Sónia Calado: Quando a tempestade não nos deita abaixo

Nunca ambicionou ser empresária. Sonhava antes em ser bailaria. A primeira aconteceu sem planear, aos 23 anos, mal acabou o curso de Gestão de Empresas. A segunda ficou, desde cedo, relegada para segundo plano, mas não permaneceu totalmente esquecida. Aos 40 anos – para provar que, na vida, estamos sempre a tempo - concretizou o…
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Sónia Calado, sócia e administradora da DRT Group, empresa na área dos moldes de injeção com foco na indústria automóvel, lidera num mundo ainda muito masculino. Instalada em Leiria, zona muito afetada pela tempestade Kristin, a empresária é um exemplo de resiliência e de empenho na reconstrução do negócio que cofundou há três décadas.
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Nunca ambicionou ser empresária. Sonhava antes em ser bailaria. A primeira aconteceu sem planear, aos 23 anos, mal acabou o curso de Gestão de Empresas. A segunda ficou, desde cedo, relegada para segundo plano, mas não permaneceu totalmente esquecida. Aos 40 anos – para provar que, na vida, estamos sempre a tempo – concretizou o seu sonho e finalmente foi aprender ballet. Não como carreira, obviamente, mas como parte de um necessário equilíbrio interior para enfrentar os desafios da vida. Um hobbie fundamental para gerir a vida profissional, que partilha com o marido, e a sua vida pessoal, como esposa e mãe de quatro filhos.

Sónia Calado, 55 anos, sócia e administradora do DRT Group, complexo industrial composto por várias empresas na área dos moldes de injeção de plástico, sediado em Leiria, enfrentou, nos últimos meses, o maior desafio da sua vida de empresária: a destruição de parte do seu património na madrugada do dia 28 de janeiro. O embate da tempestade Kristin, que assolou a região, foi grande, muito maior do que a crise pandémica, em 2020, mas, ainda assim, recusa-se a baixar os braços. “Sinto-me um pouco «bombeira», ando de um lado para o outro a apagar fogos”, refere, a sorrir, perante a dificuldade em agendar a conversa com a Forbes Portugal.

“Na minha liderança reconheço que talvez tenha uma intuição mais aguçada, e uma maior sensibilidade para ler pessoas”, refere Sónia Calado, sócia e administradora do DRT Group. 

Sobre aquela fatídica noite não quer adiantar muito, prefere falar com otimismo em relação ao futuro. “A tempestade Kristin teve um impacto devastador nas nossas operações: duas unidades ficaram praticamente destruídas e vimos, em poucas horas, anos de investimento reduzidos a estruturas inoperacionais. Isso significou paragem imediata de produção, quebra na capacidade de responder a clientes internacionais e a necessidade de acionar planos de contingência para proteger equipas, contratos e a confiança construída ao longo de décadas”, refere. Pior ainda do que a destruição, que deixou as unidades sem telhado, foram os dias seguintes pois, com a chuva e a humidade, os equipamentos oxidaram. Com coberturas provisórias, a empresa está a trabalhar 24 hora por dias para conseguir cumprir todos os seus compromissos. “Mesmo com as quatro semanas que tivemos parados, não falhamos uma única entrega”, revela. E acrescenta que “estamos a reerguer-nos com a mesma lógica com que sempre gerimos o grupo: planear a longo prazo, mesmo em crise, e não abdicar daquilo que é estrutural para a competitividade futura”. Sónia acredita que o grupo que fundou em 1994 com o marido, Valdemar Duarte, atual CEO da DRT, vai sair mais forte e reforçado deste revés.

