Francisco Geraldes: “Contra o mundo continuarei a ser”

Contra o mundo Longe vão os tempos em que, no colégio, era apenas a bola, a baliza no recreio, e o desequilíbrio numérico na escolha das equipas para equilibrar o resultado. No final do dia, não poucas eram as vezes em que essa justiça se traduzia num “o France - alcunha carinhosa como era tratado…
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Pitch escrito pelo futebolista português Francisco Geraldes, originalmente publicado na edição de agosto/setembro 2025 da Forbes Portugal.
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Contra o mundo

Longe vão os tempos em que, no colégio, era apenas a bola, a baliza no recreio, e o desequilíbrio numérico na escolha das equipas para equilibrar o resultado. No final do dia, não poucas eram as vezes em que essa justiça se traduzia num “o France – alcunha carinhosa como era tratado – e o Pedro contra o mundo”. No fundo, eu e ele contra quem quisesse jogar futebol no recreio. Tempos alegres, leves e que me permitiram ser tudo o que a uma criança deveria ser permitido.

Quando entrei para o Sporting, teria cerca de oito anos, justamente na idade de ser contra o mundo no colégio, cedo me apercebi de algumas diferenças com vários colegas de equipa. Uma certa desigualdade que nunca me coube no peito. Uma desigualdade que incomodava e perturbava o coração de quem sempre teve muitas questões sobre a organização do mundo e as suas desigualdades, mas cuja origem nunca as conseguiu explicar. Afinal, como era permitido que os rapazes iguais a mim, de carne e osso, pudessem não ter como lanchar? Como era possível que não tivessem quem os fosse buscar, vendo-se obrigados a andar de transportes públicos por mais uma ou duas horas? Não teriam eles também avós? Eu, que sempre tive quem me fosse buscar à escola, levasse ao treino, fosse buscar ao treino, preparasse o jantar assim que chegava a casa… como era possível que eu fosse a exceção e não a regra?

Questões que durante anos a fio sempre me assaltaram o espírito e me fizeram sentir como se de uma pedra no sapato se tratasse.

As desigualdades existentes, tão notórias perante alguns colegas, sempre me causaram uma enorme angústia. Hoje, consigo entender de onde vêm, para onde caminham e qual a sua possível solução. É uma prioridade fazer e lutar pela mudança, para que cada vez mais haja menos crianças a passar as dificuldades que o futebol me permitiu testemunhar. Transformar a angústia e tristeza em força e energia pela mudança. Com o pessimismo da razão, mas munido pelo otimismo da vontade.

Contra o mundo continuarei a ser.

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