A Move Hiit nasce da viagem que José Maria Castelo Branco decidiu fazer em XX: na partida tinha a consultoria, na chegada deu de caras com o empreendedorismo. A sua formação passou toda pela área da Gestão e durante algum tempo foi consultor na Deloitte. Ainda assim, nunca deixou o desporto para trás e conciliava a carreira com o râguebi. Até que percebeu, um pouco por acidente, que tinha mesmo de fazer esta viagem: “Foi literalmente um desafio que me colocaram. Na altura trabalhava e treinada ao mesmo tempo e desafiaram-me para dar um treino no Jardim da Estrela”, conta à Forbes Portugal.
O resto, como se costuma dizer, é história.
Deu esse treino e percebeu que a ideia o deixava realmente entusiasmado. “A ideia ficou na cabeça, comecei a tentar perceber se seria viável, se seria possível avançar com um projeto desta dimensão”, explica. Na altura o pensamento já estava totalmente direcionado para os treinos ao ar livre, nunca teve o objetivo de passar a ideia para um espaço fechado. “Percebi que fazia sentido na minha cabeça. Foi um risco porque eu estava com uma vida estável, tinha o meu ordenado, tinha a minha carreira profissional promissora a desenvolver-se, mas decidi largar a Deloitte. Honestamente, foi duro no início, como é óbvio, como qualquer projeto, mas na altura estava tão entusiasmado com o que estava a fazer. Acho que isso tem muito a ver com o nosso propósito, não é? Ou seja, se estamos a fazer uma coisa que nos preenche e de que gostamos, fazemos com outra força, com outra vontade, com outra motivação”.

Mas nem por isso o background profissional de José Maria deixa de ser importante devido a esta mudança. Muito pelo contrário. O fundador da Move Hiit considera que usa neste projeto todas as valências que foi adquirindo na sua carreira anterior. “A parte da gestão, liderança, de valores como consistência e disciplina, tudo isso adquiri através da Deloitte, que é uma ótima escola. Gostei de lá estar, mas não era o meu caminho”, defende.
O crescimento foi gradual e marcado por alguns momentos de dúvida. O projeto começou com poucos participantes, mas o boca-a-boca e a criação de uma relação mais próxima entre o próprio José Maria e a comunidade, através do tempo que passa, por exemplo, a conversas com as turmas antes ou depois dos treinos, contribuíram para o crescimento.
“Nunca mais me esqueço, uma vez que cheguei ao Jardim da Estrela, tinha duas pessoas inscritas e na altura não pagavam absolutamente nada. Estaca a chover e eu trazia o material todo. Os clientes não apareceram, mas eu na altura estava muito disciplinado e às tantas estava sentado, a levar com imensa chuva e a questionar-me: o que é que estás a fazer à tua vida? Mas acho que todos os valores que eu também adquiri na alta competição, no râguebi, nomeadamente a disciplina, resiliência, consistência, levaram-me a pensar que as coisas não estavam a correr bem, mas se insistisse, se apresentasse um bom produto, as pessoas iriam dar valor”, conta.
Sucesso em tempos de incerteza
A Move Hitt nasceu há cerca de dez anos e, sendo assim, também foi obrigada a lidar com a incerteza que se instalou no mundo a partir de 2020. Em março, a pandemia causada pela covid-19 colocou-nos a todos dentro de casa, em total confinamento. O que acabou por ser o fim de muitos negócios, foi um recomeço para a Move Hiit.
“Nós vivíamos do presencial e de repente ficou tudo fechado, ninguém podia sair de casa, e eu que tinha acabado de lançar um projeto e que estava no seu pico, fiquei completamente de mãos atadas”, lembra José Maria. “Tive de me reinventar. Olhei muito para o Instagram, começámos com treinos funcionais ao vivo, apresentámos a mesma experiência do outdoor para o digital e felizmente as pessoas aderiram e correu-se muito”.

