Hoje vamos para o terreno. Entramos no submundo do crime e dos mercados clandestinos. Num universo onde há sempre espaço para mais uma pergunta e a empatia é a maior arma. Walkie-talkies ligados, olhos abertos e uma conversa sem filtros. Do outro lado está Mariana van Zeller, a jornalista de investigação responsável pelo programa “Na Rota do Tráfico”, que venceu 16 Emmys ao longo de cinco temporadas, e pelo projeto “The Hidden Third”. Se fosse alguém da sua equipa deste lado, era por HVIC que a trataríamos pelo walkie-talkie: “Todos temos uma alcunha, a minha é head bitch in charge“. Rainha do Acesso também seria oportuno. É isto que acontece quando o jornalismo vai ao encontro da vida real, por mais dura que ela seja.
O que é que a levou ao jornalismo?
Tinha 12 anos e via sempre o Jornal da Noite, na minha casa era obrigatório para se poder ver as telenovelas brasileiras. Costumava ver os pivôs do telejornal a falarem sobre o que se estava a passar no mundo, com toda a informação memorizada – claro que eu não sabia que estavam a ler num teleponto – e foi aí que decidi: eu também quero ter esta informação toda, quero saber tudo sobre o mundo. Depois tirei Relações Internacionais na Universidade Lusíada. Queria muito ir estudar para o estrangeiro imediatamente, mas a minha mãe pediu muito para eu ficar a estudar em Portugal, e fiquei. Mal acabei o curso comecei a candidatar-me à Columbia University para fazer o mestrado de jornalismo. No primeiro ano não entrei, no segundo ano fui posta numa lista de espera, mas não entrei outra vez, e no terceiro ano decidi que tinha de fazer alguma coisa diferente. Pus-me num avião, viajei até Nova Iorque, e eles diziam para os alunos não fazerem isso, bati na porta do reitor e tivemos uma hora à conversa. Foi nesse ano que fui aceite. Acho que me ensinou uma lição muito grande, não só para o jornalismo, mas para a vida: ter determinação e persistência é a única maneira de lá chegar.
Porque é que tinha de ser a Columbia?
Porque eu sabia que queria fazer jornalismo no estrangeiro. Tinha feito um estágio na SIC, na secção de internacional, e quando o Nuno Santos começou a SIC Notícias convidou-me para ir trabalhar num programa de viagens. Fui aos Açores, Maldivas, Sri Lanka, mas percebi logo que aquilo não era o que eu queria fazer. Lembro-me perfeitamente de estar nas Maldivas, perguntar a um casal “esta é a vossa ideia de paraíso?” e pensar: não é mesmo nada disto que eu quero fazer. Então sabia que entrar numa universidade tão conceituada, uma das melhores, se não a melhor universidade de jornalismo do mundo, era importante para mim.

Como é que depois chega ao jornalismo de investigação?
Quando comecei na Columbia, um dos cursos que existia era de documentários. Nós não tínhamos muita exposição a documentários, nessa altura, em Portugal, e comecei a interessar-me um pouco sobre esse tema. Tinha acabado de chegar a Nova Iorque, há cinco semanas no máximo, quando foi o 11 de setembro. Estava em casa de manhã e começou a tocar o telemóvel e o telefone de casa. Numa linha era a SIC a dizer que não tinham correspondentes portugueses em Manhattan, e os que tinham não conseguiam entrar porque a cidade estava fechada, e que eu era a única jornalista portuguesa que eles conheciam. Na outra linha tinha a minha mãe a chorar e a pedir-me, cheia de medo, para não sair de casa. Passado uma hora lá estava eu, no topo de um edifício em Manhattan, rodeada de muitos dos meus heróis, e fiz o meu primeiro direto. Lembro-me de estar super nervosa, tinha 25 anos, nunca tinha feito um direto na minha vida, achava que não ia conseguir falar, mas depois lá fiz e correu bem. Nesse dia fui das primeiras caras no Jornal da Noite, o tal Jornal da Noite que eu via quando era pequena. Depois lembro-me de descer as ruas de Nova Iorque – eu conto esta história e penso sempre para mim “não vou chorar”, mas depois fico sempre emocionada – e ver pessoas a agarrarem fotografias dos pais, dos filhos, dos irmãos, dos maridos, das mulheres, que estavam desaparecidos, ainda com a esperança que fossem encontrados. Essa semana mudou muito a minha vida, teve um impacto muito grande, e foi aí que eu decidi que o tipo de jornalismo que eu queria fazer era tentar entender como é que estas coisas acontecem no mundo. Então, um ano depois de acabar o mestrado, mudei-me para a Síria, para aprender árabe e para estar perto do conflito. A guerra no Iraque tinha começado, eu estava como freelancer, ninguém me estava a pagar. Foi aí que comecei o meu negócio da venda de tapetes, para me sustentar na Síria.
