Histórias que crescem no forno: “O Bolo da Marta”

A Forbes esteve à conversa com Marta Gonçalves Viegas, fundadora d’O Bolo da Marta, em Lisboa, que nos contou como tudo começou há mais de uma década. Desde os primeiros bolos feitos em casa à consolidação da marca como uma referência na capital, foram abordados temas como o crescimento orgânico da empresa, a importância de…
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A Forbes esteve à conversa com Marta Gonçalves Viegas, fundadora d’O Bolo da Marta, em Lisboa, que nos contou como tudo começou há mais de uma década. Desde os primeiros bolos feitos em casa à consolidação da marca como uma referência na capital.
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A Forbes esteve à conversa com Marta Gonçalves Viegas, fundadora d’O Bolo da Marta, em Lisboa, que nos contou como tudo começou há mais de uma década. Desde os primeiros bolos feitos em casa à consolidação da marca como uma referência na capital, foram abordados temas como o crescimento orgânico da empresa, a importância de respeitar e manter a identidade e qualidade da marca, bem como a tomada de decisões conscientes quanto às melhores medidas de expansão do negócio. Falámos, também, sobre empreendedorismo, capacidade de adaptação, e a necessidade de concorrência saudável, sendo O Bolo da Marta um projeto profundamente ligado à experiência pessoal da sua fundadora.

Marta Gonçalves Viegas. Foto: Victor Machado.

Em 2011, pouco tempo depois de concluir a licenciatura em Comunicação Social e de dar início ao primeiro semestre do mestrado, Marta Gonçalves Viegas decidiu dedicar o seu tempo livre à cozinha e experimentar receitas à sua maneira, sem se prender rigidamente às instruções, num verdadeiro estilo go with the flow. “Não sou nada de seguir receitas, sempre gostei de estar na cozinha e gosto de experimentar coisas sem restrições”, conta à Forbes. “Não gostava muito dos bolos que existiam e bolo com suspiro era uma coisa relativamente nova. Como adorava programas e livros de culinária, assim que via qualquer coisa interessante tentava recriar, sempre com adaptações minhas!”, partilha. Na altura, tinha apenas 23 anos e, quando havia jantaradas em casas de amigos ou festas de família, ficava encarregada das sobremesas. Rapidamente percebeu que uma das suas receitas nunca passava despercebida – a de um bolo que acabava sempre por ser o mais requisitado e o preferido incontestável entre os convidados. Quem desconhecia a autoria do bolo perguntava em tom claro e audível quem é que o tinha feito, e a resposta repetia-se invariavelmente: “É o bolo da Marta!”. Surgiu, assim, o nome do negócio de que é dona, e que ao longo de mais de uma década se tem consolidado como referência no setor e na vida dos portugueses.

O bestseller d’O Bolo da Marta continua a ser o mesmo bolo de suspiro e chocolate com natas, morangos e frutos silvestres, que se tornou viral entre os seus amigos e família.

“Os meus amigos e as mães de amigas minhas começaram a querer encomendar os meus bolos! Decidi fazer uma página no Facebook, que era a grande rede social quando comecei. Lembro-me perfeitamente de fazer o logótipo d’O Bolo da Marta no PowerPoint e, no dia 1 de Janeiro de 2012, começou a marca oficialmente”, acrescenta. De facto, o Facebook era um fenómeno em rápido crescimento e atravessava um período de grande efervescência. “Eu publicava fotografias dos bolos para ter um catálogo e, de repente, tinha não-sei-quantos seguidores que eu não conhecia pessoalmente! Eu vivia em casa dos meus pais e supostamente a página era mais para os meus amigos e as mães deles verem o meu trabalho!”, diz Marta. Com o número de encomendas a aumentar, a monopolização do forno de casa, constantes chamadas do porteiro, e filas à porta do prédio, os pais da Marta apelaram a uma solução rápida.

