My Cute Pooch: Mudar o rumo para manter a essência

Mara Ferreira, 39 anos, não é mulher de baixar os braços. Acredita que todos os sonhos valem a pena, e que tudo é possível, se acreditarmos verdadeiramente. Por isso, os últimos anos da sua vida profissional, mais dedicados ao empreendedorismo, têm sido uma luta constante. Mas não desanima, muito pelo contrário, já que o seu…
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Personalizável, vegan e sustentável. A marca de malas My Cute Pooch, que nasceu como homenagem ao bulldog francês de Mara Ferreira, centra-se nos valores que a empreendedora defende. No ano passado mudou o rumo do negócio para se focar no online e na essência da marca.
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Mara Ferreira, 39 anos, não é mulher de baixar os braços. Acredita que todos os sonhos valem a pena, e que tudo é possível, se acreditarmos verdadeiramente. Por isso, os últimos anos da sua vida profissional, mais dedicados ao empreendedorismo, têm sido uma luta constante. Mas não desanima, muito pelo contrário, já que o seu lema de vida está na partilha. “É a dar que se recebe”, defende.

Criadora da original marca de malas de senhora, My Cute Pooch, que nasceu em 2019, Mara Ferreira está a construir o seu legado a partir de Felgueiras. A ideia de dar este nome ao conceito que já germinava há algum tempo na cabeça da empreendedora surgiu como homenagem ao seu bulldog francês, o Pooch, que falecera pouco tempo antes. A semente foi plantada em 2016, numas férias com a família, tendo então decidido que queria lançar uma linha de malas irreverentes, versáteis e, sobretudo, que fossem aliadas aos valores que defende: ser vegan e sustentável. E, apesar das barreiras que encontrou, arregaçou as mangas e deu cor a este projeto. A My Cute Pooch é uma linha de bolsas produzidas em B-Light, um tipo de borracha premium, com aroma, e certificadas com selo PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) e personalizáveis com diversos acessórios. O modelo original, a Pooch, foi feito com base no rosto do bulldog francês, com orelhinhas e nariz de amovíveis, que facilmente podem ser trocados por outros, personalizando a peça.

“Os materiais que utilizo têm de cumprir muitos requisitos, o que foi difícil, mas depois de meter a ideia na cabeça, já não conseguia ficar quieta”, diz Mara Ferreira. 

Sonhadora e de coração generoso, a empreendedora diz ser uma pessoa muito humilde, que gosta de ajudar os outros. Inspira-se muitas vezes no mar para desenhar as suas coleções e também nas viagens que faz. Mara é a mais velha de três irmãos, filhos de António Ferreira, fundador da Bolflex, uma empresa de Felgueiras especializada em solas de borracha para a indústria do calçado, com cerca de 200 funcionários. A empreendedora recorda as origens modestas da família do pai, que tinha 11 irmãos: “O meu pai começou a trabalhar cedo na área das borrachas. Mas sempre teve o sonho de criar a sua empresa”. Fundada em 1991, era inicialmente uma indústria muito modesta, e Mara Ferreira, imbuída do mesmo espírito de entreajuda familiar, começou a trabalhar ainda estudante.  Aos 23 anos, Mara Ferreira decidiu fazer uma licenciatura de Gestão de Empresas, tendo completado depois uma pós-graduação em Recursos Humanos. “A empresa estava a crescer e não tínhamos ninguém nesta área. Mas eu sou muito inquieta, tal como meu pai, e também queria construir algo meu”, explica.

Mara sempre achou que, tendo a Bolflex a capacidade técnica que tinha, deveria diversificar para outros produtos, que não apenas componentes para calçado.  “Foi em Salou que surgiu esta ideia de criar uma marca de bolsas. Partilhei a ideia com o meu pai, que me apoiou. Mas tudo isto foi uma luta”, revela. Como tinha muito trabalho, e com um filho pequeno, todo o processo de viabilidade dos materiais foi muito moroso. “Os materiais que utilizo têm de cumprir muitos requisitos, mas depois de meter a ideia na cabeça, já não conseguia ficar quieta”, explica. A ideia era criar uma bolsa que tal como o seu pequeno amigo de quatro patas fosse uma companhia para a vida, pois, além de durável, poderia ser facilmente renovada com peças que a transformam numa versão nova. No fundo é uma espécie de “Pandora” das malas, já que é possível adquirir vários acessórios para complementar a bolsa.

