O que é afinal o Conselho de Paz que Donald Trump acaba de criar

Donald Trump apresentou publicamente o novo Conselho de Paz durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, rodeado por cerca de duas dezenas de líderes internacionais, entre os quais Javier Milei, presidente da Argentina, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e Prabowo Subianto, presidente da Indonésia. No final do discurso, Trump e os restantes dirigentes…
ebenhack/AP
Donald Trump anunciou em Davos a criação de um Conselho de Paz, um novo organismo internacional que, segundo o próprio, pretende intervir na resolução de conflitos globais em articulação com as Nações Unidas, começando pela guerra em Gaza, embora o seu funcionamento, composição e alcance continuem pouco claros.
Líderes

Donald Trump apresentou publicamente o novo Conselho de Paz durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, rodeado por cerca de duas dezenas de líderes internacionais, entre os quais Javier Milei, presidente da Argentina, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e Prabowo Subianto, presidente da Indonésia. No final do discurso, Trump e os restantes dirigentes assinaram a carta de criação do organismo, formalizando a sua constituição enquanto organização internacional.

Segundo a Casa Branca, pelo menos 35 dos cerca de 50 chefes de Estado e de Governo convidados aceitaram integrar o Conselho, embora ainda não exista uma lista oficial e definitiva de membros nem tenha sido divulgado o texto final do documento fundador. Trump aproveitou a cerimónia para alargar o convite a todos os países interessados em aderir à nova estrutura.

O conceito do Conselho de Paz tem evoluído ao longo dos últimos meses. Inicialmente apresentado como um instrumento focado no conflito em Gaza, o organismo passou a ser descrito pela administração norte-americana como uma plataforma com ambições globais. No discurso em Davos, Trump afirmou que, depois de alcançar resultados no Médio Oriente, o Conselho poderá intervir noutras frentes, dizendo que, uma vez completamente formado, poderá atuar em “numerosas outras coisas”.

Em vez ou em complemento da ONU?

Apesar de anteriormente ter sugerido que o Conselho de Paz poderia substituir as Nações Unidas, Trump adotou agora um tom mais conciliador, sublinhando que a nova organização irá trabalhar “em coordenação” com a Organização das Nações Unidas (ONU). O Presidente norte-americano afirmou ver “um potencial tremendo” na ONU e defendeu que a combinação entre o Conselho de Paz e as Nações Unidas pode resultar em algo “muito único para o mundo”.

Ainda assim, o enquadramento institucional permanece ambíguo. Não estão definidos os mecanismos de decisão, o grau de autonomia face à ONU, nem o papel concreto que cada país terá no funcionamento do Conselho. Também não é claro se se tratará de um órgão consultivo, operacional ou com capacidade efetiva de mediação internacional.

A primeira prioridade anunciada é Gaza. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, explicou que a missão “antes de mais” do Conselho será garantir que o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza se torna duradouro. Segundo Rubio, o trabalho desenvolvido neste dossier poderá servir de exemplo para futuras intervenções noutras regiões, sem perder o foco no conflito atual.

Durante o evento, Trump voltou a atribuir a si próprio o mérito por ter contribuído para o fim de vários conflitos armados e minimizou a dimensão atual da guerra em Gaza, referindo que restam apenas “pequenos focos” por resolver. Disse ainda acreditar que o Irão está disposto a dialogar diretamente consigo.

Logótipo

Um dos elementos que mais chamou a atenção foi a identidade visual do novo organismo. O logótipo do Conselho de Paz apresenta um globo rodeado por ramos de oliveira, numa composição semelhante ao símbolo da ONU, mas com diferenças simbólicas claras: o globo está centrado nos Estados Unidos e representa apenas a América do Norte e parte da América do Sul, além de utilizar tons dourados em vez do tradicional azul das Nações Unidas.

À margem do anúncio, Jared Kushner, genro de Donald Trump, apresentou uma visão para a reconstrução de Gaza no pós-conflito, com imagens de uma “Nova Gaza” marcada por arranha-céus ao longo da costa. Kushner afirmou que o território poderia tornar-se “uma esperança” e “um destino”, defendendo que os Estados Unidos garantiriam a desmilitarização do Hamas como condição para a paz. Não é claro se este plano conta com o apoio de outras partes envolvidas no conflito, incluindo a população palestiniana.

Por agora, o Conselho de Paz existe formalmente, mas permanece mais como uma declaração de intenção do que como uma estrutura operacional plenamente definida. A ausência de um estatuto público detalhado, de uma lista fechada de membros e de um mandato claro levanta dúvidas sobre o papel que poderá desempenhar no já complexo ecossistema da diplomacia internacional.

com Siladitya Ray/Forbes Internacional

Mais Artigos