“Falámos e vimos que o negócio era uma boa oportunidade. Quatro meses depois de ter criado a minha página no Facebook, em Maio, abri o meu primeiro espaço, no bar da Ler Devagar, na LX Factory. Correu super bem e inaugurar a loja em dia de Open Day do LX Factory fez-me começar logo em grande! O timing foi ótimo, também, porque não existiam os milhares de negócios de pastelaria que hoje existem, por exemplo, no Instagram. Hoje há de tudo, mas quando comecei não existia nada, praticamente! Claro que temos muitas pastelarias antigas em Lisboa, mas com presença online era raríssimo”, afirma.

O impacto d’O Bolo da Marta nas redes sociais levou Marta a ser convidada, pelo próprio Facebook, a participar nas palestras organizadas pela empresa como um case study de sucesso na plataforma.

“Durante muito tempo fui eu, sozinha, que fazia praticamente tudo. Nessa altura também tinha outra disponibilidade, claro. Ainda não era mãe e facilmente dormia na loja, num colchão, para conseguir fazer tudo! Depois arranjei ajuda, à medida que fui crescendo”, conta Marta. E a verdade é que os anos que passou na LX Factory marcaram o percurso da pastelaria, que ainda hoje mantem vários dos clientes que por lá passavam.

“Depois de lá ter estado vários anos, comecei a procurar uma loja de rua. Em 2019, arranjei um espaço no Chiado, que acabou por ser a melhor coisa que fiz na altura, porque passado poucos meses entrámos na pandemia! Como era uma loja de rua e de takeaway, nunca precisei de fechar o estabelecimento. Apesar de grande parte deste tipo de negócios ter passado muito mal nessa altura, foi dos nossos melhores anos. Felizmente, toda a minha equipa continuou a trabalhar. Clientes ligavam-me a perguntar se estávamos abertos, e faziam questão de lá ir só para poderem sair, dizendo que já não aguentavam estar em casa com os filhos”, partilha Marta, rindo-se. Contudo, foi depois da pandemia que Marta diz ter notado de forma mais direta o shift no setor. “Quem trabalhava no Chiado, começou a trabalhar de casa e muita gente habituou-se a pedir comida à casa. Os hábitos do consumidor mudaram e tive de me adaptar. Era uma loja com um balcão pequenino, sem espaço para conviver, e deixou de fazer sentido continuar lá”, explica.

“Há muito tempo que queria uma loja com espaço para as pessoas estarem e ficarem à vontade. Vivo em Belém e andei imenso tempo à procura de uma loja nesta zona, até arranjar este nosso espaço, que abriu em 2024! É ótimo porque consigo manter clientes portugueses e atrair estrangeiros que passam por aqui, que são ótimos a dar-me feedback totalmente diferente do que estou habituada! É bom ter estes dois públicos”, diz.

Localizada na Rua Bartolomeu Dias 94, em Lisboa, O Bolo da Marta tem fidelizado tanto clientes portugueses como estrangeiros.

“Também acho muito engraçado notar as alterações de paladar do nosso público. Lembro-me que no LX Factory estava sempre a fazer bolos de Nutella, que era a loucura do momento. Durante imensos anos eu quase não vendia bolos de suspiro simples, só queriam de chocolate! Agora já vendo muito mais, e eu própria noto que ao longo dos anos também mudei. Os clientes estrangeiros também têm diferentes gostos, que refletem algumas das nossas diferenças culturais. Por exemplo, os nórdicos tendem a querer bolos com romã e chocolate, vários brasileiros preferem leite condensado e do mais doce que há, e, vários asiáticos pedem-me bolos de suspiro simples, com manga ou limão”, explica.

Foto: Victor Machado.

Com um olhar atento ao mercado e às tendências, Marta adapta-se de forma orgânica às suas dinâmicas, sem nunca fugir à identidade da marca. “Claro que a nossa oferta vai variando, mas os básicos ficam sempre. Na verdade, é mais uma questão sazonal. Trabalhamos sempre com fruta da época para garantir qualidade. É giro porque os próprios clientes, os mais antigos, já sabem em que alturas é que temos certas frutas”, diz.