Comprava tapetes sírios, enviava em caixas para a minha mãe, ela vendia os tapetes pelo dobro do preço, mandava-me o dinheiro e foi assim que eu me sustentei durante vários meses. Foi assim também que consegui comprar a minha primeira câmara e fiz a minha primeira reportagem.
Entre essa cobertura do 11 de setembro e a chegada ao National Geographic, como é que foi a sua carreira?
Fiz a primeira reportagem como jornalista independente, na altura foi com o meu namorado, que hoje é meu marido, e vendemos ao Channel 4 no Reino Unido. Voltámos para Londres, vivi um tempo com ele enquanto estávamos a editar a tal peça que vendemos, pagaram-nos 5 mil libras na altura. Depois, com esse dinheiro, comprámos bilhetes para o Brasil. Sabia que o Brasil era outro grande centro de notícias e eu tinha a vantagem de conhecer a língua. Alugámos um apartamento no Rio de Janeiro e, na primeira semana lá, abri o jornal e tinha uma notícia sobre os garimpeiros: tinha havido um massacre de garimpeiros na Rondônia, na Amazónia. Fizemos um documentário para a Frontline World, nos Estados Unidos, e também fizemos para a CBC Canada, fizemos duas peças sobre esse tema. Durante esse tempo foi publicado que o Al Gore, antigo vice-presidente dos Estados Unidos, tinha começado um canal de televisão mais jovem, chamava-se Current TV, e estavam a pedir a pessoas que soubessem filmar, editar, fazer histórias para enviarem vídeos para começarem a trabalhar para eles. Eu e o meu marido enviámos, separados, mas fomos os dois contratados, e começou um tempo de seis a sete anos em que viajamos pelo mundo a fazer histórias sobre a presença dos chineses em Angola, sobre os rebeldes do petróleo na Nigéria, a guerra no Sri Lanka, a guerra entre o Líbano, Hezbollah e Israel, não houve história que não fizéssemos, foi incrível. Foi para uma série documental na Current TV, que se chamava “Vanguard”, que ganhei o meu Peabody Award. Através desses prémios e desse reconhecimento do trabalho que eu estava a fazer para a Current TV, a National Geographic entrou em contato comigo e perguntou se eu podia começar a fazer umas reportagens para eles. Isto antes da “Rota do Tráfico”, muito antes. Comecei a trabalhar para um programa chamado “Explorer”, que é um programa tipo News Magazine, que tem vários correspondentes a fazer diversas histórias, e a mim interessavam-me sempre as reportagens do crime, do submundo. Eles começaram a perceber e um dia disseram-me: achamos que as tuas reportagens e o trabalho que tens feito ao longo das guerras é bastante interessante, devíamos fazer um programa inteiro focado no trabalho que tu fazes nesses submundos. Foi daí que veio a ideia da série “Na Rota do Tráfico”.

Como é que foi o início da série “A Rota do Tráfico”, a fase de planear?
