A África do Sul acolheu, recentemente, a organização do Mundial de Pentatlo Moderno na vertente de veteranos, com Portugal em grande destaque. Nuno Delicado, 50 anos, trouxe a medalha de prata (vice-campeão mundial) na prova individual (categoria 50-59 anos) e conquistou o título mundial por equipas (na categoria 30-59 anos), ao lado de João Subtil, 54 anos, e Alexandre Fernandes, 55 anos, no “Masters World Championships”, disputado na Cidade do Cabo. Para o atleta, natural de Lisboa, cujo percurso no pentatlo começou em 1993, estas são as melhores classificações da sua carreira.
Mas o que leva alguém a continuar a treinar, a competir internacionalmente e a procurar novos desafios depois de várias décadas ligadas ao desporto? A Forbes Portugal falou com Nuno Delicado sobre a motivação, a disciplina e a gestão do tempo necessárias para conciliar a competição com a vida profissional e pessoal.
Numa modalidade, como o pentatlo moderno, que exige competências tão diferentes como a esgrima, a natação, o tiro e a corrida, o atleta partilha também as lições que transporta para fora da competição e os objetivos que mantém para os próximos anos.

Conquistou recentemente o título mundial de pentatlo moderno por equipas e a medalha de prata individual, na categoria dos 50 aos 59 anos. O que representa este resultado na sua carreira desportiva e a nível pessoal?
Estes são, sem dúvida, os melhores resultados da minha carreira desportiva, iniciada no pentatlo em 1993, há 33 anos. Fui campeão nacional em vários escalões: sub-19, duas vezes em juniores e uma vez em seniores, em 1998. Mas todos esses títulos são nacionais e foram conquistados no milénio passado! Tive bons resultados nos Europeus de juniores de 1996 e 1997 (18° e 15°), mas só no Europeu de Veteranos do ano passado e nos Mundiais deste ano consegui chegar ao pódio e conquistar um título mundial.
É importante pôr estes resultados em perspetiva. Hoje invisto muito menos no desporto e a competição é diferente daquela que vivíamos como juniores e seniores, no auge do desempenho desportivo. Isso não retira mérito: qualquer atleta que competia há 30 anos pode competir hoje.
Pessoalmente, é uma enorme satisfação, claro, mas o desporto ocupa agora uma parte relativamente pequena da minha vida, ao lado de outros projetos.

Numa altura da vida em que muitos já deixaram a competição para trás, continua a treinar e a competir a nível internacional. O que o mantém motivado e com vontade de continuar a superar-se?
Antes de mais, o desporto é parte integrante do meu quotidiano, tal como dormir ou comer. É assim há mais de 30 anos. Faço desporto porque me divirto, porque me sinto bem e acredito que me ajuda a preservar a saúde, a capacidade cardiovascular e muscular e a forma física em geral – e também a saúde mental.
Mantenho um bom espírito competitivo: gosto de me superar, de melhorar e de aprender modalidades novas. Ter competições no horizonte ajuda-me a manter essa motivação. Os Mundiais de Veteranos eram o grande objetivo deste ano, mas fui participando noutras provas ao longo dos meses. Essas metas intermédias ajudaram-me a preparar o campeonato e a manter a consistência dos treinos.

“Ter competições no horizonte ajuda-me a manter essa motivação”
O pentatlo moderno exige uma preparação particularmente abrangente, envolvendo diferentes disciplinas e competências. Quais são as modalidades que inclui?
O pentatlo é provavelmente a modalidade mais complexa do programa olímpico. Atualmente inclui esgrima, natação, obstáculos (semelhantes aos que vemos nos programas Ninja Warrior) e laser run, que combina corrida com tiro de pistola laser.

