Este empresário italiano tornou-se bilionário a investir na Índia. O próximo passo: espaço e inteligência artificial

Filippo Ghirelli fez uma pequena fortuna em Itália e assumiu uma aposta de grande dimensão (e de risco) numa das maiores refinarias da Índia. Esse negócio transformou-o num bilionário e, agora, o empresário prepara-se para construir um império que vai desde aeroportos privados na Europa até centros de dados em órbita. A partir de Monte…
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Quando a União Europeia e a Índia concluíram, em Nova Deli, um gigantesco acordo comercial, trazemos a história de um empresário europeu que fez fortuna na Índia. Trata-se de Filippo Ghirelli, um investidor italiano que construiu uma fortuna de 1,5 mil milhões de dólares, depois de apostar numa das maiores refinarias do país asiático (apesar das ligações russas), e que agora prepara investimentos ambiciosos no espaço e na inteligência artificial.
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Filippo Ghirelli fez uma pequena fortuna em Itália e assumiu uma aposta de grande dimensão (e de risco) numa das maiores refinarias da Índia. Esse negócio transformou-o num bilionário e, agora, o empresário prepara-se para construir um império que vai desde aeroportos privados na Europa até centros de dados em órbita.

A partir de Monte Carlo, Filippo Ghirelli fala num tom descontraído, através de videochamada com a Forbes. Vira o portátil para mostrar a vista sobre o Mediterrâneo a partir da janela do seu escritório. “Vivo aqui há mais de cinco anos. É uma excelente base”, diz antes de enumerar as cidades para onde viaja com frequência em trabalho, Londres, Nova Iorque e Dubai.

“Depois de terminar a universidade [em Roma], parti para África”, conta, enumerando outros países, como a Guiné e o Mali, onde começou a trabalhar em engenharia, em projetos de infraestruturas.

Com 45 anos, Ghirelli teve uma carreira marcada pela mobilidade. Fez uma pequena fortuna no setor imobiliário em Itália e no Norte de África no final dos seus 20 anos e início dos 30, mas esteve perto de perder tudo no Egito durante a Primavera Árabe. Mais tarde, regressou a Itália e reinventou-se, fundando uma empresa dedicada à redução de custos energéticos para grandes companhias.

Fortuna de 1,26 mil milhões de euros

Mas é à Índia que Ghirelli deve a maior fatia da sua fortuna, atualmente estimada em 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,26 mil milhões de euros). Em janeiro de 2023, fechou o negócio da sua vida. Usando os proveitos da venda parcial da sua empresa de eficiência energética e de investimentos imobiliários, adquiriu uma participação de 25% na segunda maior refinaria de petróleo da Índia, localizada na costa ocidental do país, à multinacional de comércio de petróleo Trafigura, sediada em Singapura.

Quando a Trafigura e a petrolífera estatal russa Rosneft compraram a refinaria em 2017, em conjunto com o fundo de investimento UCP, com sede em Moscovo, o ativo foi avaliado em 12,9 mil milhões de dólares, incluindo dívida (cerca de 10,81 mil milhões de euros). A Trafigura financiou 85% da sua parte através de um empréstimo bancário, pagando o restante em numerário.

Ghirelli manifestou pela primeira vez interesse em adquirir a participação da Trafigura em 2020. A transação ficou tecnicamente concluída em 2021, mas foi atrasada pelas autoridades antitrust indianas até 2023, 11 meses depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. A Trafigura já tinha anunciado, em 2022, a saída de contratos de longo prazo com entidades estatais russas. Ghirelli garante que isso não teve impacto no preço nem na sua decisão de investir. Documentos públicos da Trafigura indicam que comprou a participação por 169 milhões de dólares (cerca de 141,6 milhões de euros), um desconto de 42% face ao valor pago em 2017. Atualmente, a Forbes estima que essa participação valha pelo menos 1,1 mil milhões de dólares, líquidos de dívida (aproximadamente 922 milhões de euros).