Foi incrível. Primeiro era o meu sonho, sempre quis ter um programa com um bom tipo de cartaz em que eu pudesse ser paga para fazer o que adoro. Digo sempre isso sobre o jornalismo, tu acordas um dia e não acreditas que as pessoas te estão a pagar para satisfazeres a tua própria curiosidade e poderes viajar à volta do mundo. Mas demorou um tempo e o principal que eles queriam saber é se eu ia de facto ter acesso a estes mundos. Havia uma página que me chamava “The Queen of Access” (a rainha do acesso). O programa foi feito através da minha produtora de documentários, um negócio que tenho com o meu marido e mais três parceiros, chama-se Muck Media. Eu convenci a National Geographic de que tinha uma produtora de documentários que ia ser capaz de fazer um programa tão grande e importante como o “Na Rota do Tráfico”. Só que nessa altura tínhamos pouca experiência, tínhamos acabado de formar a empresa. Até que eles disseram que iam viajar para Los Angeles para conhecer a nossa empresa. Nós tínhamos acabado de mudar para um escritório, nem sequer tínhamos mobília, e tínhamos que receber estes executivos para o meu sonho de trabalho. Comprei mobília em segunda mão, imprimimos vários posters de filmes que nunca tínhamos feito, pedimos às nossas famílias para fingirem que trabalhavam lá. Parecíamos mais legítimos. Passado dois ou três meses já estava eu no terreno a fazer a primeira reportagem.
Como correu?
Foi sobre dinheiro falso, feita no Peru. Quando chegámos eles queriam saber exatamente o dia-a-dia. No primeiro dia de filmagens tínhamos de mandar um email à National Geographic a explicar o que é que filmámos, havia um controle muito maior no início. No primeiro dia que íamos ter o primeiro grande acesso da série, íamos ter acesso a esses contrabandistas de dinheiro falso, o acesso não apareceu, ficámos oito horas à espera e eles nunca apareceram. E eu tive de ligar para a National Geographic a dizer-lhe que a “Queen of Access” afinal não tinha grande acesso e a coisa não tinha corrido muito bem. Mas eles não nos deram um pontapé de saída e acreditaram em nós. Voltámos para os Estados Unidos, depois voltámos ao Peru e começámos do zero outra vez. No fim tivemos o acesso que precisávamos para fazer essa reportagem e foi o primeiro pilot que fizemos para a National Geographic. Correu muito bem. Depois continuámos, a primeira temporada teve oito episódios e depois na segunda temporada já nos pediram 10 e foram 10 até à quinta.
Como é que era a parte logística de um episódio?
Era muito complicado. Eram seis pessoas no terreno: eu, o produtor, o diretor, dois câmaras e uma pessoa no som. São meses de pré-produção para saberes onde é que vais, qual é a história que vais contar, como é que vais filmar a história, qual é o tipo de acesso que tens. O acesso é sempre a parte mais difícil. Se estás a fazer uma história sobre fentanil e tens de ter acesso ao cartel de Sinaloa, aos laboratórios de fentanil, às pessoas que fazem distribuição, àqueles que consomem, essa é sempre a parte mais complicada, às vezes demora anos. E depois é a logística toda, nós viajávamos com 20 a 23 caixas de equipamento grandes, tens de ter todos os papeis para entrares em cada país com esse equipamento, como é que vais transportar tudo para zonas remotas do mundo, como é que vais filmar num sítio sem eletricidade, como é que vais recarregar as baterias, como é que vais ter acesso se não tens rede de telemóvel.
Depois chegas ao terreno e as coisas nunca são como tu esperas. Tu combinas com um químico do cartel de Sinaloa à uma da tarde e a hipótese de ele estar lá à uma da tarde é praticamente nula. São horas e horas de espera. Depois tu chegas a um sítio e eles pedem total anonimidade, não querem a identificação do local, então tens de tapar as janelas todas, mas de repente eles chegam à noite e aí já vamos precisar de alguma luz. Estás sempre a mudar e a adaptar-te, é muito desafiante. Depois de filmarmos no terreno, passávamos duas a três semanas mais ou menos para cada peça ser filmada, são quatro a seis meses para editar cada hora de televisão. E passa tudo pela equipa legal da National Geographic, têm de ter a certeza de que cada palavra que eu digo é factual e justa.

Já dentro desses ambientes mais perigosos e clandestinos, alguma coisa do jornalismo teve de ficar de parte para se adaptar às situações que foi encontrando?