Nas competições de Veteranos também se mantém o hipismo: uma prova de saltos de obstáculos a cavalo. Por isso, nestes Mundiais acabámos por competir num “sextatlo”: hipismo, obstáculos, natação, esgrima, corrida e tiro.
Estas disciplinas exigem preparação e competências muito diferentes. Felizmente, ainda aproveito muito do que aprendi há 30 anos, sobretudo na esgrima, no tiro e no hipismo, quando o pentatlo ocupava uma parte central da minha vida. Essa experiência permite-me hoje competir com muito menos horas de treino.

Como consegue conciliar o treino com as restantes responsabilidades da vida pessoal e profissional?
A gestão do tempo e das prioridades é talvez o maior desafio de um pentatleta. Já o era quando fazia alta competição e estudava na universidade: chegava a treinar cerca de 30 horas por semana, distribuídas por uns 20 treinos, e ainda participava em associações juvenis.
Hoje dou prioridade às responsabilidades profissionais e reservo espaço para a vida pessoal. Não tenho filhos e tenho uma mulher muito compreensiva, que sabe que o desporto é importante para mim e por vezes desapareço para treinar ou competir!

Acima de tudo, procuro treinar de forma muito focada e eficiente, aplicando o princípio de que 80% dos resultados virão de 20% do esforço. Para estes Mundiais, apostei nos obstáculos: passei de 1 minuto e 3 segundos no Europeu do ano passado para 41 segundos, reduzindo o tempo em cerca de um terço. Essa melhoria foi decisiva para a prata individual. Também investi em melhorar o tiro, para conseguir acertar no alvo depois de correr intensamente.

Por outro lado, dei menos prioridade à esgrima, que exige muito tempo e praticamente não treinei, aproveitando a experiência antiga. Não treinei hipismo: já não montava há cerca de três anos e antes disso tinha passado uns anos sem montar. Na natação procurei manter a forma, mas sabia que teria menos margem de progressão. Foram escolhas conscientes: investir onde podia ganhar mais pontos.
“Procuro treinar de forma muito focada e eficiente, aplicando o princípio de que 80% dos resultados virão de 20% do esforço”.
A motivação para treinar nem sempre será a mesma, e haverá certamente dias mais difíceis do que outros. Como mantém a disciplina, o foco e a consistência ao longo do tempo?
A motivação tem certamente altos e baixos, por vezes devido a lesões. O desporto nem sempre traz apenas saúde: também há excessos ou má sorte que obrigam ouvir o corpo e parar ou abrandar.

Uma ferramenta muito simples ajuda-me a manter a disciplina: uma folha de papel (sou um pouco antiquado!) onde registo diariamente o que treinei. Ao fim da semana somo os minutos de corrida, os metros nadados e os treinos de tiro e das outras disciplinas. No dia a dia, concentro-me sobretudo na corrida, natação e tiro, com treinos ocasionais de obstáculos. Esse registo permite-me perceber se estou a ser consistente.

Ter um calendário de competições também ajuda muito. Este ano, a Federação Portuguesa de Pentatlo Moderno organizou várias provas entre janeiro e junho, penso que quatro, que foram muito úteis na preparação para os Mundiais.
E, tendo competido por equipas, há algo que façam, como equipa, para se ajudarem mutuamente a manter a motivação?
O título mundial por equipas resulta da soma de três resultados individuais, por isso o pentatlo continua a ser um desporto fundamentalmente individual. Também competimos em estafetas, nas quais conquistámos uma medalha de prata e outra de bronze.

O que mais nos une é uma amizade de décadas. Conheço o Alex desde 1993, quando comecei no pentatlo. Foi meu colega de treinos e treinador, e durante uns 25 anos fui atleta do Clube Pentajovem, que ele fundou. Também conheço o João Subtil há décadas. Hoje somos todos atletas da Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar. O João é grande parceiro de treinos de obstáculos e competições ao longo do ano. Muitas vezes desafiamo-nos mutuamente para ir treinar quando não é fácil encaixar mais uma sessão na agenda. A amizade, o convívio e a alegria de estarmos juntos criam um espírito de equipa muito positivo.
Com a experiência, muda também a forma de encarar a competição? Sente que hoje gere melhor a pressão, os erros e os resultados do que quando era mais novo?
Sem dúvida. Hoje giro muito melhor a dimensão emocional da competição. Por um lado, invisto menos tempo no treino e tenho expectativas mais moderadas. Por outro, a maturidade ajuda a perceber que o que acontece hoje não nos define para a vida: amanhã haverá novas oportunidades, e um insucesso não invalida o que já fizemos nem o que vamos fazer no futuro.