O nascer de uma empreendedora

Sónia Calado nasceu e cresceu na região de Leiria, zona onde a indústria tem um forte peso na economia local, e na identidade do território, o que, confessa, a influenciou na forma como olha o mundo do trabalho. Está muito ligada ao associativismo local e nacional, pois acredita que “as empresas não existem isoladas, sendo por isso, também, responsabilidade dos empresários participar na construção das soluções para o país”. É vice-presidente da direção da AIP – Associação Industrial Portuguesa, está ligada à NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria, integra os órgãos sociais da associação rede Mulher Líder e da Mobinov – Associação do Cluster Automóvel e da Mobilidade. Acredita que desta forma está a contribuir para a competitividade da indústria e do investimento produtivo em Portugal, e para o debate das políticas económicas, dando, em paralelo, visibilidade ao papel das mulheres em contextos tradicionalmente masculinos, como a indústria transformadora.

Sonia Calado. Foto/ João Fonseca

A gestora, que não cresceu numa família de empresários, depressa percebeu que poderia seguir o caminho do empreendedorismo. Terminado o curso, foi desafiada pelo marido, ela com 23 e ele com 24 anos, a avançar com uma empresa de intermediação na área dos moldes. Valdemar Duarte era gestor de projeto numa empresa alemã e trabalhava com fabricantes automóveis como a Porsche e a Volkswagen. Como acompanhava a realidade desta indústria, quando regressou a Portugal lançou-lhe o repto de fazer a ponte entre os clientes e os produtores nacionais. “Eu sempre fui muito ambiciosa, tinha vontade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e não tinha medo de avançar. E foi assim que começámos”, refere Sónia Calado. A gestora, que tinha o gosto pela dança – frequentara aulas de dança jazz e dança moderna-, tinha também formações na área do fitness, e dava, na altura, aulas de aeróbica e step em vários ginásios.

“A tempestade Kristin teve um impacto devastador nas nossas operações” afirma à Forbes Portugal a gestora Sónia Calado. 

A aposta da empresa foi, desde logo, o setor automóvel, uma área na qual a indústria dos moldes ainda não tinha muita presença em Portugal. “por isso sentimos muita dificuldade em encontrar fornecedores que conseguissem garantir prazo e qualidade, porque este setor era muito exigente”, recorda Sónia. A dupla de empreendedores esteve apenas um ano como intermediária, passando depois à produção. “A maior dificuldade que senti então foi ser muito nova e ser mulheres numa indústria tipicamente masculina. Ainda hoje são muito poucas as mulheres com poder de decisão nesta indústria”, revela. Sentia, então, que os fornecedores e a banca quase não os levavam a sério, porque eram muitos novos e lidavam com valores muito grandes.

Um grupo que já emprega 200 pessoas

A empresa começou com três pessoas, os três da família, e começaram a conquistar bons projetos para o mercado nacional, contratos difíceis de conseguir, bem pagos e com prazos respeitados, e foram assim construindo a sua credibilidade. “Os primeiros dez anos foram de crescimento galopante. Em 2012 construímos instalações próprias, e foi aqui que se deu o boom do crescimento, com condições para faturar mais”, recorda. Em 2015, a DRT entrou também no segmento dos moldes de microinjeção, ou seja, moldes de peças mais pequenas, depois entrou na área da injeção e mais recentemente na área da pintura, que está instalada em Palmela. Esta última área ocupa cerca de 50 dos 200 funcionários do grupo. Desta forma, a empresa foi diversificando o negócio e diluindo o risco de estar apena no setor automóvel.

Depois de alguns anos menos bons, devido ao Covid, e aos desafios atuais da indústria automóvel – que ainda tem o maior peso na atividade -, e de quebras de faturação, devido à covid, o volume de negócios tem-se mantido estável. Foi precisamente na fase da pandemia, que a DRT realizou um investimento de 15 milhões de euros numa nova unidade industrial, na expectativa que o mercado desse um salto. Mas não deu, devido, sobretudo à guerra da Ucrânia e à concorrência asiática, pelo que diversificação tem de continuar a ser uma aposta forte. “Neste momento conseguimos oferecer um pack fechado ao cliente, composto por design de produto, prototipagem, moldes, de pequenas e grandes dimensões, injeção de peça e pintura”, explica Sónia Calado.