Não tens de pôr de parte. Eu acho que ser jornalista não é muito diferente de ser um ser humano, tratas as pessoas com respeito e com dignidade mesmo que não concordes com o que eles fazem. O que acontecia, várias vezes aliás, é que tinhas que pôr o trabalho de parte e pensar que tens outras prioridades nesse momento: a segurança da equipa, teres a certeza que sais lá com vida. Nas primeira temporada da “Rota do Tráfico” fizemos uma reportagem, uma das minhas preferidas de sempre, que foi sobre o tráfico de armas dos Estados Unidos para o México. Fala-se muito das drogas que vão do México para os Estados Unidos, mas fala-se muito pouco do facto de serem os Estados Unidos que estão a armar os cartéis do México. No México existe uma loja de armas e é só para os militares, para a polícia e para pessoas que têm licença para ter armas, que são muito poucas. Nós seguimos o que se chama “The Iron River”, que é a rota do tráfico de armas desde Los Angeles até Sinaloa. Passámos uma tarde inteira com uma fação do cartel de Sinaloa e com os sicários responsáveis por esse tráfico. Eles tiveram bastante tempo do dia a fazer linhas de cocaína e só nos deram autorização para filmar um bunker de armas à noite, portanto já estavam bastante drogados. Quando fomos filmar dentro do bunker, cheio de armas de todos os tipos, eles estavam-se a preparar para uma possível guerra com o cartel oposto, o meu cameraman estava lá em baixo a filmar e eu saí para cima e estava a falar com o traficante de armas. Um deles, o sicário que estava drogado, agarrou na arma e sem querer disparou. Ele disparou a dois centímetros do meu pé, mas pior ainda é que foi também a dois centímetros do buraco onde estava a cabeça do meu cameraman. Parámos de filmar imediatamente e eu comecei a falar com o tal líder e a dizer: isto não pode acontecer, tu tens a responsabilidade da tua equipa assim como eu tenho a responsabilidade da minha equipa, se eu tenho mão na minha também tens de ter mão na tua, assim como me pediste para não pôr a vida dos teus em perigo também não posso pôr a vida dos que trabalham comigo em perigo. Acabámos as filmagens e fomos para o hotel porque já estava um caos.
Foi uma situação em que a ameaça de vida e a segurança foi muito mais importante do que continuar o trabalho.
O que é essencial nesse processo de ganhar confiança de pessoas que à partida não querem falar ou mostrar as suas realidades?
É tratares as pessoas com respeito e dignidade, mostrares que estás ali com empatia e com curiosidade. Podes não aceitar o que eles fazem, a maior parte das vezes não só não aceitas como não concordas, mas é importante entender porque é que eles o fazem, quais são os motivos que os levaram a fazer o que fazem. Só a entenderes os motivos é que vais conseguir resolver estes mercados negros, ou tentar impedir que eles existam. As pessoas perguntam-me sempre se eu viajo com guarda-costas, se eu chegasse com homens armados comigo a ideia que eu estava a dar é eu não tenho confiança em ti, porque é que tu irias ter confiança em mim? É tão simples como: antes de ligar as câmaras, eu sento-me e começo a falar, mostro-lhes uma fotografia do meu filho, pergunto se têm filhos, se tiverem um cigarro peço um, se eu tiver dou-lhes um cigarro dos meus, se houver uma cerveja dividimos uma cerveja. É tratar as pessoas como seres humanos, mostrar que eu não sou superior a eles e que somos todos iguais.

Qual foi o país ou o ambiente que mais afez sair da sua zona de conforto?
