O Business case da sustentabilidade: transformar visão em valor

Num contexto global marcado por instabilidade geopolítica, ciclos eleitorais imprevisíveis e transições energéticas, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão de reputação. No discurso de abertura, António Redondo, CEO da The Navigator Company, alertou para o atual momento de viragem: “Esta sessão do fórum é diferente das outras pelo aniversário que celebramos, mas permitam-me…
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20.ª edição do Fórum de Sustentabilidade, da The Navigator Company, procurou responder a uma pergunta que está longe de ser retórica: como transformar a sustentabilidade em valor real num mundo em rápida mudança?
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Num contexto global marcado por instabilidade geopolítica, ciclos eleitorais imprevisíveis e transições energéticas, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão de reputação. No discurso de abertura, António Redondo, CEO da The Navigator Company, alertou para o atual momento de viragem: “Esta sessão do fórum é diferente das outras pelo aniversário que celebramos, mas permitam-me que vá mais longe na importância que atribuímos a esta edição: 10 anos depois de termos iniciado estes fóruns, o mundo vive novamente hoje um momento decisivo que moldará as próximas décadas. Por isso escolhemos como tema deste 20.º Fórum de Sustentabilidade ‘O business case da sustentabilidade num mundo em mudança’, visto que ele traduz um dos grandes desafios que o conceito de sustentabilidade enfrenta à escala global – a forma como é percepcionado e valorizado.” O presidente do Fórum de Sustentabilidade referiu ainda que não se pode “abdicar de um conceito que é mais do que uma bandeira _ uma estratégia construtiva. Perante os grandes desafios societais da atualidade, a sustentabilidade, entendida na sua verdadeira acção, é a única via possível para garantir valor duradouro, para as empresas, para os territórios e para a sociedade”.

A Europa deve garantir regras claras e competitivas para as empresas que lideram pelo exemplo. É chegado o momento de demonstrar que na prática se “investe em sustentabilidade”, não se “gasta em sustentabilidade”. Ou seja, não é um custo, antes uma forma de assegurar resiliência e rentabilidade a longo prazo.

“Inovação: o pulso da sustentabilidade”

Num painel dedicado à inovação e à sustentabilidade, Fernanda Torre, CEO da Next Agents e afiliada à Stockholm School of Economics, afirmou que a verdadeira mudança ocorre quando a inovação se integra no ADN das empresas e incentivou à construção de “castelos com fossos” para se protegerem da concorrência. “A inovação é, por natureza, gestão da incerteza. Vi- vemos num mundo cada vez mais incerto. Portanto, não faz sentido que se faça um projeto de sustentabilidade sem utilizar tecnologias ou métodos de outras disciplinas. É como uma dança. Se conseguirmos isto, tornamos a nossa organização mais difícil de ser copia- da pela concorrência e mais forte estrategicamente”.

A portuguesa que vive na Suécia mostrou também preocupação com a quantidade crescente de plásticos que “navegam” nos oceanos. Se o desafio ambiental é visível à superfície do mar, há outro, mais silencioso, que preocupa a comunidade científica. Júlia Seixas, pró-reitora para a sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa, destacou a urgência de acelerar a investigação em temas emergentes, como a presença de microplásticos que respiramos e ingerimos, com impacto nocivo e crescente na saúde pública. “Pergunto: Como é que se resolvem estes problemas a não ser por regulação? Acham que o mercado vai resolver? Eu acho que não.” Na sua intervenção, Júlia Seixas lembrou a Hipótese Porter, formulada nos anos 90, que defende que regulações ambientais eficazes podem impulsionar a inovação e aumentar a competitividade das empresas. “A palavra de Michael Porter, e agora estou a olhar para a Fernanda [Torres], era inovação.”

“Expectativas de evolução das obrigações para as grandes empresas cotadas – custos e oportunidades”

Assunção Cristas, partner da VdA e professora da Nova School of Law, considerou que a Europa mostra uma clara preocupação em criar e harmonizar obrigações a nível global, mas permanece em aberto se o resto do mundo estará disposto a acompanhar esta mudança, o que pode colocar o Velho Continente em desvantagem, sobretudo em termos de competitividade. Empresas alinhadas com preocupações ambientais e sociais tendem a ter mais sucesso, num mercado cada vez mais informado e que valoriza essas dimensões. Para João Moreira Rato, presidente do Instituto Português de Corporate Governance, o excesso de regulação pode pôr em causa a Europa como centro de inovação, sendo que a prioridade para as grandes empresas cotadas deve ser “definir uma estratégia de sustentabilidade que seja coerente com os objetivos da empresa e dos stakeholders”. Considerou ainda que a situação política da Europa é volátil e que as questões relacionadas com o clima vão estar dependentes destas mudanças. “A Europa perdeu voz em relação a um conjunto de temas que há uma década seria impensável”. A reflexão é de Abel Sequeira Ferreira, Membro do Board e Diretor Executivo da Associação de Empresas Emitentes de Valores Cotados em Mercado (AEM), para quem “a sustentabilidade não deve prevalecer sobre a competitividade. O responsável defendeu a necessidade de uma “Agenda Europeia para a Competitividade” que simplifique com urgência um quadro regulatório “demasiado complexo e pesado”.

Para onde vai a sustentabilidade?

Da regulação à prática do quotidiano, Ana Rovisco, sustainability & ESG relations global director da Jerónimo Martins, referiu as dificuldades de concretizar políticas sustentáveis em cadeias de fornecimento extensas, sublinhando que “as grandes empresas conseguem cumprir, mas muitos parceiros mais pequenos ficam para trás”. É fundamental educar todas as equipas, para que a sustentabilidade seja entendida por todos. Pedro Faria, environmental lead da EFRAG, reforçou a necessidade de “standards mais simples que sirvam realmente a gestão” e de uma abordagem que valorize a sustentabilidade como fator de criação de valor estratégico. No balanço do encontro, Teresa Presas, secretária-geral do Fórum de Sustentabilidade, voltou a referir o contexto político que entre visões mais intervencionistas e abordagens liberais interfere na forma como a sustentabilidade é entendida e aplicada. A diferença entre esquerda e direita traduz-se, muitas vezes, no modo de agir, mas o essencial é manter o propósito: “A sustentabilidade não é um impedimento à competitividade europeia; é, sim, uma necessidade estratégica para a prosperidade futura.”

Este artigo foi produzido em parceria com a Navigator 

 

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