Nova Iorque ou Lisboa? Para Lindy Reid não existe nem um segundo de hesitação nesta resposta e a capital portuguesa sobe ao topo da lista com toda a rapidez. Ainda assim, não fechou os olhos à oportunidade de trazer para o lugar que se tornou a sua casa um pouco da cultura com a qual cresceu. E tudo isto aconteceu através dos bagels.
Estudou a área da moda e a determinada altura mudou-se para Nova Iorque com o objetivo de colocar os seus conhecimentos em prática. Mas as coisas não aconteceram como esperava. “Comecei a trabalhar com moda, mas não consegui acompanhar o ritmo de Nova Iorque. Adoro muitas coisas na cidade, mas não me sentia bem lá”, conta Lindy Reid à Forbes. O que a levou a fazer as malas e regressar a Boston, onde continuou a trabalhar como stylist e personal shopper. Até que a noção de que para evoluir na carreira teria de regressar a Nova Iorque a levou a deixar os Estados Unidos e a procurar um novo rumo. A Tailândia acabou por ser o primeiro destino.
“Decidi que ia tirar alguns meses para mim, para me reorganizar e avaliar o que realmente queria fazer. Os poucos meses na Tailândia acabaram por se transformar em quase dois anos. Enquanto lá estive, comecei a ensinar inglês e apaixonei-me pela experiência de viver no estrangeiro. Aprendi muito sobre mim mesma e não conseguia imaginar voltar para Nova Iorque ou mesmo para os EUA no geral”, diz.

Lisboa surge depois. Lindy descreve a mudança “um pouco como um tiro no escuro”. Já conhecia a cidade portuguesa e sabia que iria encontrar algumas das coisas que procurava em termos de clima, tamanho da cidade ou acessos. Também era um dos fusos horários da sua preferência, uma vez que continuou a dar aulas online de inglês a alunos na China. Ainda assim, veio um pouco ao desconhecido.
Tradição familiar
Conhecer o percurso e a história de vida de Lindy antes de conhecer a Rhodo Bagels torna-se indispensável porque é exatamente essa história que está na base de todo o negócio que criou em Lisboa. “O negócio é uma extensão de mim mesma, é muito pessoal para mim. Para mim, a história é tudo. É isso que o negócio é, a ligação entre a minha casa, a minha família, as tradições e integrar isso na minha vida portuguesa”, conta.
Em casa de Lindy, como é costume nos Estados Unidos, os bagels são uma comida de pequeno-almoço. Mas ganharam um significado especial no Natal. Com a proximidade entre o Dia de Ação de Graças e o Natal, e o facto de sobrar comida para bastante tempo após o primeiro, a família da fundadora da Rhodo acabou por optar por um pequeno-almoço especial no Natal. “Começou com bolos de canela e, à medida que fomos crescendo, passámos a ter mais coisas. Quando o meu padrasto se tornou parte da família, ele trouxe a tradição dos bagels”, conta.
Em Lisboa, quis manter esta tradição. Num Natal em que se juntou com uma série de amigos de diferentes países, decidiram que cada um levaria algo tradicional do seu país. Lindy levou ou bagels. “Inicialmente, estava a planear levar os bolos de canela. Ainda bem que não o fiz”, diz.

A Rhodo
O nome do negócio está ligado a uma flor que é muito comum na cidade natal de Lindy. E chegou antes mesmo de surgir a ideia dos bagels. “Porque me faz sentir próxima da minha família. É uma conexão com a minha casa”, diz.
Já a viver em Lisboa, continuou como professora de inglês, mesmo sabendo que essa não era a sua paixão. Mas quis tomar o seu tempo por acreditar que os “negócios que são forçados não funcionam”.
“Queria que acontecesse naturalmente e estava satisfeita a dar aulas. Eu já fazia bagels em casa, era assim que eu demonstrava o meu carinho pelos meus amigos”, conta. “Não esperava trabalhar na indústria alimentar, mas fez sentido. Na minha infância, até mesmo a minha vida adulta, os bagels são uma parte muito importante e são uma experiência com a comunidade. Podem ir a uma loja de bagels sozinhos, mas muitas das minhas memórias mais importantes com bagels são com a família, costumávamos ir todos os domingos comprar bagels, ou são muito comuns para levar para uma reunião de trabalho, uma viagem escolar, qualquer coisa em que exista um grupo de pessoas juntas. Adoro essa ideia”.
À medida que os bagels foram fazendo sucesso entre os seus amigos, Lindy decidiu criar uma página no Instagram e começar a vender para fora. “Surpreendentemente, quase imediatamente recebi encomendas”, lembra. Em apenas um mês e pouco já estava a participar em feiras e eventos e a cozinha de sua casa já se tornava pequena para a quantidade de procura que recebia. Foi assim que decidiu abrir a Rhodo Bagels no número 178 da Rua da Boavista, em Lisboa.
Claro que, apesar de o negócio ter sido bem recebido logo ao início, nada disto aconteceu sem alguns desafios à mistura. “Primeiro, tentar entender como começar um negócio, porque essa não era a minha área. Isso seria um grande desafio mesmo no meu país. Mas aqui, além disso, aprender as diferenças culturais e como comunicar. Sou uma pessoa que tenta ser muito cautelosa e respeitosa, sei que sou uma imigrante neste país. Mas quando se está a começar um negócio, às vezes é preciso ser firme e assertiva. Tentar encontrar esse equilíbrio entre o respeito e o garantir que não estou a ser muito passiva foi difícil”, conta Lindy.

