Quando se fala em inovação no setor público, há sempre uma certa dúvida ou desconfiança no ar. Será possível uma máquina tão pesada, tão habituada aos seus ritmos, abraçar a velocidade do século XXI? É este paradigma que as startups de tecnologia para a governação – as Govtech – estão a tentar resolver ao provocar pequenas revoluções onde tudo parecia estar condenado à inércia.
A ironia é que enquanto a Administração Pública debate durante semanas se pode ou não colar um vinil no chão para um evento — tendo de passar por diversas chefias e perceber se há algum regulamento que o impeça — existem startups portuguesas que desenvolvem ferramentas de inteligência artificial para transformar dados governamentais em decisões estratégicas. É o retrato perfeito do contraste: num lado, a burocracia travada em decisões triviais; no outro, a inovação a acontecer.
A GovHorizon é um exemplo concreto disto. Uma startup, incubada na Startup Leiria, que transforma avalanches de dados públicos em planeamento estratégico, em cenários futuros, com capacidade de antecipação. Não é apenas uma ferramenta técnica, é uma proposta radical: o Estado pode funcionar de forma diferente se tiver acesso às tecnologias certas. O setor público não precisa de ser sinónimo de lentidão.
O problema real não é a falta de soluções tecnológicas. O problema é a cultura e a incapacidade de decidir rapidamente. Uma startup consegue iterar um produto em semanas. Uma câmara municipal consegue levar meses para decidir uma simples alteração que depois será alterada novamente e levará mais tempo a ser revista. Uma startup testa, falha, muda de rumo. O setor público teme o falhanço como se fosse o fim do mundo.
Se em Portugal queremos que o Estado evolua, que seja mais ágil, mais inteligente, mais preparado para os desafios do século XXI, temos de criar espaço para que startups como a GovHorizon floresçam. Porque a modernização da Administração Pública não virá de grandes reformas anunciadas em conferências de imprensa; virá de pessoas que acreditam que é possível fazer diferente, de equipas pequenas com ideias grandes, de ecossistemas que as apoiam. Porque, afinal, se é preciso passar por três departamentos diferentes apenas para colar um vinil no chão, imagine o que é necessário para reformar verdadeiramente a forma como um Estado funciona.
Mariana Mazzucato, economista e professora no University College London, referiu numa das suas TedTalks (as quais aconselho vivamente) que alcançar um crescimento inovador, inclusivo e sustentável exige um Estado mais ativo, e não menos ativo. Tal acontecerá quando entidades públicas tiverem finalmente a liberdade — e a coragem — de trabalhar com startups Govtech como parceiras verdadeiras, sem asfixiá-las com processos que tornam tudo impossível. Acontecerá quando compreenderem que inovação no setor público não é um luxo, mas sim uma necessidade.
João Ramos,
Coordenador de Incubação e Aceleração na Startup Leiria