Foi o golpe de Estado no Níger. Eu gosto muito de ter o controlo da situação. Parece que não, parece que vou, bato à porta de um sicário e digo “olá, estou aqui com uma câmara”, mas não é assim. O Mike Tyson tem uma frase famosa que diz: toda a gente tem um plano até levar um soco na cara. Mas os planos são muito importantes até lá chegar. Quando foi o golpe de Estado no Níger, eu estava a fazer uma reportagem sobre o tráfico de ouro, como está a financiar os grupos terroristas ISIS, Boko Haram, Al-Qaeda. E tínhamos a ideia de que tínhamos algum controlo sobre a situação, tínhamos uma escolta militar connosco, treinados pelo governo americano, e fomos numa viagem até ao deserto, onde fomos filmar os túneis de ouro. A ideia era ficarmos lá dois ou três dias no máximo e depois saíamos em segurança. Foi assim que conseguimos convencer a National Geographic, que não queria que fossemos para este local, é um dos sítios mais perigosos do mundo. Passámos uma noite nas Minas de Ouro, voltámos, o nosso telemóvel finalmente tinha serviço, conseguimos ver as mensagens e viemos a descobrir que tinha havido um golpe de Estado. Nesse momento fecharam as fronteiras de território e também o espaço aéreo. E perdemos a nossa escolta militar, ficámos abandonados numa das regiões mais perigosas do mundo. Foram oito, nove dias sem controlo nenhum, de grande ansiedade, de querermos sair do país por questões de segurança, mas sem ter modo de o fazer. Não havia aviões, não havia maneira de nos retirarem de lá. Lembro-me que continuámos a trabalhar na reportagem do tráfico de ouro e de ter um traficante de ouro e seres humanos que veio ao nosso hotel, onde o entrevistámos, e eu perguntei-lhe: e se nós te pagarmos para nos traficares a nós para fora do país? E ele riu-se e disse: desculpa, mas vocês são americanos, são um alvo de destaque, e sem segurança não há maneira de o poder fazer.
Existem algumas perguntas que teve de optar por não fazer?
Eu pergunto sempre a mais do que a menos. Dizem sempre, quando vais encontrar qualquer cartel do México, que não deves nunca perguntar a que cartel é que eles pertencem, que eles não gostam. Dizem sempre: se tu fazes essa pergunta, acabou a entrevista. Esta é a condição prévia. Mas eu pergunto sempre. Às vezes até dizem “não gostamos dessa pergunta”, mas eu insisto com: é o cartel de Sinaloa? Tentar mais um bocadinho. Tive um professor que disse uma coisa que eu gosto muito: no jornalismo tens sempre uma linha que não deves cruzar, mas tens de ter a certeza de que quando voltas, voltas com giz nos pés.
Porque chegas mesmo em cima da linha, ao limite máximo. E só aí é que consegues ter a história real e completa.
Qual foi a coisa mais inesperada que alguém lhe disse com a câmara ligada?
Houve uma situação numa entrevista que eu fiz a um assassino da África do Sul. É difícil ter empatia em relação a assassinos, são pessoas pagas para matar outros seres humanos, é o pior crime que podes imaginar, não é? Entrei nessa situação a achar que não ia conseguir ter grande empatia, que não ia conseguir ver o ser humano por trás do assassino. Foi uma das conversas mais longas que tivemos, foram uma ou duas horas de conversa, mas foi muito interessante. Vim a descobrir que os pais dele tinham morrido quando ele tinha oito ou nove anos, tinham sido mortos por assassinos. Ele tinha sido abandonado nas ruas, passou pelas casas de vários familiares até que, no final, não tiveram condições para o manter. Entrou no tráfico de drogas por necessidade, e depois de um tempo, também por necessidade, foi escolhido pelo grupo para ser um dos hitman. Lembro-me de ele dizer que não matava mulheres e crianças, só homens maus. Perguntei se ele se considerava uma pessoa má, já que está a matar outras pessoas. E ele disse: eu também sou mau, mas a mim foram as condições da vida que me levaram a ser mau, e eu não estou aqui a fingir que sou boa pessoa, eu sei que sou mau. E eu perguntei: então não matas as crianças e as mulheres, mas já pensaste no efeito que tu tens nas mulheres e nos filhos daqueles que matas? Ele parou e disse: não, por acaso nunca tinha pensado nisso. Ele ficou até emocionado a pensar no efeito que tinha tido na vida de tanta gente. Falamos de uma pessoa que já tinha matado trinta e tal pessoas, de acordo com o que ele disse, por mil e quinhentos dólares cada. No fim ele veio ter comigo e disse-me: nunca ninguém me tinha perguntado sobre a minha vida, nunca ninguém quis saber, fizeste-me perguntas que me fizeram pensar em coisas que eu nunca tinha pensado, eu quero mesmo mudar o rumo da minha vida. São conversas difíceis com pessoas que nós consideramos que não têm nada a ver connosco, que são os maus da fita, mas são conversas que são importantes. E isso é das coisas que eu gosto mais no trabalho que faço.