A quantidade de clientes habituais estrangeiros que se têm fidelizado à marca também tem vindo a aumentar, segundo a fundadora do negócio. “É engraçado porque os estrangeiros são muito fiéis. Alguns têm mais poder de compra que os portugueses e, enquanto um português se calhar encomenda bolos para datas especiais, um estrangeiro facilmente pede um bolo para um jantar de quatro amigos lá em casa! Noto a diferença, claramente. E não são só turistas, falo maioritariamente de estrangeiros residentes”, afirma.

“Mas no que toca a encomendas para eventos ou casamentos, por exemplo, são quase sempre clientes nossos portugueses que já conhecem a marca há anos! Ainda este ano tive mais de uma cliente a fazer dez anos de casada, que me encomendaram bolos iguais aos que nós lhes fizemos para os próprios casamentos! É giro fazer parte destes marcos, até porque eu também fiz dez anos de casada. Gosto de fazer parte da vida das pessoas, seja através de bolos de casamento, de anos, ou, mais tarde, dos batizados dos seus filhos!”, partilha.

O Bolo da Marta aceita encomendas para todas as ocasiões e eventos. O mês passado, a Marta fez o bolo do 10º aniversário da Forbes Portugal.

O atual espaço d’O Bolo da Marta é, para a Marta, um marco importante no seu plano de expansão. Plano este que se afasta, talvez, do que habitualmente se tende a assumir. Com uma postura comedida, avançando de forma segura e sem precipitações, Marta explica que gosta de estar atenta ao que se passa à sua volta e sublinha a importância de não cair na tentação de fazer comparações. “Ao princípio, é fácil querer ir para todo o lado para expandir a nossa marca, mas é importante perceber o que é bom, ou não, para o nosso negócio. Por exemplo, cheguei a abrir um ponto de venda no El Corte Inglês, em Lisboa, e, apesar de ter corrido lindamente e ter sido das nossas melhores experiências, percebi que não era bom para a marca por uma simples razão: o nosso produto é artesanal, fresco, feito no próprio dia. Ter um espaço num centro comercial é ótimo em termos de visibilidade, mas exige ter sempre a vitrine cheia de bolos, sendo que estes são frágeis e eu ia estar a pôr em causa a qualidade do produto. Manter o padrão de qualidade que tenho na minha loja é-me fundamental. Os nossos bolos são sempre frescos, feitos no próprio dia. A política é essa”, realça. “Orgulho-me de ter clientes que me dizem que compram o meu bolo desde o primeiro dia e que está igual ou melhor! É o maior elogio que me podem dar, saber que os nossos bolos fazem mesmo falta na mesa deles”, afirma.

“Manter o padrão de qualidade que tenho na minha loja é-me fundamental. Os nossos bolos são sempre frescos, feitos no próprio dia. A política é essa.”

A verdade é que existem maneiras diferentes de expandir e há que saber como fazê-lo. “Não tenho investidores ou sócios, mas fi-lo de várias formas. Comecei sozinha e hoje tenho uma equipa de seis, três das quais cozinheiras. Continua a ser uma coisa mesmo muito pequena, mas para o número de pessoas que eu tenho, atinjo sempre o meu limite. Acho que vender bem é exatamente isso, é atingir o limite. Eu não consigo fazer mais! Significa, também, que tenho margem para crescer, o que é positivo”, explica. “Temos uma cozinha em Alcântara e, todos os dias, um senhor que já trabalha connosco há anos e anos, vem com a carrinha refrigerada trazer os nossos bolos frescos e fazer as nossas entregas. As encomendas para fora são a maior parte do nosso negócio e estar no mundo digital é-nos fundamental. Mesmo com a loja fechada, e a desoras, continuamos a receber pedidos online. Também garante que conseguimos abranger muito mais que apenas uma geração de clientes. Quase todas as nossas encomendas são feitas através do nosso site, mas também as aceitamos presencialmente, em loja, ou por telefone. Normalmente, a geração mais velha prefere vir à loja. Também estamos na app Glovo, mas a maioria das nossas entregas são feitas por nós”, diz Marta.

