Destino: Ser fã

“É o Barcelona contra quem?”, perguntaram no carro pedido para fazer a viagem entre a praça do Rossio e o Estádio José Alvalade no passado mês de maio. Sem surpresa, uma vez que ao início da tarde do dia da final da Women’s Champions League eram os adeptos da equipa catalã que enchiam as ruas…
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Ainda que viajar esteja na lista de objetivos para o novo ano que muitas das pessoas escrevem em dezembro, nem sempre se trata apenas de viajar. Às vezes é sobre ir a um novo país para ouvir um artista que se gosta, ver um dos jogos mais importantes da época ou percorrer as mesmas ruas que um ídolo tem vindo a destacar ao longo de toda a sua carreira. O turismo de fãs é uma tendência cada vez mais forte no setor das viagens.
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“É o Barcelona contra quem?”, perguntaram no carro pedido para fazer a viagem entre a praça do Rossio e o Estádio José Alvalade no passado mês de maio. Sem surpresa, uma vez que ao início da tarde do dia da final da Women’s Champions League eram os adeptos da equipa catalã que enchiam as ruas da baixa lisboeta.

Do outro lado do campo, mais tarde, estaria o Arsenal. E se é verdade que estavam em inferioridade numérica neste primeiro momento, na chegada ao estádio mostraram-se presentes para apoiar a equipa inglesa.

Uma coisa estava certa: os adeptos de ambas as equipas não hesitaram na hora de comprar um bilhete de avião para ir a um país estrangeiro apoiar o seu clube. E pelo espanhol e inglês que se continuou a ouvir nas ruas de Lisboa nos dias seguintes, muitos deles aproveitaram a oportunidade para juntar o turismo ao fim de semana dedicado a ser fã.

“O turismo de fãs emerge como uma forma complexa de mobilidade cultural, emocional e identitária. A decisão de viajar para assistir a eventos desportivos está profundamente enraizada em emoções, identidades, rituais sociais e na procura de experiências significativas, sendo impulsionada por uma combinação de fatores internos – motivação e ligação emocional – e externos – contexto do evento e condições da viagem”, explica Célia Gouveia, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES).

Exemplos de cada uma destas motivações passam pela adrenalina ou a necessidade de escapar à rotina, ligados ao lado emocional; a nível sociocultural falamos da interação com familiares, amigos ou outros fãs; os fatores contextuais passam pela “qualidade do jogo, o equilíbrio competitivo e a presença de atletas reconhecidos como celebridades. Acrescem ainda as condições do estádio, o ambiente urbano envolvente, a acessibilidade, bem como a existência de promoções, eventos paralelos e experiências complementares que valorizem a deslocação”, explica Célia.

Pegando no jogo entre o Barcelona e o Arsenal como exemplo percebe-se que o cenário estava montado na perfeição para que todos estes ingredientes se misturassem. Um jogo em Lisboa permitiu aos adeptos de Barcelona e Londres escapar das rotinas nas suas cidades, o facto de estarem a apoiar o mesmo clube fez com que vários automaticamente se juntassem no mesmo grupo, tratou-se de uma final da Liga dos Campeões e por isso um dos jogos mais importantes da época, onde marcaram presença jogadoras bastante reconhecidas como Alexia Putellas, Alessia Russo, Aitana Bonmati, Beth Mead ou Leah Williamson. E, por fim, Lisboa estava pronta para adicionar ao espetáculo: Na Praça do Comércio, num espaço montado pela organização para reunir os adeptos, patrocinadores e convidados, como a britânica Alex Scott, houve sempre lugar para convívio.

“Ser fã de desporto pode ser definido como uma ligação que ultrapassa o simples consumo ocasional de eventos ou resultados, integrando-se na vida quotidiana como uma prática social, cultural e identitária, muitas vezes transmitida geracionalmente no seio familiar ou comunitário. O fã estabelece relações emocionais e simbólicas com equipas, atletas, lugares e outros fãs, num processo que envolve tanto experiências mediadas como presenciais”, continua a investigadora.