Quem foi a pessoa mais improvável que confiou em si?
Eu acho sempre isto: não vai acontecer nunca. A hipótese de encontrarmos uma pessoa que esteja disposta a falar connosco é mínima. Portanto, cada pessoa que eu encontro é sempre uma surpresa grande. E ainda maior surpresa é que tu chegas lá com uma ideia prévia de como é que esta pessoa vai ser. Eu descobri, ao fim de tantos anos deste tipo de reportagens, que a grande maioria são pessoas boas, são pessoas como tu, são pessoas com sonhos, esperanças, pessoas que têm amigos, têm família, que amam, que são amadas. Isto para mim tem sido a grande revelação do trabalho que eu faço. E isto dá-me numa grande esperança na humanidade. Entender que são os sistemas que estão partidos, que é a desigualdade enorme que existe no mundo, em que tens bilionários com uma grande parte da riqueza do mundo e que tens metade do mundo a viverem com menos de sete dólares por dia. Tens 10% do mundo, são 700 e tal milhões de pessoas, que vivem abaixo da linha da pobreza. Isso leva as pessoas ao desespero, aos trabalhos em mercados negros, ao tráfico de armas e até ao assassinato. São condições de total desespero. Quando tens tanta desigualdade no mundo, essa desigualdade só pode trazer violência. Os sistemas do mundo é que estão partidos e só vamos conseguir resolver estas questões quando tentarmos resolver esses sistemas. Não são as pessoas que estão partidas, são os sistemas que estão partidos.
O medo faz parte do trabalho ou está sempre preparada o suficiente para não lidar com ele?
Medo é uma coisa que eu não tenho muito. Às vezes ajuda e outras não. Há sempre uma batalha dentro da minha cabeça entre a curiosidade e o medo e a curiosidade geralmente ganha. Eu digo que há uma batalha, mas eu acho que o medo nem sequer lá está, geralmente é a curiosidade que ocupa a grande parte da minha cabeça. Raramente, a não ser na questão do Níger, há situações de medo para mim. O maior medo que já tive foi mergulhar com tubarões, durante uma reportagem que fiz sobre o tráfico de tubarões, dormir na Amazónia à noite, numa rede aberta, outra reportagem sobre tigres, na Tailândia, em que também dormi numa rede numa zona cheia de tigres. Nessas situações eu morro de medo. E não tenho controlo. Um tigre vem-me atacar a meio da noite, não lhe vou dizer: vamos lá ter uma conversa. Mas com um sicário ou com um assassino acho que vou conseguir racionalizar e vou conseguir ter uma conversa e sair de lá.
O quão importante foram os prémios?
Foi um reconhecimento. Eu ganhei o Peabody Award, que foi um reconhecimento grande. Foi logo no início da minha carreira nos Estados Unidos, tinha 33 anos. Antes de ganhar o Peabody Award, ganhei um prémio que se chama The Livingston Award, que é muito importante nos Estados Unidos, o prémio de melhor jornalista jovem. E foi a Christiane Amanpour, um dos meus ídolos, uma das juradas desse prémio. Foi ela que me entregou o prémio, foi uma noite inesquecível. Passado uns meses, com a mesma reportagem, ganhei o Peabody Award. E depois tive vários anos em que fui nomeada a vários Emmys, ia à cerimónia e nunca ganhava. Até que na terceira temporada da “Rota do Tráfico” tivemos 20 nomeações e ganhámos cinco Emmys na mesma noite. No total tivemos 88 nomeações de Emmys e ganhámos 16. É um reconhecimento muito grande para mim e para a minha equipa em especial. E poder representar Portugal também foi muito importante.

A série termina ao fim de cinco temporadas, o que é que levou a esta decisão?