Além da refinaria, a empresa, chamada Nayara Energy, detém também a maior rede privada de postos de combustível da Índia e um porto de águas profundas. À medida que a Índia aumentou as importações de petróleo russo a preços reduzidos para alimentar uma economia e uma população em rápido crescimento, a Nayara parece ter beneficiado significativamente. No exercício fiscal terminado em março de 2025, registou um resultado líquido de 760 milhões de dólares (cerca de 638 milhões de euros), com receitas de 17,6 mil milhões de dólares (aproximadamente 14,74 mil milhões de euros), o que representa aumentos de 500% e 25%, respetivamente, desde 2022.

“Vimos o valor do negócio crescer de forma exponencial. A empresa aumentou significativamente a sua produtividade e as suas margens de lucro”, afirma Ghirelli. “É um investimento financeiro que foi particularmente feliz.”

A Nayara é considerada um dos ativos mais cobiçados da Índia. “A Nayara tem um papel muito importante. A Índia é um país em crescimento, onde a procura por combustíveis continua a aumentar”, afirma Pankaj Srivastava, vice-presidente sénior de mercados de commodities da empresa de investigação energética Rystad Energy. “A Nayara fornece uma parte significativa das necessidades internas de combustível do país. Está estrategicamente muito bem localizada.”

Segundo um relatório publicado em março de 2025 pelo órgão de comunicação social indiano The Morning Context, tanto a Aramco, petrolífera estatal da Arábia Saudita, como o conglomerado Reliance, do bilionário indiano Mukesh Ambani, estariam interessados na compra da Nayara. Uma notícia do Times of India, em junho do ano passado, citou outro órgão de imprensa indiano segundo o qual a Rosneft estaria a pedir até 20 mil milhões de dólares (cerca de 16,76 mil milhões de euros). As negociações terão, no entanto, encontrado obstáculos em julho último, quando a União Europeia impôs sanções à Nayara devido ao envolvimento da Rosneft. Isso levou temporariamente os bancos a suspender pagamentos à empresa e a Microsoft a cortar o acesso aos seus serviços de cloud. O Iraque e a Arábia Saudita, que representavam 37% das importações de petróleo da Nayara antes das sanções, segundo a plataforma de inteligência comercial Kpler, também suspenderam exportações. Os representantes da Rosneft e da UCP não responderam a pedidos de comentário. Um porta-voz da Saudi Aramco recusou comentar e um representante da Reliance Industries afirmou à Forbes que a empresa “não está em negociações para adquirir a Nayara”.

Acesso a crude russo

A empresa recuperou rapidamente. Atualmente, a Nayara vende cerca de 88% do seu combustível no mercado interno, acima de cerca de dois terços em outubro. Encontrou também novos mercados de exportação, incluindo Brasil, Sudão e Turquia, e trabalhou com bancos locais para facilitar pagamentos. Segundo a Kpler, em dezembro a Nayara obtinha praticamente todo o seu petróleo da Rússia e operava perto da sua capacidade máxima de refinação.

“Apesar da pressão em várias frentes, a Nayara conseguiu aumentar a escala das suas operações”, afirma Sumit Ritolia, analista da Kpler. “O acesso facilitado a crude russo com desconto, novos padrões logísticos, mercados de exportação emergentes e uma rede mais ampla de compradores dispostos a transacionar sob sanções permitiram que a refinaria operasse perto da sua capacidade economicamente ideal.”

Ghirelli afirma que tem sido um investidor minoritário passivo e considera que as sanções não prejudicaram o seu investimento. “A empresa vive essencialmente do mercado indiano. Teria sido um problema se o produto fosse vendido na Europa, mas, sendo praticamente um mercado local, não teve impacto no desempenho da empresa”, afirma.

Se a Nayara for vendida por valores próximos dos referidos na imprensa, ou mesmo pelas estimativas mais conservadoras da Forbes, Ghirelli poderá obter um ganho superior a 500%. Mas, independentemente do que aconteça com a Nayara, o empresário já está a olhar para o futuro.