Nestes Mundiais, por exemplo, a prova individual de hipismo correu-me mal. Não estive em sintonia com o cavalo, que talvez fosse um pouco mais difícil que outros. O hipismo foi a primeira disciplina e eu sabia que já não tinha hipóteses de chegar ao pódio nessa variante. Foi triste, claro. Mas era apenas o primeiro dos 13 eventos em que competi. Bola para a frente! O que está feito, está feito. Concentrei-me na prova seguinte, e depois na seguinte, procurando dar o meu melhor em cada uma.
“A maturidade ajuda a perceber que o que acontece hoje não nos define para a vida”
O pentatlo moderno combina diferentes modalidades e exige capacidade de adaptação, concentração e resistência física e mental. Que lições desta prática considera mais úteis para a vida fora do desporto?
O pentatlo moderno é uma ótima escola de vida. Deu-me disciplina, concentração, capacidade de definir prioridades e gerir o tempo, e ensinou-me a focar no momento presente. Nestes Mundiais procurei viver cada competição sem ficar preso ao que tinha acontecido antes ou preocupado com o que viria depois. Na esgrima, por exemplo, é toque a toque, adversário a adversário: naquele minuto, toda a atenção está ali.

Fora do desporto, considero-me também um pentatleta. Gosto de projetos variados e, por vezes, é difícil explicar o que faço profissionalmente porque também envolve várias “disciplinas”. O pentatlo ajuda-me a passar de uma atividade para outra, mantendo o foco em cada uma e gerindo desafios diferentes.
Um dos projetos em que estou envolvido é o Sport for Life, um movimento internacional de jovens para jovens, que promove o desenvolvimento humano através do desporto. Formamos jovens facilitadores em comunidades com poucos recursos, sobretudo em Timor-Leste, mas também em sete países africanos. Estes jovens aprendem competências de gestão e liderança e, por sua vez, ajudam outros jovens a organizar atividades desportivas para as crianças e jovens das suas comunidades, utilizando os escassos recursos que têm à sua volta. É uma forma de partilhar com outros as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento que o desporto me proporcionou ao longo da vida.
“Um dos projetos em que estou envolvido é o Sport for Life, um movimento internacional de jovens para jovens, que promove o desenvolvimento humano através do desporto”.

Até que ponto a prática desportiva regular é importante para um envelhecimento ativo e para preservar a qualidade de vida? Acha que ainda existe a ideia de que, a partir de determinada idade, já não faz sentido competir?
Vivemos cada vez mais anos. O essencial é vivê-los com qualidade. A prática desportiva regular pode ajudar-nos a preservar durante mais tempo a autonomia, as capacidades físicas e mentais e a saúde, mesmo sabendo que algumas capacidades vão diminuindo com a idade. Gostaria de chegar aos 80, 90 ou 100 anos ainda capaz de me mexer bem, pegar em coisas e levar uma vida tão autónoma quanto possível.
Pelo menos nos meios em que me movo, e atualmente em Portugal, vejo uma mudança cultural positiva: as pessoas praticam desporto até mais tarde e muitas começam tarde. Espero que essa tendência nos ajude a envelhecer de forma mais saudável. E competir pode continuar a fazer sentido, desde que seja algo que nos dê prazer e nos discipline a manter-nos bem.
“Nos meios em que me movo, e atualmente em Portugal, vejo uma mudança cultural positiva: as pessoas praticam desporto até mais tarde e muitas começam tarde”.
A conquista do título mundial por equipas mostra também a importância do trabalho coletivo. Como se constrói uma equipa competitiva numa modalidade em que a preparação individual tem tanto peso?
Entre os três campeões mundiais temos vidas, famílias e responsabilidades profissionais diferentes. Cada um encaixa os treinos onde pode e procura rentabilizar o tempo. Eu treino maioritariamente sozinho e perto de casa, para evitar deslocações.