Várias coisas. Eu acho que a “Rota do Tráfico” começou a ser um pouco desconfortável. A National Geographic é um canal que faz a exploração do mundo, não é visto como um canal político, e na última temporada nós fizemos alguns episódios que tocaram no tema político. Um foi sobre o crescimento das milícias americanas, em que fomos ao Brasil e filmámos as milícias. A ideia de filmarmos no Brasil era a representação do que é que poderia ser o futuro nos Estados Unidos se deixássemos este crescimento das milícias acontecer. E muitas destas milícias, este crescimento recente, tem sido por causa do Trump e da sua política. Fizemos outra reportagem sobre os direitos LGBTQ e a legislação anti-LGBTQ em vários Estados, e como essas leis estavam a ser usadas como inspiração por outras partes do mundo. Essa legislação está a ser passada em muitos dos Estados republicanos com algum apoio do Governo do Trump.
Quando começámos a fazer estas reportagens, o Trump tinha sido eleito há pouco tempo, acho que começámos a ser um pouco políticos demais e por sermos um programa que não é barato de fazer, por ser um programa que é arriscado, eles decidiram, mesmo sendo um programa dos mais premiados de sempre no jornalismo, que talvez não fosse interessante para imagem que a National Geographic quer ter agora fazer este tipo de programa.
Então acabou e eu tive muito triste durante um ou dois dias, mas depois a tristeza tem de acabar e tens de pôr as mãos ao trabalho e começar outra vez, fazer o que tu gostas e o que achas importante. Foi aí que decidi começar o “The Hidden Third”.
Ficou alguma história por contar?
Ficou, por isso é que eu comecei esta plataforma de jornalismo independente que vai viver no Youtube e em várias plataformas independentes que existem, através do meu podcast e muito em breve também através das minhas reportagens no terreno. Vou poder continuar a fazer estas reportagens de investigação. Hoje em dia existe muito pouco jornalismo de investigação, até nos Estados Unidos, e eu acho que existe um público, existem pessoas que querem ver este tipo de reportagem séria e importante, eu acredito bastante nisso.
Conseguir financiamento tem sido um processo difícil?
Claro que sim, muito difícil. E tu achas que com um programa tão galardoado e reconhecido como a “Rota do Tráfico”, e com o meu nome que já tenho algum reconhecimento internacional, especialmente aqui em Portugal, vai ser muito fácil, não é? Que eu vou acordar um dia e vou conseguir encontrar várias pessoas prontas a pagar, mas não é assim. É voltar ao início da minha carreira. Se tu não fazes por ti, ninguém vai fazer e esse financiamento tenho de ser eu a procurar. E a ideia do podcast é essa. A minha ideia não era ficar num estúdio, embora eu tenha vindo a descobrir que adoro fazer podcast, mas a ideia é sempre ir para o terreno e fazer trabalhos de investigação. Então foi começar com o podcast e conseguir encontrar uma maneira de receber dinheiro através do podcast para isso financiar as minhas portagens do terreno. Tem demorado um pouco mais tempo do que eu estava à espera, em parte porque os nossos parceiros não foram os ideais a vender a parte comercial, temos agora uns parceiros novos. Mas no mês que vem já vou começar a fazer a minha primeira reportagem de terreno.

Em relação ao podcast em particular, quem é que foi o convidado que mais a surpreendeu até hoje?
Gostei muito da Amanda Knox. Eu vivi em Itália, tinha a mesma idade que ela tinha quando fiz Erasmus em Itália. Lembro-me perfeitamente quando a história dela saiu nos jornais de me ter visto nela, achar isto podia ter sido eu. E sempre tive a ideia de que ela era inocente. Poder sentar-me com ela e ver a pessoa que foi tratada da maneira como foi tratada, pelo governo da Itália e pelos media internacionais que não lhe deram sequer a oportunidade da inocência, mas que mesmo assim ainda consegue ver a humanidade das pessoas, ainda consegue tentar encontrar o copo meio cheio em vez do copo meio vazio, encontrar a luz ao fim do túnel. A empatia que ela tem ao fim de estar quatro anos numa prisão como ela teve, sendo inocente, para mim é uma grande inspiração.
E a entrevista mais difícil?
Uma das mais difíceis foi a da Anna Delvey, foi desafiante ao máximo. Passei duas décadas de trabalho a sentar-me à frente de pessoas que não querem contar histórias, que têm dificuldade em contar histórias, que vêm de mundos secretos, e aqui deparo-me com uma pessoa com uma total falta de noção da responsabilidade própria que teve no crime que fez e nos danos que causou até a amigas dela. É muita falta de empatia e de humanidade. E sem querer responder a qualquer pergunta que lhe fizesse: queres falar sobre o teu passado? Não quero. Vamos falar do presente? Também não quero. Vamos falar de ti? Também não quero.