Fenómeno desportivo

Segundo um estudo realizado pela Collinson International, a previsão é de que o valor do turismo desportivo chegue aos 1,2 biliões de euros em 2032, com quase metade (46%) dos fãs de desporto a afirmar que viaja internacionalmente para assistir a um evento. Dentro destes eventos, o futebol (69%) é o mais popular, seguido do basquetebol (27%), Jogos Olímpicos e Fórmula 1 (ambos com 26%) e do ténis (21%). Cada viagem chega mesmo a ultrapassar os 500 euros em despesas.

A comprovar estes dados está o grupo de fãs que a Forbes reuniões para responderem a quatro questões sobre as viagens que realizaram enquanto fãs. Uma das inquiridas deslocou-se a Barcelona em 2022 exatamente para assistir a um Grande Prémio de Fórmula 1. “Foi marcante porque de repente deixas de ver um desporto que gostas através dos ecrãs e passas a vibrar com o que está a acontecer à frente dos teus olhos, sentindo toda a emoção”, afirma, realçando que, apesar de acreditar que um fã não deixa de ser mais leal por assistir aos eventos a partir de casa, “vibras de maneira diferente sentado nas bancadas do circuito”. Em grande parte, acredita, devido à comunidade, ao facto de todas as pessoas estarem ali reunidas a vibrar pelo mesmo, independentemente das rivalidades que possam existir.

O poder do desporto verifica-se em Portugal quando olhamos para os eventos que mais marcaram este tipo de turismo nos últimos anos. “Desde o Euro 2004, a imagem de Portugal ganhou visibilidade internacional como destino seguro e capaz de organizar grandes eventos desportivos. Durante esse torneio, o ambiente urbano foi profundamente transformado: ruas decoradas, espaços públicos ativados para acolher os fãs e um forte sentido de hospitalidade marcaram a experiência dos fãs”, explica Célia.

Seguiram-se a final da Liga dos Campeões em 2014, disputada no Estádio da Luz, em Lisboa. O que resultou numa conquista histórica para o Real Madrid, que venceu a sua décima Liga dos Campeões. Em 2019, o Norte do país recebeu a fase final da Liga das Nações, que Portugal acabou por vencer. O simples facto de a seleção nacional contar com Cristiano Ronaldo no plantel, o futebolista – e a pessoa – mais famoso do mundo, por si só também já atrai uma série de adeptos de todo o mundo aos jogos que são disputados em Portugal.

E podemos ir até mais atrás: “Um evento particularmente marcante para o turismo de fãs em Portugal foi a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1967 (atual Liga dos Campeões da UEFA), disputada a 25 de maio, no Estádio Nacional do Jamor, entre o Celtic FC (Escócia) e o Inter de Milão (Itália). Com a vitória por 2-1, o Celtic tornou-se o primeiro clube britânico a vencer a competição, num feito de grande significado desportivo e simbólico para a Escócia. A equipa vencedora ficou conhecida como os ‘Lisbon Lions’, nome que permanece até hoje como símbolo de orgulho para os seus fãs. A designação ‘Lisbon Lions’ elevou Lisboa a símbolo mítico na história do Celtic, levando muitos fãs a visitar posteriormente o Estádio Nacional como forma de homenagear aquele feito histórico. Até aos dias de hoje, fãs do Celtic continuam a visitar o Jamor, sobretudo a 25 de maio de cada ano. O espaço adquiriu uma dimensão quase espiritual e ritualizada, funcionando como um local de peregrinação, reforçando o seu valor patrimonial, afetivo e identitário”, explica a investigadora.

Banda sonora da viagem

Os motivos que levam os fãs a viajar não ficam por aqui e a música tem também bastante importância nesta área. O mesmo estudo mencionado anteriormente, prevê que até 2032 o turismo musical chegue a um valor na ordem dos 12,5 mil milhões de euros, com destaque para festivais como o Rock in Rio, Coachella e Tomorrowland ou os concertos de artistas como Taylor Swift, Travis Scott e Ed Sheeran.

