Obama em Lisboa: “IA vai mudar a economia. Liderança continuará a ser humana”

Num diálogo com o empresário português Ricardo Parreira, o antigo Presidente dos Estados Unidos traçou um retrato dos desafios que marcarão a próxima década, da inteligência artificial à geopolítica, da liderança ao futuro da democracia. A principal conclusão da conversa foi clara: embora a tecnologia esteja a avançar a um ritmo sem precedentes, as competências…
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Perante uma MEO Arena esgotada para a sexta edição do Game Changers Forum, Barack Obama deixou em Lisboa uma reflexão que ultrapassou largamente a política norte-americana.
Líderes

Num diálogo com o empresário português Ricardo Parreira, o antigo Presidente dos Estados Unidos traçou um retrato dos desafios que marcarão a próxima década, da inteligência artificial à geopolítica, da liderança ao futuro da democracia. A principal conclusão da conversa foi clara: embora a tecnologia esteja a avançar a um ritmo sem precedentes, as competências que determinarão o sucesso das organizações e das sociedades continuarão a ser profundamente humanas.

Obama acredita que os próximos cinco a dez anos poderão trazer mais mudanças económicas do que a maioria das pessoas está preparada para compreender. Recordando o início da revolução digital, falou dos primeiros contatos com figuras como Mark Zuckerberg e Elon Musk, numa altura em que as empresas tecnológicas ainda estavam longe da influência que hoje exercem. A velocidade com que os smartphones se tornaram universais serve, na sua perspectiva, como exemplo da rapidez com que a inovação pode transformar a sociedade. Mas considera que a inteligência artificial terá um impacto ainda mais acelerado.

“A automação transformou as fábricas. A inteligência artificial vai transformar o trabalho do conhecimento.” Para Obama, profissões como a advocacia, a contabilidade, a medicina ou a programação verão uma parte significativa das suas funções ser executada por sistemas inteligentes capazes de processar informação e gerar respostas a uma velocidade impossível para qualquer ser humano.  O desafio passa agora por garantir que os benefícios dessa transformação não ficam concentrados em poucos atores económicos.

O valor das profissões que as máquinas não conseguem replicar

Paradoxalmente, quanto mais sofisticada se tornar a tecnologia, maior poderá ser o valor das capacidades exclusivamente humanas. Obama destacou áreas como a educação, a saúde e o cuidado social para ilustrar essa realidade. Um professor não transmite apenas informação. Um enfermeiro não executa apenas procedimentos. Ambos desempenham funções baseadas na confiança, na empatia e na capacidade de criar relações humanas “Um bom professor dá confiança a uma criança. Um enfermeiro transmite segurança a um doente.” Na sua visão, as economias terão de reavaliar a forma como valorizam estas profissões. Durante décadas, setores ligados ao cuidado e à educação foram frequentemente subvalorizados porque o seu impacto é difícil de medir em indicadores financeiros imediatos. No entanto, poderão revelar-se cada vez mais importantes à medida que a automação avança.

O julgamento humano continuará a ser decisivo

Um dos momentos mais relevantes da conversa surgiu quando Obama distinguiu inteligência de sabedoria. As máquinas podem superar os humanos em cálculo, análise de dados ou programação. Podem resolver problemas complexos e aprender a um ritmo exponencial. Mas continuam incapazes de tomar decisões que envolvem valores, princípios morais ou prioridades humanas. Foi nesse contexto que recordou um dos dilemas mais difíceis da sua presidência: a guerra na Síria. Perante o sofrimento da população síria, a pressão internacional, os limites do direito internacional e as restrições impostas pela Constituição norte-americana, não existia uma resposta perfeita. Existia apenas a necessidade de ponderar múltiplos fatores e assumir responsabilidades.

“Não se pode colocar esse tipo de decisão dentro de um algoritmo.” A mesma lógica aplica-se à utilização de armas nucleares. Obama defendeu que decisões dessa natureza nunca podem ser entregues a sistemas automatizados e devem permanecer sob controlo humano.  Para gestores e líderes empresariais, a mensagem é igualmente relevante. À medida que a inteligência artificial passa a executar tarefas técnicas, o verdadeiro valor da liderança reside cada vez mais na capacidade de interpretar contextos, avaliar riscos e tomar decisões em ambientes de incerteza.

Outro dos alertas deixados pelo antigo Presidente norte-americano centrou-se nos riscos associados ao desenvolvimento da IA. Obama reconheceu o enorme potencial da tecnologia, mas manifestou preocupação com a ausência de mecanismos de segurança adequados. Referiu cenários relacionados com ciberataques, infraestruturas críticas e até riscos biológicos decorrentes da utilização indevida de modelos avançados de inteligência artificial Na sua perspectiva, os Estados Unidos e a China, os dois países mais avançados nesta área, terão inevitavelmente de encontrar formas de cooperação regulatória. O problema, acrescentou, é que essa coordenação terá de acontecer num período marcado por desconfiança estratégica entre as duas potências.

Liderar num mundo mais rápido e mais fragmentado

Na parte final da conversa, Obama largou a discussão para a esfera política e social. Segundo defendeu, a combinação entre tecnologia, globalização e instabilidade económica está a criar sentimentos de insegurança que frequentemente alimentam nacionalismos, tribalismos e formas de polarização social. Sempre que as sociedades procuram afirmar-se contra outras, lembra, a História mostra que o resultado tende a ser conflito.

Foi neste contexto que apresentou aquilo que poderá ter sido a sua principal mensagem a noite. “O que precisamos são líderes que representem o seu povo e valorizem a sua cultura e a sua história, mas que reconheçam também que os outros povos têm esperanças e sonhos semelhantes aos nossos.” Para Obama, a liderança moderna exige simultaneamente identidade e abertura, interesse nacional e cooperação internacional.

A lição para os líderes empresariais

Num evento dedicado à transformação, inovação e liderança, a reflexão de Obama acabou por ir além da tecnologia. A inteligência artificial poderá redefinir indústrias inteiras. Poderá alterar mercados de trabalho, cadeias de valor e modelos económicos. Mas as organizações que prosperarem serão aquelas que conseguirem combinar tecnologia com visão, eficiência com propósito e inovação com responsabilidade. Numa era em que quase tudo poderá ser automatizado, a vantagem competitiva mais importante poderá continuar a ser a mais antiga de todas: a capacidade humana de fazer julgamentos difíceis, construir confiança e mobilizar pessoas em torno de uma visão comum.

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