Opinião

Govtech: o papel das startups para a transformação e modernização da Administração Pública

João Ramos

Quando se fala em inovação no setor público, há sempre uma certa dúvida ou desconfiança no ar. Será possível uma máquina tão pesada, tão habituada aos seus ritmos, abraçar a velocidade do século XXI? É este paradigma que as startups de tecnologia para a governação – as Govtech – estão a tentar resolver ao provocar pequenas revoluções onde tudo parecia estar condenado à inércia.

A ironia é que enquanto a Administração Pública debate durante semanas se pode ou não colar um vinil no chão para um evento — tendo de passar por diversas chefias e perceber se há algum regulamento que o impeça — existem startups portuguesas que desenvolvem ferramentas de inteligência artificial para transformar dados governamentais em decisões estratégicas. É o retrato perfeito do contraste: num lado, a burocracia travada em decisões triviais; no outro, a inovação a acontecer.

A GovHorizon é um exemplo concreto disto. Uma startup, incubada na Startup Leiria, que transforma avalanches de dados públicos em planeamento estratégico, em cenários futuros, com capacidade de antecipação. Não é apenas uma ferramenta técnica, é uma proposta radical: o Estado pode funcionar de forma diferente se tiver acesso às tecnologias certas. O setor público não precisa de ser sinónimo de lentidão.

O problema real não é a falta de soluções tecnológicas. O problema é a cultura e a incapacidade de decidir rapidamente. Uma startup consegue iterar um produto em semanas. Uma câmara municipal consegue levar meses para decidir uma simples alteração que depois será alterada novamente e levará mais tempo a ser revista. Uma startup testa, falha, muda de rumo. O setor público teme o falhanço como se fosse o fim do mundo.

Se em Portugal queremos que o Estado evolua, que seja mais ágil, mais inteligente, mais preparado para os desafios do século XXI, temos de criar espaço para que startups como a GovHorizon floresçam. Porque a modernização da Administração Pública não virá de grandes reformas anunciadas em conferências de imprensa; virá de pessoas que acreditam que é possível fazer diferente, de equipas pequenas com ideias grandes, de ecossistemas que as apoiam. Porque, afinal, se é preciso passar por três departamentos diferentes apenas para colar um vinil no chão, imagine o que é necessário para reformar verdadeiramente a forma como um Estado funciona.

Mariana Mazzucato, economista e professora no University College London, referiu numa das suas TedTalks (as quais aconselho vivamente) que alcançar um crescimento inovador, inclusivo e sustentável exige um Estado mais ativo, e não menos ativo. Tal acontecerá quando entidades públicas tiverem finalmente a liberdade — e a coragem — de trabalhar com startups Govtech como parceiras verdadeiras, sem asfixiá-las com processos que tornam tudo impossível. Acontecerá quando compreenderem que inovação no setor público não é um luxo, mas sim uma necessidade.

João Ramos,
Coordenador de Incubação e Aceleração na Startup Leiria

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