Não fizemos uma preparação coletiva específica. Tivemos alguns treinos conjuntos, mas passámos a maior parte do tempo a treinar separadamente e a encontrarmo-nos em provas. O que sustenta esta equipa são as décadas de amizade e companheirismo. É essa relação de longo prazo que nos ajuda a competir juntos e a apoiar-nos uns aos outros.
“O que sustenta esta equipa são as décadas de amizade e companheirismo”.
A medalha de prata individual demonstra que continua a ter margem para evoluir e ambição competitiva. Que objetivos mantém para os próximos anos? Há outras conquistas que gostaria de alcançar?
Estas medalhas trazem alguma responsabilidade, embora não me sinta obrigado a conquistar nada. Depois de ser vice-campeão mundial individual, o objetivo seguinte é naturalmente ser campeão do mundo! E também da Europa. Não me parece uma ambição irrealista: nestes Mundiais fiquei a apenas 14 segundos do título na prova final de corrida e tiro.

O pentatlo em Veteranos tem um sistema de handicaps que atribui pontos adicionais aos atletas mais velhos para compensar a perda de capacidades com a idade. É uma das poucas modalidades em que envelhecer pode trazer alguma vantagem competitiva! Diria que aos 50 anos, no escalão dos 50 aos 59, era maior o desafio de alcançar um título. Nos próximos anos irei beneficiar de um handicap maior.
Também vejo margem para melhorar, especialmente nos obstáculos e no tiro. Tenciono continuar a participar nos Europeus e Mundiais e lutar pelos títulos. Mas, talvez mais importante, quero continuar ativo, saudável, motivado e a divertir-me durante décadas. É uma inspiração ver atletas mais velhos em ação! Nos Mundiais competi com atletas de 70 e 78 anos. Espero estar cá nos 70, nos 80 anos, ativo, motivado, divertido, em boa forma, saudável.

“Depois de ser vice-campeão mundial individual, o objetivo seguinte é naturalmente ser campeão do mundo! E também da Europa. Não me parece uma ambição irrealista”.
Há algum próximo projeto já calendarizado em preparação?
O próximo grande objetivo deve ser o Europeu de Veteranos de pentatlo moderno de 2027, embora ainda não saiba data nem local. Assim que estiver marcado, organizarei a preparação em função dessa prova.
Mas também gosto de outras aventuras desportivas: caminhadas, trails longos, viagens de bicicleta. Tenho algumas ideias para 2027. Vou salpicando o calendário, evitando esforços longos nas vésperas das grandes competições de pentatlo. Mas não abdico de aventuras só porque não otimizam o meu desempenho competitivo. Acima de tudo, quero que o desporto continue a ser uma fonte de saúde e alegria.

Que conselho daria a alguém que, numa fase mais avançada da vida, gostaria de começar ou retomar a prática desportiva, mas sente que já vai tarde para estabelecer novos desafios?
Nunca é tarde. E o melhor dia para começar é hoje, não amanhã!
Tenho-me mantido ativo ao longo da vida, com altos e baixos, mas conheço muitos atletas que só começaram aos 40, 50 ou 60 anos – no pentatlo, no triatlo, nas corridas, nos obstáculos. Alguns amigos que não faziam desporto aos 18 ou 20 anos são hoje atletas muito melhores do que eu. Começaram mais tarde, mas começaram a sério.
E não é preciso começar “a sério”. Quem quiser pode estabelecer metas, superar-se e competir. E também podemos fazer desporto com tranquilidade, simplesmente para que o desporto seja uma fonte de saúde e alegria.
O importante é que nunca é tarde e o melhor dia para começar é hoje!





