Davos voltou a afirmar-se, este ano, como um espelho fiel das tensões que atravessam a ordem mundial. Mais do que um encontro de líderes globais, o Fórum Económico Mundial funcionou como um espaço de diagnóstico coletivo de um sistema em transição, pressionado por fraturas económicas, políticas, ideológicas, tecnológicas e institucionais cada vez mais visíveis.
O tema do poder do diálogo não surgiu por acaso. Ele reflete um mundo em que a confiança, antes presumida, tornou-se escassa. Há dois anos, Davos adotava como tema central Rebuilding Trust. O reconhecimento de que a confiança global estava profundamente abalada já era evidente. O que se percebe agora é que essa reconstrução não avançou como esperado. A mudança de foco, da confiança para o diálogo, revela um deslocamento subtil, mas revelador. Quando a confiança falha, o sistema recua para o mínimo indispensável: manter a conversa aberta para evitar ruturas maiores.
A sensação partilhada nos corredores e nos painéis era a de que o mundo não está apenas a mudar, mas a reorganizar-se a partir de tensões que já não podem ser ignoradas. Polarização crescente, fragmentação geopolítica, enfraquecimento das instituições multilaterais e desgaste dos modelos tradicionais de capitalismo e governação coexistem com um discurso insistente de cooperação que raramente se traduz em coordenação efetiva. Cadeias globais regionalizam-se, blocos afastam-se e a lógica da proteção avança, inclusive no domínio tecnológico.
A inteligência artificial tornou este paradoxo ainda mais evidente. Em Davos, a AI foi celebrada como motor de produtividade e crescimento, mas tratada com cautela quando o debate avançava para governação, responsabilidade e assimetria de poder. Todos reconhecem os riscos. Poucos estão dispostos a abdicar de vantagens competitivas. O diálogo avança, mas a estrutura continua ausente.
Neste contexto, o discurso de Mark Carney destacou-se pela clareza do diagnóstico. A crise atual não é apenas financeira ou técnica, mas institucional e moral. A erosão da confiança mina mercados, políticas públicas e democracias. Sem regras credíveis, o capital retrai-se. Sem instituições legítimas, o risco sistémico aumenta.
Carney evocou, ainda que de forma indireta, a necessidade de uma terceira via. Não o regresso ao capitalismo financeiro desregulado, nem a substituição do mercado por estruturas centralizadas, mas um modelo capaz de alinhar capital, propósito e responsabilidade. Uma via onde regras claras, transparência e compromisso com o bem comum sejam fundamento, e não exceção.
O poder do diálogo surge, assim, como condição necessária, mas não suficiente. Sem diálogo não há coordenação. Sem coordenação não há confiança. Mas o diálogo sem estrutura esgota-se rapidamente. É neste vazio que o Trust Capitalism começa a posicionar-se como resposta estrutural, ao recolocar a confiança no centro do sistema económico, não como narrativa, mas como arquitetura, regra e prática.
A questão que Davos evitou enfrentar de forma direta é simples e incómoda: estaremos preparados para abandonar um sistema de desconfiança mútua e abraçar um capitalismo baseado na confiança coletiva, com responsabilidade, transparência e legitimidade? Ou estaremos disponíveis para pagar o preço da inércia, adiando o inevitável e tornando qualquer transição irreversível?
Camila Ito,
CEO e co-founder de Zarpay Pagamentos