“A área que conheço mais profundamente, enquanto objeto de estudo, é a do desporto”, explica Célia. “Embora não disponha de dados comparativos entre diferentes domínios, é evidente que, tal como acontece no desporto, também os fãs de música realizam deslocações frequentes, tanto a nível nacional como internacional, para assistir a concertos, festivais ou atuações específicas dos seus artistas preferidos. O turismo de fãs em contexto musical, à semelhança do desportivo, mobiliza dinâmicas de consumo afetivo e formas de pertença simbólica, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do turismo cultural e criativo. Muitos festivais e eventos musicais integram o território na própria narrativa do espetáculo, promovendo a imagem da cidade ou região anfitriã e incentivando o regresso dos visitantes”.

Entre o grupo de fãs portugueses inquirido pela Forbes, os artistas que mais vezes os levaram a optar por uma viagem para assistir a um concerto foram Zayn Malik, Harry Styles, Liam Payne, Taylor Swift, Coldplay e Jonas Brothers.

A nível nacional, são vários os eventos musicais que atraem a visita de fãs de outros países. Nos últimos tempos, alguns dos que mais marcaram o panorama nacional foram os concertos de Taylor Swift, Coldplay ou Kendrick Lamar e SZA. Além dos já habituais festivais de verão.

Pegando nos dois concertos de Taylor Swift em Lisboa, a 24 e 25 de maio do ano passado, conseguimos perceber o impacto que o turismo de fãs pode ter nos negócios de uma cidade. Os espetáculos da artista norte-americana resultaram num crescimento significativo da faturação proveniente de cartões estrangeiros, com os negócios do distrito a registar um crescimento de 34% na sexta-feira (primeiro dia de concerto) face à sexta-feira anterior. Já a subida do número de transações estrangeira entre este mesmo dia e a sexta-feira antecedente foi ainda mais expressiva, com uma variação de 49%.

EUA, Irlanda, Reino Unido, França e Espanha foram os países que mais peso tiveram na faturação estrangeira no fim de semana em que se realizaram os concertos.

No ano anterior, os Coldplay tinham atuado quatro vezes em Coimbra, o que representou um investimento na ordem dos 800 mil euros da parte da Câmara Municipal da cidade. No final, e segundo um estudo da CBS/ISCAC, o retorno direto foi na ordem dos 36 milhões de euros, com os principais gastos a serem registados na hotelaria e restauração.

Portugal é, ainda, um dos países que recebe o Rock in Rio. Segundo um estudo da Nova SBE, a última edição do festival (2024) gerou um impacto de 120 milhões de euros na economia portuguesa, depois de juntar mais de 300 mil pessoas no Parque Tejo. Já o NOS Alive, que se realiza todos os anos, voltou a ter impacto em Oeiras este ano. De acordo com o REDUNIQ Insights, o relatório da REDUNIQ que analisa a evolução dos pagamentos registados por cartão na sua rede, a faturação dos negócios no concelho de Oeiras durante os dias de festival aumentou 8,95%, face ao mesmo período de 2024.

O outro lado

Há ainda um outro motivo que leva os fãs a viajar. Após lerem um livro, verem um filme ou ficarem a conhecer as rotinas dos seus ídolos, muitos acabam por escolher visitar as cidades em questão e passar pelos mesmos sítios. Vejam-se os seguintes exemplos: a série ‘House of the Dragon’ foi gravada na aldeia de Monsanto e continua a trair bastantes visitantes por esse motivo; no ano passado, uma agência de turismo de Manhattan criou uma excursão para os fãs da cantora que passa pelos lugares favoritos da estrela da pop; ainda hoje, a casa conhecida como de Carrie Bradshaw, na série ‘O Sexo & a Cidade’ recebe visitantes todos os dias.

