A escritora chilena Isabel Allende, uma das autoras mais lidas em todo o mundo e publicada em Portugal pela Porto Editora, venceu o Prémio Planeta 2026 com “La hora antes del alba”, romance que dá continuidade a “A Casa dos Espíritos”, a obra que a projetou internacionalmente em 1982.
O anúncio foi feito esta quinta-feira, 15 de outubro, numa cerimónia realizada em Barcelona, mais concretamente na Fira de Barcelona, em Montjuïc da Fira de Barcelona, presidida pelos reis de Espanha. O galardão, que este ano celebra a sua 75ª edição, tem um valor de um milhão de euros.
Quarenta e quatro anos depois da publicação do seu primeiro romance, Isabel Allende regressa à história da família Trueba para recuperar a personagem de Alba, neta de Clara, cuja vida ficou marcada pela violência da ditadura chilena. A nova obra acompanha o percurso da protagonista depois dos acontecimentos que marcaram o desfecho de “A Casa dos Espíritos”, procurando dar resposta a uma pergunta que, segundo a própria escritora, os leitores lhe fazem há décadas: o que aconteceu a Alba? A autora revelou que este romance encerra o universo literário da obra que deu início à sua carreira.
Criado em 1952 pela editora Planeta, o Prémio Planeta é uma das mais importantes distinções literárias do espaço de língua espanhola.
O anúncio foi recebido com emoção pela escritora, que, no discurso de agradecimento, confessou não esperar a distinção e destacou o significado de receber aquele que considera ser o mais importante prémio da língua espanhola. Allende revelou também que nunca se tinha apresentado a um concurso literário, por receio de ficar entre os últimos classificados, e que decidiu correr o risco numa fase mais tardia da vida.
“Nesta idade, há muito pouco a perder, na verdade”, afirmou, numa intervenção em que cruzou a história pessoal com as preocupações políticas que estão na origem do novo romance.
A distinção coincide com o 75º aniversário do Prémio Planeta e com um momento simbólico para a autora, que publicou “A Casa dos Espíritos” em 1982. Desde então, explicou de novo, tem recebido inúmeras mensagens de leitores interessados em saber o que aconteceu a Alba depois da última página. A pergunta acompanhou-a durante décadas, até que a história encontrou o momento certo para regressar.
Uma história sobre a ditadura e a resistência
No centro de “La hora antes del alba” está Alba, a neta de Esteban Trueba, que, no final de “A Casa dos Espíritos”, escreve a história da sua família depois de ter sido presa, torturada e violada pela ditadura. Apesar da violência a que é submetida, a personagem consegue preservar a dignidade e a força interior.
A nova obra dá continuidade ao percurso de Alba durante os anos de terror, retratando uma mulher fortalecida pela maternidade, pelo amor e pela presença silenciosa dos espíritos do passado.
Para Allende, o romance “La hora antes del alba” representa também o encerramento do universo complexo de personagens que construiu em “A Casa dos Espíritos”.
A decisão de regressar a esta história não é, contudo, apenas literária. No discurso de aceitação, a escritora relacionou o tema do livro com o contexto político internacional e com o que considera ser uma crescente ameaça às democracias.
“Quando vejo tantas democracias ameaçadas pelo autoritarismo, pelo nacionalismo extremo e até pelo fascismo, volto a sentir o medo que me obrigou a sair do meu país depois do golpe militar de 1973”, afirmou.
Allende abandonou o Chile na sequência do golpe de Estado liderado por Augusto Pinochet, que derrubou o Governo de Salvador Allende. A experiência do exílio e a memória da ditadura são elementos centrais da sua obra, marcada pela relação entre a história familiar, a violência política e a resistência individual.
A escritora explicou que as histórias começam muitas vezes por germinar de forma inesperada, até que o tema se torna impossível de ignorar. “Cada história é uma semente”, disse, descrevendo o processo criativo como algo que começa por crescer dentro de si e acaba por exigir ser escrito.
A promessa de luz depois da noite
O título do romance, “La hora antes del alba”, evoca o momento mais escuro da noite, quando já se começa a adivinhar a chegada do amanhecer. A imagem sintetiza o tom da narrativa: uma história que decorre na escuridão da ditadura, mas que encontra no amor e na solidariedade uma possibilidade de resistência.
A autora concorreu ao prémio sob o pseudónimo Luz Ventura, escolhido como homenagem às mulheres luminosas que povoam “A Casa dos Espíritos”: Nívea, Clara, Blanca, Alba e Aurora. O apelido Ventura significa, explicou, “afortunada e abençoada”.
“Esta é uma história que decorre na noite escura da ditadura, mas iluminada pelo amor e abençoada pela solidariedade”, resumiu Allende.
A imagem dos espíritos, central na obra que deu fama internacional a Allende, mantém-se igualmente presente no novo livro. A escritora referiu-se às figuras do seu universo literário como presenças que habitam a sua casa e atravessam os seus livros, confessando acreditar que a acompanharão até ao fim da vida.
Papel da literatura para a convivência democrática, salienta Felipe VI
Na cerimónia de anúncio do vencedor, Felipe VI discursou, destacando o poder da literatura para aproximar as pessoas a realidades distintas e ajudar a compreender melhor os outros. O rei espanhol frisou ainda a capacidade de a literatura de levar o leitor além de sua própria experiência e de as obras literárias oferecerem perspetivas diferentes que, reunidas, permitem observar o percurso de um país e conhecer as preocupações de outras gerações. Para Felipe VI, a possibilidade de a pessoa se conhecer melhor e de compreender os outros através dos livros como uma das grandes contribuições da literatura para a convivência democrática.
Ligação a Portugal
Relativamente a Isabel Allende, a obra da escritora tem uma longa ligação aos leitores portugueses através da Porto Editora, que publica os seus títulos mais emblemáticos, como “A Casa dos Espíritos”, “Paula e Violeta”.
Nos últimos anos, a editora tem continuado a acompanhar o percurso literário da escritora, com a publicação de “O Vento Conhece o Meu Nome” e “O Meu Nome É Emilia del Valle”, a que se juntou, em junho deste ano, “A Palavra Mágica – Uma Vida Escrita”, uma obra de carácter autobiográfico na qual Isabel Allende partilha a sua relação com a escrita e as experiências que marcaram a sua vida.