Mara tinha um pequeno gabinete na fábrica do pai para desenvolver este projeto, mas as barreiras foram surgindo. Tudo teve de ser desenvolvido dentro de portas, usando a capacidade técnica das empresas do grupo, como a Rubberlink, que desenvolve a B-Light a partir dos resíduos da produção das solas. Este é um material nobre, flexível, com um toque macio e tem ainda um aroma específico desenvolvido para a marca. Todos os materiais foram testados em laboratório para comprovar que estavam a cumprir as normas de segurança e resistência. Finalmente, em abril de 2019, o primeiro modelo da My Cute Pooch viu a luz do dia. A apresentação foi feita num evento para o qual foram convidadas revistas e influencers, e o produto foi muito bem aceite. “As influencers adoraram, conseguiram personalizar logo as bolsas que lhe ofereci, e teve logo um grande impacto”, explica a empreendedora.  Ao mesmo tempo foi lançado o site da marca, através do qual são feitas, ainda hoje, as vendas.

O crescimento controlado do negócio

“Este é um negócio só meu, ainda que esteja ligado à empresa do meu pai, na qual continuo a trabalhar. Neste momento a My Cute Pooch tem apenas três funcionários a tempo inteiro, mas tem entre 30 e 40 pessoas a trabalhar de forma indireta”, explica, à Forbes Portugal, Mara Ferreira. A empreendedora faz toda a gestão da marca, desde a criação ao design, até à produção e ao marketing. Inicialmente estava só à venda no canal digital, mas, entretanto, várias lojas começaram a perguntar se poderia fornecê-las. “Mas eu não queria, não estava preparada para isso nem tinha tempo, mas acabei por ceder”, revela. Em pouco tempo Mara conseguiu, ter presença em 80 lojas multimarca, e ultrapassar o milhão de euros de faturação. Fez até um contrato com uma grande cadeia de lojas, com presença global, mas depressa percebeu que estava a perder a essência da marca. Crescer a qualquer preço não estava no seu dicionário. Percebeu então que mais valia dar um passo atrás e manter a rota inicial: a da exclusividade da marca, em que a fosse passada a mensagem correta, explicando o conceito. “Isto é o meu amor e estava a fugir do meu controlo. As lojas não estavam a explicar a marca como eu gostaria”, explica. Acabou por cancelar esse grande contrato e nunca mais vender para lojas físicas. É que nem sempre crescer é o melhor caminho.

“A marca precisa de cuidado, de proximidade, e eu estou a dar a cara pela My Cute Pooch neste momento, e está a resultar muito bem”, explica Mara Ferreira. 

A marca já tinha iniciado a sua internacionalização, mas como esta experiência das lojas físicas, que estavam também em Espanha e Itália, estava a deixar a gestora exausta. “Dar um passo atrás também faz parte do crescimento. É um processo de tentativa/erro, para testar o que é melhor para o negócio. Estou a levar a marca de uma maneira muito suave, porque não é apenas um trabalho, é uma paixão”, revela. Um passo atrás implica também perder algum negócio, que, no entanto, já está em recuperação. As vendas da My Cute Pooch ascendem a um preço médio de 140 euros – os modelos base começam nos 105 euros e vão até aos 140 euros, mas há ainda uma série de acessórios extra que podem ser comprados com a mala. “Neste momento estou só com o online e estou a fechar um acordo para vender para o Reino Unido, através de uma plataforma de e-commerce. Estamos até a desenvolver um website específico da My Cute Pooch nesse mercado”, revela a empreendedora. Mara Ferreira afirma também estar a firmar parcerias com algumas marcas, mas não revela ainda nomes.

Não se querendo comprometer com uma data, a empreendedora estima que a médio prazo, com as novas parcerias, ultrapasse os três milhões de euros de volume de negócios. “A marca precisa de cuidado, de proximidade, e eu estou a dar a cara pela My Cute Pooch neste momento, e está a resultar muito bem. Quando fiquei só com o online percebi que tinha de estar mais presente nas redes sociais, com vídeos que explicam a essência da marca. Além disso falo com as minhas clientes diariamente”, refere. Isto cria engagment com a marca e gera muito movimento. A marca também vende directamente no showroom em Felgueiras, junto Bolflex, e tem clientes que a procuram de todos os pontos do país.

(Artigo originalmente publicado na edição da Forbes Portugal de junho/julho de 2026)

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