O último exemplo é, aliás, um dos que nos mostra que este turismo enfrenta alguns obstáculos. Os atuais proprietários da casa em questão já vedaram o edifício para que os fãs não possam tirar fotografias nas escadas onde se sentava a personagem.

No caso particular de Portugal, Célia Gouveia acredita que os fãs sejam bem recebidos. “De forma geral, o turismo de fãs é positivamente recebido pelas comunidades locais em Portugal, sendo frequentemente associado a um ambiente festivo, à hospitalidade característica e ao dinamismo económico que gera nos territórios anfitriões. Estes momentos contribuem para a criação de ambientes de confraternização entre visitantes e residentes, promovendo experiências coletivas de forte carga simbólica e um elevado grau de envolvimento cívico”, afirma.

O que é um pouco comum um pouco por todo o mundo é o facto de existir um risco de exploração comercial muito grande quando falamos da experiência dos fãs. É frequente que, por exemplo, os preços do alojamento aumentem numa cidade que está prestes a receber um evento desportivo ou musical de grande impacto.

“À medida que o turismo de fãs cresce, seja no desporto, na música ou noutras manifestações culturais, as experiências autênticas e emocionais dos fãs tendem a ser mercantilizadas. Por um lado, leva à exclusão económica e desigualdades de acesso. Os preços elevados de bilhetes, deslocações, alojamento e produtos oficiais criam barreiras à participação, deslocando os fãs locais e aproximando o desporto ou o evento de uma lógica elitista. Por outro lado, esta mercantilização revela-se, em grande medida, uma inevitabilidade face à lógica do mundo contemporâneo, onde o entretenimento, o desporto e a cultura popular estão profundamente integrados nas dinâmicas do mercado global”, conta a investigadora.

Aldeia global

Toda esta experiência tornou-se bastante mais simples após a globalização e a internet, sendo que há fãs que acabam mesmo por viajar com outros fãs que conheceram online.

“A internet democratizou o acesso à informação, facilitando o uso de plataformas digitais, redes sociais e aplicações especializadas que permitem aos fãs comprar bilhetes, reservar alojamento e organizar deslocações com grande autonomia. As redes sociais e os fóruns virtuais desempenham um papel central na formação de comunidades transnacionais de fãs, que partilham informações, experiências e seguem clubes, atletas ou celebridades, estimulando o desejo de deslocação e a participação presencial em eventos. Além disso, com o impacto das redes sociais, a experiência do fã não termina no evento: prolonga-se e amplifica-se no espaço digital. A partilha de fotografias, vídeos, relatos e conteúdos em direto cria uma dimensão performativa, na qual ‘estar lá’ se torna também um ato de construção e partilha de identidade”, diz Célia.

Entre as respostas mais dadas pelo grupo de fãs que respondeu às perguntas da Forbes, os motivos para as viagens passam por esse vínculo com uma comunidade, o facto de não quererem perder uma experiência que pode ser única (caso uma tour não passe por Portugal, por exemplo), quererem estar presentes em momentos especiais para os próprios artistas ou atletas e conhecerem novos destinos pelo simples facto de gostarem de viajar. Até porque, sim, grande parte dos fãs admite usar o tempo das viagens para um concerto ou competição, mas também para ficar a conhecer as cidades.

“Sempre que viajo para ver um artista faço questão de aproveitar para conhecer o local onde o concerto decorre. Sinto que é uma oportunidade de também conhecer outros sítios, mesmo que o motivo principal da viagem não tenha sido esse. Este é, aliás, um dos aspetos que mais pesam na escolha do sítio onde vou para ver um concerto. Gosto muito quando são cidades que ainda não visitei”, afirma uma das fãs.

Tendo novamente em conta o estudo da Collinson International, realizado a nível global, 46% dos fãs de desporto e 42% dos fãs de música fazem viajas internacionais para assistir a eventos. Desses, 84% já foram a uma nova cidade ou país para assistir a um evento desportivo ou musical.

(Artigo publicado na edição de agosto/setembro 2025 da Forbes Portugal)

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