Dentro do próprio negócio existiam pontos que eram completamente não negociáveis para a fundadora. Por exemplo, os bagels teriam de ser feitos à “moda antiga”. O que é que isso quer dizer? “A parte mais importante é ferver os bagels e acho que é aí que muitos lugares erram. Isso não é apenas tradicional, é, honestamente, a única maneira de os fazer. Se não for fervido, não é um bagel, é apenas pão com a forma de um bagel. Também usamos malte de cevada orgânico. E fermentamos a massa por 48 horas, todo o processo demora dois dias”, explica.
Para lá de Lisboa
Num país bastante ligado à sua cozinha e àquilo que é o habitual por cá, introduzir um novo produto poderia não ser fácil, mas Lindy garante que os portugueses são mais curiosos do que desconfiados quando se trata de bagels.
“Não tinha a certeza de como seria recebido [o negócio], mas temos muitos clientes portugueses, todos curiosos e interessados em experimentar. Acho que os bagels são interpretados de forma diferente por diferentes comunidades e percebi logo isso. Os portugueses estavam céticos em relação ao bagel com cream cheese e nos EUA essa é a forma mais comum de comer. Os portugueses diziam ‘tem de haver mais recheio’. Então percebi que tinha de desenvolver mais um menu. Nos EUA, as pessoas comem bagels mais como um alimento de pequeno-almoço e acho que os portugueses comem mais como um almoço. Foi divertido aprender todas essas diferenças”, diz.
Neste momento, os seus clientes são uma mistura entre portugueses, turistas e americanos que vivem em Portugal. Os seus produtos favoritos são o lox bagel, com salmão fumado e cream cheese, e o bagel de ovo, bacon e queijo. E mesmo que com a certeza de que quer manter a Rhodo como uma loja de bagels, Lindy acabou por adicionar ao menu um novo favorito dos clientes: as bolachas. “As bolachas tornaram-se tão conhecidas quanto os bagels, se não mais. Também tenho muito orgulho nas bolachas porque foi um trabalho feito com amor, até chegar à receita perfeita. São enormes e eu queria mesmo a consistência perfeita: crocantes por fora, macias por dentro. Passei muito tempo a testar diferentes formas e sinto que é a bolacha perfeita”, diz.

Se a expansão de produtos não será muito maior, para manter a identidade da marca, a expansão em termos de espaço poderá vir a acontecer no futuro. Para os Estados Unidos não se vê a voltar, e trata-se de um mercado muito mais saturado, mas outras cidades portuguesas – ou até de outros países que lhe permitam continuar a viajar – poderão ser uma opção.
“Agora que o negócio está estável, tão estável quanto um negócio pode ser, adoraria torná-lo maior. O que me motiva é o lado criativo das coisas, eu adorei construir este espaço, criar o menu. É divertido para mim e também sinto que é nisso que sou melhor, em vez da parte operacional. E agora que operacionalmente estamos a funcionar bem, sinto que está na hora de voltar a divertir-me. Gostava de ver lojas da Rhodo em cidades diferentes, mas com cautela, porque nunca quero perder o toque pessoal, e sei que muito disso se deve ao facto de estar sempre aqui e conhecer toda a gente. Nunca quis perder o sentimento de pequena comunidade, mas acho que podemos manter isso e continuar a crescer”, conclui.
(Artigo publicado na edição de agosto/setembro 2025 da Forbes Portugal)





