A saúde das mulheres continua a ser uma das áreas mais subfinanciadas do setor da saúde a nível global, de acordo com o relatório 2026 Women’s Health Investment Outlook, divulgado pelo Fórum Económico Mundial no âmbito da Reunião Anual de 2026, que decorre esta semana em Davos, na Suíça. O estudo revela que apenas 6% do investimento privado em saúde é direcionado para a saúde feminina, apesar de as mulheres representarem quase metade da população mundial.
Segundo o relatório, cerca de 90% desse financiamento limitado concentra-se em apenas três áreas (cancros femininos, saúde reprodutiva e saúde materna), deixando de fora um vasto conjunto de condições de elevado impacto que afetam as mulheres de forma única, diferente ou desproporcional. Entre as áreas sistematicamente subfinanciadas estão as doenças cardiovasculares, a osteoporose, a menopausa e a doença de Alzheimer, com impacto significativo tanto na saúde como na participação económica das mulheres.
Outras condições que afetam exclusivamente as mulheres, como a endometriose, a síndrome dos ovários poliquísticos (SOP) e a saúde menstrual, afetam dezenas de milhões de pessoas, mas recebem menos de 2% do investimento total direcionado à saúde feminina, conclui o estudo.
O Fórum Económico Mundial sublinha que este subinvestimento não só compromete a saúde feminina, como deixa por explorar um valor económico relevante, sobretudo nos países de baixo e médio rendimento, que são desproporcionalmente afetados por esta lacuna de financiamento.
O relatório estima que apenas quatro áreas (doenças cardiovasculares, osteoporose, menopausa e Alzheimer), representem, em conjunto, uma oportunidade de mercado superior a 100 mil milhões de dólares nos Estados Unidos até 2030, o equivalente a cerca de 85,2 mil milhões de euros, assumindo que todas as mulheres tenham acesso a cuidados de saúde padrão.
“A saúde masculina tem sido, durante muito tempo, a base padrão para a investigação e o desenvolvimento de produtos, com normas clínicas, desenho de ensaios e pipelines de inovação calibrados sobretudo para a fisiologia e as necessidades dos homens”, afirma Shyam Bishen, diretor do Centro de Saúde e Cuidados de Saúde do Fórum Económico Mundial. “Esta abordagem marginaliza sistematicamente condições que afetam as mulheres de forma única, diferente ou desproporcional, deixando áreas críticas subfinanciadas, pouco investigadas e mal servidas.”
Apesar de viverem, em média, mais tempo do que os homens, as mulheres passam cerca de 25% mais anos das suas vidas com problemas de saúde ou algum tipo de incapacidade. Esta diferença resulta do peso acumulado de condições com maior prevalência feminina, da progressão distinta de determinadas doenças e de diferenças biológicas que continuam a ser insuficientemente estudadas, de acordo com esta análise.
Ainda assim, o relatório identifica sinais de crescimento e áreas com potencial imediato para atrair capital, incluindo terapêuticas para cancros femininos, soluções digitais de saúde para mulheres, plataformas remotas de saúde materna e mental, clínicas de longevidade para mulheres de meia-idade e em menopausa, bem como dispositivos vestíveis para monitorizar condições metabólicas como a SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos) e a diabetes gestacional.
“A boa notícia é que o impulso do investimento está a crescer, e os investidores começam a encarar a saúde da mulher como uma fronteira de crescimento, e não apenas como um nicho”, afirmou Trish Stroman, diretora-geral e sócia sénior do Boston Consulting Group. “O mercado da fertilização in vitro demonstra como a combinação entre avanços científicos, tecnologia, procura crescente e previsibilidade no reembolso pode desbloquear setores de elevado crescimento.”
Para acelerar este movimento, o relatório defende uma maior colaboração entre setores, com o objetivo de reforçar a base de evidência científica na saúde feminina e aumentar a transparência em torno dos resultados clínicos e dos retornos económicos. Entre as recomendações estão também a redução do risco do investimento através de modelos de financiamento misto, envolvendo fundos públicos, privados e filantrópicos, a expansão do reembolso de tratamentos e a modernização dos enquadramentos regulatórios, de forma a reduzir barreiras à entrada de novas soluções.
O Women’s Health Investment Outlook é liderado pelo Centro de Saúde e Cuidados de Saúde do Fórum Económico Mundial, em parceria com o Boston Consulting Group e o Consórcio de Investimento na Saúde da Mulher, e pretende mobilizar investidores, decisores políticos e organizações públicas e privadas para escalar o investimento numa área considerada crítica para o crescimento económico e o bem-estar social.