“Acho que vender bem é exatamente isso, é atingir o limite.”

“Não quero mudar o meu modelo de negócio completamente para conseguir estar em todo o lado, tenho clientes de há catorze anos por alguma razão, já é tradição. Se calhar abrir mais uma loja ou duas em pontos estratégicos, ou ter parcerias, como o que temos no Time Out Market”, conta. “Quando o mercado abriu, há uns anos, a dona do Nós É Mais Bolos entrou em contacto comigo para fazermos uma parceria. Comecei desde o dia em que abriu, até hoje! É um ponto de venda nosso e é uma parceria ótima, com uma lógica diferente da de um centro comercial”, explica.

O Bolo da Marta também se encontra no Time Out Market, na loja Nós É Mais Bolos.

“Vejo-me a expandir o negócio com parcerias. Por exemplo, a ter uma parte de decoração na loja, com acessórios que mantenham a essência da marca, porque no fundo isto é um universo. Comecei a vender flores da Amor e Lima, chávenas, canecas, infusões da Criatura, guardanapos da MariAida, porque eu gosto genuinamente das marcas e as pessoas perguntavam-me de onde eram as coisas que incluía nas minhas fotografias. Gostava de ter um espaço onde pudesse vender mais produtos, mais decoração, que adoro”, revela.

Quando questionada sobre que conselhos deixaria a novos empreendedores, Marta partilha abertamente experiências e aprendizagens. “Sou uma pessoa totalmente diferente do que era quando comecei, em termos de maturidade – comecei com 24 anos e agora tenho 38! Ainda por cima, comecei sem pretensões nenhumas de começar um negócio, não sabia mesmo nada! Às vezes olho para trás, para fotografias do início, e fico cheia de vergonha, a rir-me do amador que tudo era. Mas faz parte!”, continua.

Foto: Victor Machado.

“Ao longo dos anos fui sempre aprendendo com os meus erros. Se uma coisa corria mal, aprendia e não voltava a repetir, tudo aos poucos. Comecei com o Facebook, depois apareceu o Instagram e também fui para lá, claro. As minhas fotografias eram péssimas, então arranjei um fotografo, não tinha site, então fiz um site, não tinha bolos para take-away, então arranjei bolos e carrinha… e foi sempre assim! A verdade é que nos últimos anos as coisas mudaram imenso. Não havia fornecedores de caixas de bolo quando comecei como há hoje – não havia nada! Eu encomendava-as do eBay e o meu pai, que trabalhava em Londres, trazia-mas na mala para eu ter caixas giras! Hoje, as nossas caixas são super características e não quero alterar um design que já faz parte do nosso branding. Amigas mandam-me mensagens quando vêm alguém na rua com uma caixa nossa!”, conta Marta. “Sou muito fiel à nossa imagem de marca e à nossa qualidade. Isto é uma extensão da minha vida, do que eu sou”, diz.

 “Isto é uma extensão da minha vida, do que eu sou”

“Acho que tenho um bocado o síndrome do impostor. Nunca me levo muito a sério e acho sempre estranho quando me convidam para dar entrevistas ou têm interesse na minha história, mas este ano acho que mudei um pouco e comecei a valorizar mais o meu percurso. Até com esta loja, que tem recebido imenso feedback positivo. Tenho aberto um bocado os horizontes”, afirma. “Outra coisa importante é a competição. Dou imenso valor aos meus concorrentes, porque só estou onde estou e só me sinto cada vez melhor por existir boa concorrência. Temos de sair da nossa zona de conforto. Os piores anos que tive foram os em que me senti mais confortável! Quando me sinto desconfortável é quando corre melhor. Competição estimula-me e isso é que é bom. É assim que nos vamos reinventando. Se me dissessem que hoje o meu negócio ia ser hoje, quando eu lancei no Facebook há catorze anos, não acreditava!”, concluiu.

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