000 (25.384,86 euros) por uma prata de Montreal 1976
Segundo Eaton, os valores foram tão elevados porque Louganis é um nome histórico, frequentemente apontado como um dos melhores mergulhadores de sempre.
Também uma medalha de ouro de Paris 2024, acompanhada por uma tocha rara de estafeta, foi vendida no verão passado por $124.000 (104.924,09 euros).
Mas nem todas as medalhas antigas chegam a esses patamares. Eaton apontou, por exemplo, uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim 2006, vendida por $43.000 (36.384,97 euros), e uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Verão de Los Angeles 1932, que no ano passado foi arrematada por $18.000 (15.230,92 euros) na RR Auction.
O nadador norte-americano Ryan Lochte, medalhado olímpico por 12 vezes, também capitalizou parte do seu palmarés. Segundo a Forbes, terá vendido três medalhas de ouro no mês passado por $385.520 (326.212,37 euros) na Goldin Auctions. Em 2022, Lochte vendeu ainda seis medalhas, três pratas e três bronzes, por mais de $166.000 (140.462,89 euros) na RR Auction.
A medalha olímpica mais cara de sempre
O recorde absoluto pertence a uma medalha de ouro de 1936 conquistada pelo mítico atleta norte-americano Jesse Owens, que foi vendida em leilão ao bilionário Ron Burkle por $1,47 milhões (1.243.858,14 euros) em 2013. A Forbes nota que, em valores atuais, isso corresponde a mais de $2 milhões (1.692.324,00 euros).
O que esperar a seguir
Stephen Hare refere que a Oxford Economics prevê que a prata esteja cerca de 2% acima do valor atual até aos próximos Jogos, em 2028, sugerindo que as medalhas futuras poderão ser ligeiramente mais valiosas do que as de Milão-Cortina.
Ouro e prata em modo “montanha-russa”
O ouro estava a negociar perto de $4.973,30 (4.208,22 euros) na tarde da última sexta-feira, enquanto a prata spot rondava $77,02 (65,17 euros). Depois de uma escalada histórica que fez o ouro subir cerca de 65% e a prata cerca de 150% ao longo de 2025, o contexto é de forte volatilidade, ainda que a tendência possa ser para subida. A prata chegou mesmo a ultrapassar um máximo histórico acima de $121 (102,39 euros), enquanto o ouro esteve acima de $5.600 (4.738,51 euros), antes de ambos caírem após o Presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado Kevin Warsh como escolha para a presidência da Reserva Federal.
Ross Norman, CEO da Metals Daily, afirmou numa nota citada pela Forbes que a volatilidade é tão elevada porque o trading especulativo fez com que as commodities se tornassem “mais parecidas com um casino do que com um mercado”. Já analistas do Saxo Bank previram que a prata deverá “continuar a negociar violentamente em ambas as direções”.
Seja como for, no final das contas, o valor de uma medalha olímpica continua a depender menos do que ela pesa em ouro ou prata, e muito mais do que pesa em história.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