Além disso, a empresa sempre se preocupou com a área da investigação e desenvolvimento para conseguir aportar no seu produto muito I&D para valorizar o produto. “Por vezes não conseguimos aumentar o preço do produto, mas na hora da escolha é um fator a nosso favor. Ou seja, permite-nos ser um fornecedor preferencial”, diz a executiva. Porém, admite, a maior barreira tem sido o facto de não conseguir concorrer com o mercado asiático. “Já todos se esqueceram das lições da pandemia, e agora o fator é novamente o preço”, explica. E desabafa: “Os países asiáticos, nomeadamente China, conseguem pôr cá produto ao preço que a mim não me custa a matéria-prima. É impossível concorrer assim”.

Sonia Calado Foto/João Fonseca

Acreditar numa liderança sem género

A liderança acompanha Sónia Calado desde o início da sua vida profissional, já que desde cedo tomou as rédeas do negócio. Defende uma liderança sem género, porque o que “independentemente de sermos homens ou mulheres, o verdadeiramente importa é a competência, o caráter, o sentido de responsabilidade e a capacidade de mobilizar equipas”. Mas, admite que, enquanto mulher numa indústria maioritariamente masculina, enfrentou desafios, tendo frequentemente de provar o seu valor. Claro que há características diferentes nas mulheres e nos homens e que estas se aplicam à liderança, afirma. “Na minha liderança reconheço que talvez tenha uma intuição mais aguçada, e uma maior sensibilidade para ler pessoas”, refere. Sónia afirma mesmo que são essas características complementares que funcionam muito bem na sua liderança partilhada com o marido. “A DRT nunca seria o que é hoje sem mim, mas também não seria o que é hoje sem o Valdemar. Cada um na sua função: eu não me meto na função dele, nem ele na minha”, diz. Explica que, durante muitos anos não levavam o trabalho para casa, – “era o nosso lema”, mas com os estragos da tempestade, esta regra foi quebrada. “Espero que rapidamente se volte ao normal. Porque é muito difícil ser marido e mulher e ao mesmo tempo sermos sócios”, diz.

Além de fazer caminhadas, Sónia Calado continua a praticar dança jazz e ballet, na Academia de Dança de Leira, e não abdica destes prazeres que servem para repor a energia.

Com um dia-a-dia exigente, e para aproveitar da melhor maneira o tempo em família, sempre tentou incluir os seus filhos nas suas atividades lúdicas. Sónia e Valdemar têm três raparigas, de 23, 20 e 18 anos, e um rapaz de 15 anos. Quando eram crianças dançavam todos juntos. “Houve um ano em que participamos num espetáculo os cinco:  as mais velhas faziam hip-hop, outra fazia sapateado e o pequenino fazia ballet. Foi mesmo muito divertido”, recorda. Além de fazer caminhadas, continua a praticar dança jazz e ballet, na Academia de Dança de Leira, e não abdica destes prazeres que servem para repor a energia. “Obrigo-me a colocar esta atividade na agenda. O ano passado, estive dois dias no Pineapple Dance Studios, em Londres, e foi uma experiência única”, recorda. Além disso, viajar é outro dos seus hobbies: privilegio destinos onde possa combinar cultura, arte e algum tempo de silêncio. A minha viagem de sonho é, em geral, a próxima, desde que me permita parar, observar e voltar com novas ideias”, refere. Mesmo trabalhando na área da indústria automóvel, faz questão em ir de bicicleta para o trabalho, sempre que o tempo o permite. Esta é, aliás, uma antiga tradição da região de Leiria, já que, sobretudo na zona da Marinha Grande, os funcionários das indústrias vidreiras se deslocavam, durante muitos anos, para as fábricas neste meio de transporte.

Para o futuro, Sónia Calado ambiciona garantir que o grupo DRT saia mais forte desta fase complicada. Em ternos pessoais, o seu objetivo passa por continuar a ter impacto para lá das fronteiras da empresa, no associativismo e no debate público, quer na liderança, quer nas políticas económicas.

(Texto originalmente publicado na edição em papel da Forbes Portugal de abril/maio, número 85)

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