Durante anos, o crescimento do eCommerce em Portugal foi associado a uma equação simples: mais tráfego, mais vendas, mais escala. A lógica parecia funcionar e, durante algum tempo, funcionou mesmo. Hoje, o contexto é diferente. Custos de publicidade a subir de forma consistente, margens cada vez mais comprimidas e negócios que, apesar de faturarem mais, operam com menos margem de erro do que nunca.
O problema? Na maioria dos casos, não está no marketing. Está na forma como os negócios tomam decisões financeiras.
O crescimento que parece saudável, mas não é
Ao analisar operações de eCommerce com níveis de maturidade muito diferentes, desde negócios que faturam algumas dezenas de milhares de euros até marcas que ultrapassam vários milhões por ano torna-se evidente que o problema raramente está na ambição ou na execução.
Em 2025, ao trabalhar com mais de 40 negócios de eCommerce e ao acompanhar, de forma direta, operações que em conjunto geraram quase 80 milhões de euros em faturação, um padrão repetiu-se de forma consistente.
O crescimento existe. As vendas acontecem. Mas as decisões são, muitas vezes, tomadas sem uma leitura financeira sólida. E isso é estruturalmente perigoso.
Margens: o número que quase ninguém domina
Um dos erros mais comuns no eCommerce é a incapacidade de responder, de forma clara, a uma pergunta simples: “Quanto sobra, realmente, depois de vender?”
Depois de mais de 800 diagnósticos a negócios de eCommerce, este é o ponto onde a maioria falha.
Muitos negócios conhecem o preço de venda, o custo do produto e o investimento em publicidade. Poucos conseguem explicar, com rigor, a sua margem real já considerando logística, equipa, tecnologia, devoluções, impostos e custos indiretos.
Sem esta visão:
- o investimento em anúncios é feito sem referência clara de break-even
- decisões de escala baseiam-se em suposições
- erros pequenos transformam-se rapidamente em problemas grandes
O resultado é previsível: faturação a crescer e margem a desaparecer.
A dependência crescente da publicidade paga
Este problema torna-se ainda mais grave quando combinado com um segundo fator incontornável: o custo da publicidade está a aumentar. Em vários setores, os custos de aquisição subiram mais de 50% nos últimos anos em alguns casos acima de 70%. Para negócios altamente dependentes de tráfego pago, esta pressão é imediata.
Quando as margens não estão bem calculadas:
- qualquer aumento de Custo Por Clique (CPC) tem impacto direto na rentabilidade
- cada tentativa de escalar aumenta o risco
- a publicidade deixa de ser uma alavanca e passa a ser uma dependência
O crescimento continua a existir, mas torna-se progressivamente mais frágil.
Faturar mais não significa estar melhor
Existe um mito persistente no eCommerce: o de que crescer resolve tudo.
Na prática, acontece muitas vezes o contrário.
Negócios que escalam sem estrutura financeira:
- aumentam a complexidade operacional
- reduzem margem de manobra
- ficam mais expostos a qualquer variação externa
Escalar sem compreender onde se ganha e onde se perde dinheiro não é estratégia.
É apenas velocidade.
Um problema estrutural do mercado
Este não é um problema isolado nem excecional. É um problema estrutural do eCommerce.
Durante anos, o foco esteve quase exclusivamente na aquisição e no marketing. A gestão financeira ficou em segundo plano muitas vezes tratada como consequência, quando deveria ser base.
Num mercado hoje mais competitivo, com custos mais elevados e menor tolerância ao erro, essa fragilidade começa a tornar-se evidente.
O futuro pertence a quem controla os números
O eCommerce continua a ser uma oportunidade real. Mas a próxima fase do mercado será menos indulgente.
Os negócios que vão conseguir crescer de forma consistente não serão necessariamente os que vendem mais, mas os que:
- conhecem as suas margens
- dominam os seus números
- sabem quando investir e quando parar
Porque no fim, o problema não é escalar. É escalar sem controlo financeiro.
Rui Nogueira,
especialista em marketing, Forbes 30 Under 30