Nova empresa de investimento

Em 2024, lançou uma nova empresa de investimento, a Infracorp, que pretende desenvolver desde portos espaciais e aeroportos privados até centros de dados em órbita e reatores nucleares offshore. “O objetivo é investir em infraestruturas sistémicas”, explica. “Queremos criar energia para a rede. Estamos a trabalhar muito em inteligência artificial descentralizada. Comprámos o nosso primeiro aeroporto, que se tornará o terminal de jatos privados mais importante da Europa. Estamos a trabalhar em módulos espaciais, futuras estações espaciais e centros de dados orbitais. Nos próximos seis meses a um ano, vamos apresentar projetos muito interessantes.”

Pode parecer um sonho distante, mas Ghirelli rodeou-se de especialistas de cada uma dessas áreas, procurando aconselhamento para transformar essas ambições em realidade. Começou, por exemplo, por um aeroporto privado perto do Mónaco e por uma central de valorização energética de resíduos no sul de Itália.

“É alguém que consegue ver o panorama geral e avançar”, afirma Stefano Poli, diretor comercial da empresa israelita de computação espacial Ramon Space e consultor nos investimentos espaciais de Ghirelli. “Consegue jogar xadrez em vários tabuleiros ao mesmo tempo.”

Manfredi Lefebvre d’Ovidio, outro bilionário baseado no Mónaco, que fez fortuna no setor de cruzeiros e viagens, acrescenta: “É extremamente empreendedor. Tende mesmo a fazer aquilo de que fala.”

O seu percurso

Nascido numa família de classe média em Roma, em 1980, Ghirelli cresceu num ambiente empreendedor. O pai tinha uma empresa de construção e a mãe geria uma empresa agrícola antes de se dedicar ao imobiliário.

Depois de estudar engenharia civil na Universidade de Roma e de concluir um MBA na Luiss Business School, saiu de Itália em 2003 para trabalhar na construtora Astaldi como engenheiro de projeto na África Ocidental. “Foi uma experiência incrível, mas também muito difícil, porque são países onde é complicado construir”, afirma, referindo projetos como uma ponte entre a Guiné e o Mali.

Trabalhou depois na construção de autoestradas na Turquia, antes de regressar a Itália em 2006 para desenvolver projetos de alta velocidade ferroviária para o grupo industrial italiano Impregilo, hoje conhecido como Webuild. Aos 27 anos, juntou-se ao De Angelis Group, uma empresa imobiliária italiana com apartamentos, hotéis e clínicas médicas em Itália e França.

Em 2009, a morte do fundador do grupo De Angelis num acidente de viação mudou o rumo da sua carreira. Ghirelli afirma que estava em negociações para adquirir uma participação na empresa, mas, após a morte do fundador, negociou a propriedade de projetos-chave em que trabalhava, incluindo um centro comercial. Criou depois a sua própria empresa de construção e começou a investir em projetos residenciais e comerciais em Marrocos e no Egito.

Em 2013, enfrentou novo revés com o início de protestos antigovernamentais no Egito. Foi forçado a abandonar o país e registou perdas significativas nos seus projetos, tendo de recomeçar novamente em Itália. “Foi uma perda significativa, mas também uma lição fundamental para continuar a construir”, afirma.

Mudou então o foco para a eficiência energética e lançou o Genera Group, que trabalha com clientes como a Pirelli e a Unilever em projetos de poupança de energia, desde painéis solares a iluminação mais eficiente ou recuperação de calor desperdiçado em processos industriais, ficando com uma parte das poupanças geradas.

Em 2017, vendeu 49% da empresa ao grupo alemão de gestão de ativos IKAV, por um valor não divulgado. Três anos depois, recomprou essa participação e vendeu 75% à empresa suíça Susi Partners por um montante inicial de 30 milhões de dólares (cerca de 25,14 milhões de euros). Foi também nessa altura que começou a ponderar investir na Nayara.

