“Portugal é um destino cada vez mais interessante para quem coleciona arte”

Carola Wiese é especialista em arte e colecionismo e faz parte da equipa da UBS na área de Art Advisory. Esteve em Portugal por ocasião do Art Summer Show, que aconteceu este verão na Comporta. Trabalha diretamente com colecionadores e famílias, acompanhando temas como a construção e gestão de coleções, sucessão e legado. Carlona Wiese…
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Carola Wiese é Senior Advisor na UBS, na área de Family Advisory, Art & Collecting. Acompanha famílias na construção das suas coleções de arte, que considera que funcionam como um incentivo à filantropia cultural, reunindo familiares em torno de iniciativas comuns.
Arte Negócios

Carola Wiese é especialista em arte e colecionismo e faz parte da equipa da UBS na área de Art Advisory. Esteve em Portugal por ocasião do Art Summer Show, que aconteceu este verão na Comporta. Trabalha diretamente com colecionadores e famílias, acompanhando temas como a construção e gestão de coleções, sucessão e legado. Carlona Wiese costuma também estar envolvida com a Art Basel e com a análise das tendências do mercado de arte, incluindo o crescente peso das novas gerações e das mulheres enquanto colecionadoras.

A Forbes Portugal entrevistou esta responsável, que nasceu na Alemanha e que se confessa fascinada por arte e criatividade desde cedo, tendo, por isso, seguido o curso de História da Arte. Está na UBS como Senior Advisor desde 2023 e trabalha com clientes na Europa, Ásia e América Latina, ajudando-os a gerir as suas coleções de arte. E alerta: “atenção que não digo aos clientes o que devem comprar. O meu papel é ajudá-los a clarificar os seus objetivos, alargar perspetivas e tomar decisões informadas”.

 

Sei que seguiu uma carreira na área da arte por influência familiar. Pode contar-nos um pouco sobre essa influência e como acabou por estudar História da Arte?

Cresci em Munique e a pessoa que mais me influenciou foi a minha mãe. Tinha uma sensibilidade natural para a arte e visitava regularmente galerias e feiras de arte locais, levando-me muitas vezes consigo. Rodeava-se de artistas e manteve relações de amizade próximas com muitos deles ao longo dos anos. Essas experiências marcaram-me profundamente.

“Encaramos a arte como uma paixão e não como uma classe de ativos”

Em criança, fascinavam-me a criatividade, as ideias e as diferentes perspetivas que a arte e os artistas proporcionavam. Olhando para trás, diria que foi a minha mãe, através das suas amizades com artistas, quem despertou em mim uma curiosidade que acabaria por se transformar numa profissão. Desde cedo soube que queria estudar História da Arte, porque me interessava não só pela dimensão estética das obras, mas também pelo seu significado cultural e histórico. Essa paixão tem orientado todo o meu percurso profissional.

 

Em termos profissionais, como chegou ao cargo de consultora de arte no UBS? Qual foi o seu percurso até aqui?

A minha carreira sempre combinou um profundo interesse pela arte com o aconselhamento a colecionadores e famílias. Depois de estudar História da Arte na Universidade de Munique e de passar algum tempo em Veneza durante os estudos, entrei no mundo profissional da arte e fui assumindo, progressivamente, funções de consultoria centradas no colecionismo e na gestão de coleções.

Trabalhei pela primeira vez na área de consultoria de arte do UBS, entre 2005 e 2008, e, posteriormente, passei vários anos a liderar serviços de arte para family offices, aconselhando famílias internacionais na criação, gestão e transmissão das suas coleções. Em 2023, regressei ao UBS como Senior Advisor na área de Family Advisory, Art & Collecting. Atualmente, trabalho com clientes na Europa, Ásia e América Latina, ajudando-os a compreender e gerir as dimensões culturais, estratégicas e familiares associadas ao colecionismo.

 

Em que consiste exatamente o seu trabalho? O que faz enquanto consultora de arte? Qual é a sua principal função?

A minha função é ajudar colecionadores e famílias a criar, gerir e preservar coleções com significado. Isto pode passar pela definição de uma estratégia de colecionismo, pelo aconselhamento sobre modelos de governação e estruturas de gestão, pelo apoio ao planeamento sucessório e pela reflexão sobre o legado das coleções a longo prazo.

“O colecionismo de arte é, muitas vezes, uma atividade profundamente pessoal”

Importa sublinhar que não digo aos clientes o que devem comprar. O meu papel é ajudá-los a clarificar os seus objetivos, alargar perspetivas e tomar decisões informadas. O colecionismo de arte é, muitas vezes, uma atividade profundamente pessoal, pelo que procuro combinar conhecimento especializado com uma escuta atenta e um aconselhamento objetivo, alinhado com a visão de cada colecionador. No UBS, encaramos a arte como uma paixão e não como uma classe de ativos, pelo que não prestamos aconselhamento de investimento em arte.

 

Como ajuda os colecionadores a encontrar as melhores peças para as suas coleções? De que forma apoia as famílias na construção das suas coleções?

