UE e Índia fecham maior acordo comercial de sempre após 18 anos de negociações

A União Europeia e a Índia anunciaram esta terça-feira, em Nova Deli, a conclusão das negociações para aquele que é descrito como “o maior de todos os acordos comerciais”, um processo iniciado em 2007, interrompido durante vários anos e retomado em 2022. O entendimento foi alcançado no final da 16.ª cimeira UE-Índia e cria uma…
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A União Europeia e a Índia concluíram, em Nova Deli, o maior acordo comercial alguma vez celebrado por qualquer das partes, criando uma zona de comércio livre que abrange cerca de dois mil milhões de pessoas e reforça a cooperação económica, política e estratégica num contexto de crescentes tensões geopolíticas globais.
Economia

A União Europeia e a Índia anunciaram esta terça-feira, em Nova Deli, a conclusão das negociações para aquele que é descrito como “o maior de todos os acordos comerciais”, um processo iniciado em 2007, interrompido durante vários anos e retomado em 2022. O entendimento foi alcançado no final da 16.ª cimeira UE-Índia e cria uma zona de comércio livre que cobre um mercado de cerca de dois mil milhões de pessoas.

“Conseguimo-lo: celebrámos o maior de todos os acordos comerciais e estamos a criar um mercado de dois mil milhões de pessoas. Esta é a história de dois gigantes, a segunda e a quarta maiores economias do mundo, dois gigantes que escolhem a parceria num verdadeiro modelo em que os dois ganham”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no final da cimeira.

“Estamos a criar um mercado de dois mil milhões de pessoas”, afirma Ursula von der Leyen.

Numa mensagem publicada anteriormente na rede social X, a líder do executivo comunitário já tinha sublinhado que “a Europa e a Índia estão a fazer história hoje: concluímos o maior de todos os acordos comerciais e criámos uma zona de comércio livre com dois mil milhões de pessoas, da qual ambas as partes irão beneficiar”. Von der Leyen acrescentou ainda que “isto é apenas o começo [pois] iremos fortalecer ainda mais a nossa relação estratégica”.

Eliminados quatro mil milhões de euros por ano em direitos aduaneiros

Segundo a Comissão Europeia, trata-se do “maior acordo alguma vez celebrado por qualquer uma das partes” e deverá eliminar até quatro mil milhões de euros por ano em direitos aduaneiros para os exportadores europeus. O acordo prevê a eliminação ou redução de tarifas em 96,6% do valor das exportações de bens da União Europeia para a Índia, o que poderá permitir duplicar as exportações europeias para aquele mercado até 2032.

Atualmente, a União Europeia e a Índia transacionam mais de 180 mil milhões de euros por ano em bens e serviços, uma relação comercial que sustenta cerca de 800.000 postos de trabalho na União. Mais de 6.000 empresas europeias operam já no mercado indiano, sendo responsáveis por 3,7 milhões de empregos, número que, segundo Ursula von der Leyen, poderá crescer significativamente com a entrada em vigor do acordo.

Atualmente, a União Europeia e a Índia transacionam mais de 180 mil milhões de euros por ano em bens e serviços.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também classificou o momento como histórico, destacando a dimensão política do entendimento alcançado. “Hoje é um momento histórico: estamos a abrir um novo capítulo nas nossas relações no comércio, na segurança e nos laços entre os povos”, afirmou, lembrando ainda o papel da presidência portuguesa do Conselho da UE, no primeiro semestre de 2021, no relançamento das negociações. Costa referiu igualmente o significado pessoal do acordo, sublinhando as suas raízes familiares em Goa.

Da esquerda para a direita: Chandrapuram Ponnusami Radhakrishnan, António Costa, Droupadi Murmu, Ursula von der Leyen, Narendra Modi.

Do lado indiano, o primeiro-ministro Narendra Modi considerou que o acordo de livre comércio trará “numerosas oportunidades”. “Diz-se no mundo que este é o acordo de todos os acordos”, afirmou, acrescentando que o pacto “vai oferecer numerosas oportunidades aos 1,4 mil milhões de indianos e aos milhões de habitantes da UE”, abrangendo “cerca de 25% do produto interno bruto [PIB] e um terço do comércio mundial”.

“Estamos a abrir um novo capítulo nas nossas relações no comércio, na segurança e nos laços entre os povos”, diz António Costa.

De acordo com dados citados pela União Europeia, em 2024 o comércio bilateral ascendeu a 120 mil milhões de euros em mercadorias e 60 mil milhões de euros em serviços, valores que representam um crescimento de quase 90% em dez anos. Bruxelas sublinha o potencial do mercado indiano, o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,5 mil milhões de habitantes e uma taxa de crescimento económico de 8,2% no último trimestre.

“Diz-se no mundo que este é o acordo de todos os acordos”, refere o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

Além da vertente comercial, a cimeira ficou marcada pelo lançamento da primeira parceria UE-Índia em matéria de segurança e defesa, abrangendo áreas como segurança marítima, ciberameaças, espaço, contraterrorismo e indústria da defesa. Foram também dados passos na cooperação em tecnologias emergentes, inovação e investigação, incluindo contactos exploratórios para uma eventual associação da Índia ao programa Horizonte Europa.

Subrahmanyam Jaishankar, António Costa e Ursula von der Leyen

Num contexto internacional marcado por tensões comerciais, incluindo as disputas tarifárias envolvendo os Estados Unidos e a China, a Comissão Europeia sublinha que o acordo reforça os laços económicos e políticos entre a segunda e a quarta maiores economias mundiais. “A Índia e a Europa fizeram uma escolha clara. A da parceria estratégica, do diálogo e da abertura”, escreveu Ursula von der Leyen no X, acrescentando: “Nós mostramos a um mundo fragmentado que outro caminho é possível”.

com Lusa

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