Novembro em Portugal é sinónimo de uma coisa: temporada de ondas grandes na Nazaré. O inverno atrai para a Praia do Norte surfistas de todo o mundo e, entre eles, há nomes que se destacam um pouco mais do que outros. Maya Gabeira é uma dessas atletas.
Natural do Brasil, Maya detém o recorde feminino da maior onda já surfada. No início de 2020 colocou um fim na sua carreira como surfista, depois de 20 anos e várias temporadas na Nazaré, mas não deixa de estar presente na modalidade. Este ano lançou “Maya e o Monstro”, um livro infantil inspirado na história da lendária surfista que desafiou o “monstro” na vila portuguesa.
“As crianças são o futuro e penso sempre em conectar com elas para que possamos inspira-las e motivá-las”, conta Maya à Forbes, questionada sobre o seu principal objetivo com este projeto. “A onda era um monstro também dentro da Maya e temos que enfrentar os nossos monstros, a vida é para ser vivida com coragem”.

Como descreve no livro, a sua relação com o surf foi um amor à primeira vista. “Foi numa praia perto do Rio de Janeiro chamada Búzios. Peguei numa prancha emprestada e mesmo sem conseguir surfar uma onda naquela dia apaixonei-me pelo desporto”, diz. A Portugal chegou mais tarde, em 2013: “Fiquei muito impressionada na época com o potencial para ondas gigantes, a beleza do local e a vida tranquila”.
Pelo caminho teve que superar alguns obstáculos. Logo no primeiro ano em Portugal, um grande acidente nas ondas grandes levou a um processo de recuperação. Ou até a sua presença numa modalidade que ainda é dominada por atletas do género masculino. “Isto não é um lugar para ti. O surf é demasiado perigoso para raparigas”, é uma das frases que se pode ler no livro.
“É muito difícil. Nunca é fácil lidar com rejeição e barreiras impostas pelo mundo, mas fortalece-nos. Através da dor encontramos algo mais forte dentro de nós para seguir em frente”, afirma Maya.
Maya Gabeira foi, alias, a responsável pela criação de um recorde feminino no surf de ondas grandes. A atleta considerou que não era “justo não existir reconhecimento para as mulheres dentro da modalidade” e fez a proposta à World Surf League (WSL). E mesmo que algumas pessoas olhem para o surf de ondas grandes como uma modalidade onde homens e mulheres podem competir numa única categoria, Maya não concorda: “Acho que as categorias devem existir para haver mais oportunidades”.
E no final da carreira tinha a certeza de que o momento para sair da Praia do Norte tinha chegado: “Já não haviam mais sonhos dentro do surf, já tinha feito o meu trabalho e estava na hora de seguir em frente”, conclui.