Cada coleção deve refletir a personalidade, os interesses e os valores do seu proprietário. O meu primeiro passo é sempre compreender o que motiva o colecionador e quais são os seus objetivos a longo prazo. A história familiar, o contexto cultural, os interesses filantrópicos ou as experiências pessoais influenciam frequentemente as decisões de aquisição. Depois de estabelecidas essas bases, ajudo os clientes a identificar temas, artistas e áreas que estejam alinhados com a sua visão estratégica.

O colecionismo não existe isoladamente das transformações sociais e geracionais. Pelo contrário, reflete-as de várias formas. Embora continue a ser uma expressão profundamente pessoal de gosto e paixão, é cada vez mais influenciado pelo diálogo entre gerações e pela tomada de decisões partilhada.

No UBS, através das nossas equipas de Family Advisory e Art Advisory, trabalhamos em estreita colaboração com clientes de todo o mundo, ajudando-os a construir, gerir e, posteriormente, transmitir as suas coleções às gerações seguintes. Pela minha experiência, as coleções tornam-se frequentemente um ponto de partida para conversas importantes no seio das famílias, aproximando diferentes gerações em torno de interesses, experiências e ambições comuns.

Cada coleção deve refletir a personalidade, os interesses e os valores do seu proprietário.

O que observamos repetidamente é que as coleções se tornam uma forma de as famílias explorarem questões relacionadas com a identidade, os valores e a continuidade. As conversas sobre obras de arte e objetos de coleção conduzem frequentemente a reflexões mais abrangentes sobre a responsabilidade de preservar o património, a sucessão e o legado familiar. Nesse sentido, uma coleção é muitas vezes muito mais do que um conjunto de objetos. Pode tornar-se um reflexo da história de uma família e uma forma de estabelecer uma ligação entre o passado, o presente e o futuro. Cada vez mais, as coleções funcionam também como um incentivo à filantropia cultural, reunindo familiares em torno de iniciativas comuns e transformando-se num projeto familiar partilhado que vai além da própria coleção.

 

O que considera mais importante: o potencial de valorização das peças ou a forma como se integram na coleção e contribuem para a sua beleza enquanto conjunto?

Para mim, o ponto de partida deve ser sempre a paixão e a convicção. Naturalmente, os colecionadores devem conhecer o mercado e ter em consideração a preservação do valor das obras, mas as coleções mais sólidas são, geralmente, aquelas que se constroem em torno de uma visão clara, da curiosidade intelectual e de um interesse genuíno pelos artistas e pelas suas ideias.

A valorização financeira pode surgir como consequência, mas não deve ser a principal motivação. Curiosamente, os colecionadores mais jovens estão a entrar no mercado com uma confiança e convicção notáveis. Os dados mais recentes do Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026 mostram que os colecionadores da Geração Z estão entre os compradores mais ativos e revelam uma particular disponibilidade para apoiar artistas que descobriram recentemente. Essa abertura a novas ideias é, muitas vezes, o que permite construir coleções mais distintas e com maior significado.

 

Como descreveria a sua abordagem e a relação que estabelece com potenciais clientes?

Vejo esta relação como uma parceria e uma experiência de aprendizagem mútua. Cada colecionador traz consigo experiências, conhecimentos e perspetivas únicas. O meu papel é ouvir atentamente e explorar ideias em conjunto, de forma a aperfeiçoar a abordagem estratégica de cada colecionador. A confiança, a discrição e o compromisso a longo prazo são fundamentais nesta relação. Costumo dizer que o colecionismo é um percurso e não um destino. As relações de consultoria mais gratificantes são aquelas que evoluem ao longo de muitos anos, frequentemente acompanhando várias gerações de uma mesma família.

 

Como vê a evolução da arte produzida por mulheres e, paralelamente, o crescente interesse das mulheres enquanto colecionadoras e investidoras?

O crescente reconhecimento das mulheres artistas é uma das evoluções mais positivas no mundo da arte. Ao longo da última década, museus, galerias, colecionadores e instituições têm procurado reavaliar as narrativas históricas e dar maior visibilidade a artistas cujo contributo foi frequentemente ignorado. Embora ainda haja progressos a fazer, estamos a assistir ao desenvolvimento de um ecossistema artístico mais equilibrado e inclusivo. Ao mesmo tempo, as mulheres colecionadoras desempenham um papel cada vez mais influente na evolução do mercado. As conclusões do mais recente Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026, elaborado pela Arts Economics, mostram que as mulheres são colecionadoras muito ativas e apresentam gostos particularmente diversificados.

As mulheres revelam também uma maior abertura à descoberta e ao apoio de novos artistas, o que pode ter um impacto significativo nas suas carreiras e no panorama cultural em geral

As taxas de participação feminina foram superiores em todos os segmentos das belas-artes, com um envolvimento especialmente significativo na fotografia, nas gravuras e nas obras sobre papel. As mulheres também demonstraram uma maior propensão do que os homens para colecionar arte digital e tendem a construir coleções que abrangem uma maior diversidade de meios artísticos. O que considero mais interessante é que as mulheres abordam frequentemente o colecionismo numa perspetiva de longo prazo, combinando paixão, curiosidade intelectual e preocupação com o legado. Revelam também uma maior abertura à descoberta e ao apoio de novos artistas, o que pode ter um impacto significativo nas suas carreiras e no panorama cultural em geral.