“Tínhamos dois objetivos. Um era construir uma biorrefinaria para produzir combustível sustentável para a aviação, que reduz a poluição face ao combustível tradicional”, explica. “O outro era fechar um acordo com o Governo indiano para produzir riquexós elétricos e implementar sistemas de troca de baterias nos mais de 6.500 postos da Nayara.”

A guerra na Ucrânia inviabilizou esses planos e Ghirelli decidiu recuar um passo. “Decidimos tornar-nos investidores passivos [na Nayara]”, afirma. “Desempenhámos o nosso papel na área da sustentabilidade, mas concentrámos os recursos noutras frentes.”

Depois de vender o restante do Genera à Susi Partners, em dezembro de 2024, por um valor não divulgado, e com a possibilidade de sair também da Nayara, Ghirelli está agora totalmente focado na Infracorp. Divide os investimentos em quatro grandes áreas, transportes e infraestruturas, transição e independência energética, economia espacial, e inteligência artificial descentralizada e segurança.

Até agora, afirma ter comprometido mais de 100 milhões de dólares (cerca de 83,8 milhões de euros) e investido em mais de 65 projetos. Estes incluem unidades de biometano e bioetanol nos Estados Unidos, uma central de conversão de resíduos automóveis em energia em Itália e 18 centros de dados em desenvolvimento em Itália e França. Está também a trabalhar em planos de engenharia para centros de dados orbitais e centrais nucleares offshore em Itália.

O negócio mais visível anunciado até agora foi a compra, em 2024, do Riviera Airport, um terminal de jatos privados na costa noroeste de Itália, perto de Génova, a cerca de 80 minutos de carro ou 25 minutos de helicóptero do Mónaco. O plano passa por transformá-lo num hub de aviação para o principado, demasiado pequeno para acolher um aeroporto próprio, e torná-lo o primeiro de uma rede de 16 aeroportos privados em toda a Europa, com um investimento estimado em cerca de 60 milhões de dólares por unidade (aproximadamente 50,28 milhões de euros).

“Os aeroportos comerciais estão a tornar-se mais difíceis de aceder para jatos privados, enquanto os voos privados estão a aumentar e continuarão a crescer à medida que novas tecnologias reduzem os custos”, afirma Lefebvre d’Ovidio, referindo aeronaves elétricas desenvolvidas por empresas como a norte-americana Joby Aviation. “Há um enorme potencial para aeroportos privados.”

Quanto ao financiamento destes projetos de grande escala, para além do seu próprio capital, sobretudo se vender a participação na Nayara, Ghirelli mostra-se confiante. “Quando se tem um modelo de negócio com fluxos de caixa previsíveis, é relativamente fácil encontrar financiamento”, afirma. “Não temos tido dificuldades em encontrar investidores em todo o mundo. Há um grande interesse do Médio Oriente em financiar este tipo de projetos.”

Os seus consultores concordam. “As pessoas inteligentes não usam o seu próprio dinheiro. Usam os mercados de capitais”, afirma Güçlü Batkın, CEO da cadeia turca de cuidados oftalmológicos Dünyagöz e consultor da Infracorp. “Há muito capital à espera de ser investido em todo o mundo. É preciso saber onde captar e com quem, e ele tem uma boa perceção disso.”

Massimiliano Ladovaz, CEO da empresa de tecnologia espacial SpinLaunch e também consultor da Infracorp, acrescenta: “Tem um pouco de mentalidade americana, no sentido em que está disposto a assumir riscos. Tem capacidade para mudar de rumo no momento certo.”

É ainda cedo para avaliar as apostas mais recentes de Ghirelli. Mas há uma coisa de que diz ter a certeza. No total, acredita que vai superar o retorno obtido com a Nayara. “Imagino que vamos conseguir algo próximo de quatro ou cinco vezes o investimento”, afirma. “Especialmente no espaço e nos centros de dados”. Se isso acontecer, será provavelmente daqui a vários anos.

Giacomo Tognini/Forbes Internacional

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