Durante os primeiros tempos estes treinos foram gratuitos, mas a determinado momento o fundador da Move Hiit percebeu que não podia ignorar a oportunidade de negócio que tinha na sua frente. “As marcas começaram a ver e começaram a valorizar muito o nosso trabalho, daí terem aparecido algumas oportunidades, nomeadamente a Sport TV, que foi um grande parceiro. Percebi que era a oportunidade certa, fomos para a televisão e felizmente correu muito bem, acho que foi aí o ponto de viragem”, diz.
Foi assim que nasceu a plataforma online da Move Hiit, onde estão disponíveis mais de 2 mil treinos gravados. “Quando lancei a plataforma, estava à espera de receber 10 ou 15 pessoas a pagar e depois começávamos a crescer. A verdade é que o website foi abaixo porque tivemos mais de 900 pessoas no próprio dia a fazer o pagamento”, lembra José Maria. Hoje, esta comunidade conta já com mais de 5 mil membros.
Os treinos em formato presencial continuam disponíveis, com um preço que vai dos 7,50 euros por um treino avulso até aos 55 euros por um pacote de 12 treinos. A plataforma online está disponível a partir de uma aplicação que tem uma subscrição mensal de 20 dólares, por ser uma plataforma internacional, o que equivale a cerca de 17,36 euros.
Tudo isto com a garantia do fundador de que conseguem passar para o online a mesma experiência que se tem no presencial.
“Eu queria garantir que éramos uma comunidade ativa, verdadeira, autêntica, e depois sim vinham os treinos. Antes do treino já tinha existido toda uma conversa e é toda esta experiência, não é só o treino, porque treinos há muitos, é toda esta proximidade que nós temos. Tens de falar, relacionar, perceber quais é que são os problemas. Eu não sou psicólogo, mas muitas vezes digo que faço um bocadinho desse trabalho, porque é assim que conseguimos chegar a elas, e é assim que fazemos com que elas se consigam mexer mais, ficarem mais ativos e conseguirem os resultados que nós queremos”, afirma.
Mais do que fitness
Hoje, o projeto apresenta-se como uma plataforma de bem-estar, assente em três pilares: exercício físico, nutrição e saúde mental.
“Há 10 anos eu via a Move Hiit forma diferente, mas hoje vejo como um projeto de wellbeing. Mais wellbeing do que fitness. Acho que a Move Hiit acaba por ser um veículo para conseguirmos a tal longevidade que tanto procuramos, que é vivermos durante mais tempo, com mais qualidade, energia, saúde”, diz o fundador, realçando que isto só acontece equilibrando o treino físico, com nutrição e saúde mental.
Além disso, cada aluno tem os seus próprios objetivos em mente. Uns querem perder peso, outros ganhar massa muscular, outros procuram melhorar a sua saúde e há ainda os que podem apenas precisar de uma pausa do dia-a-dia. Conciliar todos os pilares mencionados é a forma que a empresa encontra de dar resposta a todos eles.
“Os clientes entram primeiro em contato connosco e nós fazemos sempre uma análise do que a pessoa procura e os seus problemas. E depois, obviamente, reencaminhamos essa pessoa para o melhor caminho possível”, diz.

Olhando para o futuro, não há qualquer sinal de que a tendência vá mudar, seja em relação às comunidades online ou aos treinos ao ar livre. O que coloca a Move Hiit numa posição bastante positiva, numa altura em que a faturação é superior aos 300 mil euros por ano.
“Acho que o ramo do fitness está a crescer, cada vez vemos mais running clubs, mais grupos de treinos outdoor. Acho que a malta está cada vez a afastar-se dos ginásios convencionais, já está tudo farto das máquinas de musculação, daquele ambiente pesado dos ginásios, e estão cada vez mais à procura destas atividades em comunidade”, garante.
A grande aposta neste momento passa pela área da nutrição e a forma como estão a dar resposta a estas tendências passa por uma série online (F*cking Delicious) e um ebook de receitas, disponível no final de junho deste ano. Além disso, a expansão internacional está nos planos da empresa.
“Eu penso na expansão internacional, acho que o próximo passo é começar a fazer edições em inglês e começar a ir buscar um público diferente. Eu sei que há muitas pessoas estrangeiras a ver as minhas receitas com a tradução feita por inteligência artificial”, conta.
Da parte do público, é importante que exista um cuidado em particular com estes temas nas redes sociais. A Move Hiit conta com profissionais das áreas do treino físico, nutrição e saúde mental, e por isso tem forma de sustentar a informação passada, mas a verdade é que nem todas as páginas são iguais. “Há muita desinformação. É preciso filtrar muito bem quem é que estamos a ver, que conteúdo é que está a ser publicado, é preciso ter muito cuidado”, conclui.
(Artigo publicado na edição de junho/julho 2026 da Forbes Portugal)