 

Que balanço faz do papel das mulheres no mercado da arte nos últimos anos? As mulheres têm maior ou menor tendência do que os homens para criar as suas próprias coleções?

As mulheres têm vindo a assumir uma influência crescente em todos os segmentos do mercado da arte, seja enquanto artistas, colecionadoras, filantropas, diretoras de museus, curadoras, consultoras ou empresárias. O seu contributo está a transformar não só aquilo que é colecionado, mas também a forma como as coleções são construídas, preservadas e partilhadas.

Os dados mostram que as mulheres são colecionadoras muito ativas por iniciativa própria. De acordo com o mais recente Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026, as mulheres apresentaram uma maior probabilidade do que os homens de adquirir obras em feiras de arte, de comprar trabalhos de artistas recentemente descobertos e de ter herdado obras de arte, mantendo-as nas suas coleções.

Quando as mulheres são as principais colecionadoras de uma família, são frequentemente elas que introduzem os filhos ao mundo do colecionismo e os envolvem ativamente no processo de tomada de decisão.

Uma das conclusões mais interessantes é a importância que a influência familiar continua a ter. As mulheres revelaram uma probabilidade ligeiramente superior à dos homens de apontar a família como motivação inicial para começar a colecionar. Esta conclusão está em linha com aquilo que observamos na prática: o colecionismo está frequentemente ligado a histórias pessoais, percursos familiares e relações entre gerações.

Mais do que questionar se as mulheres colecionam mais ou menos do que os homens, considero mais interessante reconhecer que estão a contribuir cada vez mais para definir o futuro do colecionismo, tanto através das suas aquisições como do papel que desempenham na preservação e transmissão do património cultural às gerações futuras. Quando as mulheres são as principais colecionadoras de uma família, são frequentemente elas que introduzem os filhos ao mundo do colecionismo e os envolvem ativamente no processo de tomada de decisão. Desta forma, contribuem não só para moldar uma coleção, mas também para desenvolver a relação das gerações seguintes com a arte e a cultura. As coleções tornam-se, muitas vezes, um ponto de partida para conversas familiares importantes sobre identidade, valores, responsabilidade na preservação do património e legado.

Como vê o mercado da arte em Portugal, especialmente ao nível do investimento e do colecionismo? Considera que é um mercado dinâmico?

Portugal tem desenvolvido, nos últimos anos, um ecossistema cultural muito dinâmico. O país beneficia de instituições sólidas, de um público cada vez mais internacional e de uma comunidade crescente de colecionadores, artistas, galerias e empreendedores culturais. Têm aberto numerosas galerias em Lisboa, no Porto e na Comporta, desde nomes internacionais já estabelecidos até galerias regionais com uma forte ligação ao contexto local.

A combinação entre património cultural, criatividade e ligação ao mundo torna Portugal um destino cada vez mais interessante para quem coleciona arte.

O que considero particularmente interessante é a combinação entre a identidade local e a abertura internacional. Portugal atrai colecionadores, residentes e visitantes de todo o mundo, mantendo, ao mesmo tempo, uma identidade cultural própria. Esta conjugação cria um ecossistema que incentiva tanto o colecionismo como o diálogo, e acredito que continuará a ganhar dinamismo. Existe também um interesse crescente pela arte contemporânea e pela criação de plataformas que aproximem artistas e instituições portuguesas de públicos internacionais. A solidez das infraestruturas culturais portuguesas, aliada à crescente projeção internacional do país, tem contribuído para criar um ambiente dinâmico e cada vez mais atrativo para os colecionadores. A combinação entre património cultural, criatividade e ligação ao mundo torna Portugal um destino cada vez mais interessante para quem coleciona arte.

 

Participou recentemente no Art Summer Show, na Comporta. Que balanço faz da sua participação e do evento? O que nos pode contar sobre a exposição e as peças que encontrou? Que galerias ou artistas despertaram o seu interesse?

O Art Summer Show proporcionou uma excelente oportunidade para contactar com colecionadores, artistas e entusiastas de arte num contexto muito especial. Apreciei particularmente a colaboração entre uma galeria mais jovem, sediada em Lisboa, e uma galeria internacional, que apresentaram obras em conjunto numa exposição coletiva. Esta parceria refletiu a abertura e o dinamismo que caracterizam atualmente o mundo da arte.

Eventos como este desempenham um papel importante na aproximação entre perspetivas locais e internacionais, criando oportunidades para os colecionadores descobrirem artistas num ambiente mais pessoal e acessível. De uma forma mais abrangente, a exposição refletiu a crescente vitalidade do panorama artístico português e reforçou a afirmação de Portugal como um destino cada vez mais relevante para o intercâmbio cultural e o colecionismo.

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