Qual foi a pessoa que conheceu pelo caminho que teve mais impacto na sua carreira?
Acho que foi um coletivo de pessoas, mas eu diria que há situações que eu nunca mais me vou esquecer, que vão ficar comigo para sempre. Estar em Sinaloa com um grupo de mulheres, esposas e mães, que são as Sabuesos Guerreras. É um grupo de mulheres que vão de pá na mão escavar buracos pelas várias zonas à volta de Sinaloa à procura dos filhos e dos maridos que estão desaparecidos por causa da violência do narcotráfico e da guerra no México. Passar um dia inteiro com este grupo de mulheres, que já sofreram o pior que tu podes imaginar, a morte das pessoas que elas mais amam, eu como mãe de um filho não consigo nem imaginar o que é que isso significa. Elas sabem que a probabilidade de os familiares estarem mortos é grande, mas querem ao menos encontrá-los para lhes poderem dar um fim digno. Eu fico sempre emocionada só de pensar nisso. Lembro-me de uma senhora, com tanto respeito e dignidade, lá estava ela cheia de terra e de sujidade a escavar, e eu perguntei: a tua esperança maior é poderes encontrar o teu filho aqui e agora? E quando fiz essa pergunta pensei: não, claro que não, a esperança maior é poder encontrar o filho ainda vivo, mas isto é a única coisa que lhe resta fazer. São pessoas destas, histórias destas, especialmente de mulheres, a força emocional que só as mulheres têm, de continuar a lutar por aqueles que amam, isso dá-me inspiração, dá-me força e são histórias que ficam comigo para sempre.

E quem é a Mariana quando não está a trabalhar?
A Mariana é uma pessoa que gosta muito de beber vinho branco, de comer comida portuguesa, de vir visitar a família. Adoro viajar, adoro estar com amigos. Sou super light, as pessoas às vezes acham por causa do trabalho que eu faço que sou uma pessoa mais pesada, mas não sou. Adoro rir, adoro jantar fora, sou bastante curiosa, se me sento contigo vou fazer várias perguntas. E sou uma pessoa bastante otimista, estou sempre a tentar encontrar a parte boa da história ou a parte boa da pessoa. Sempre fui assim e espero ser assim para o resto da minha vida.
Qual é a coisa que as pessoas que trabalham consigo sabem sobre si que provavelmente o público não percebeu ao longo destes anos?
Para mim, ainda mais importante do que a história que estamos a fazer ou da reportagem, é o restaurante onde vamos jantar ou almoçar. Como uma boa portuguesa, adoro comer. Quando estamos no meio da reportagem, prestes a fazer uma entrevista muito importante, estou eu a pesquisar e a perguntar: mas espera aí, onde é que vamos almoçar?
Qual é a pergunta que gostaria que lhe fizessem mais vezes?
Eu gostei dessa pergunta que me fizeste agora: quem é a Mariana quando não está a trabalhar? Saber quem é a pessoa por trás do trabalho. Outra das minhas perguntas favoritas é: O que é que ser mulher tem ajudado ou não em relação ao trabalho que fazes? Eu digo sempre que ser mulher é a minha super arma. Porque acho que com mulheres somos sempre subestimadas, olham para nós como menos ameaçadoras, o que nos ajuda mesmo muito. E acho que temos muito mais empatia, e a empatia ajuda muito no jornalismo.
Se tu queres conhecer uma história por completo, se queres conhecer a realidade de uma pessoa por completo, tens de ter empatia, tens de tentar entender e pôr-te um pouco nos sapatos dessa pessoa.
E a pergunta que está cansada de responder?
Não é cansada, mas é uma pergunta bastante frustrante: como é que sendo mãe consegues fazer o trabalho que fazes? O meu marido também é jornalista, viajou, e nunca ninguém lhe faz essa pergunta. O julgamento que existe: como é que tu com um filho consegues passar tanto tempo fora a viajar? Isso dá uma frustração muito grande.





