Levar um café para uma entrevista de emprego? O debate nos EUA está a dividir gerações

Uma pergunta aparentemente aleatória — é aceitável levar um café gelado para uma entrevista de emprego? — tornou-se viral nas redes sociais norte-americanas esta semana, depois de Caitlin Wehniainen, presidente de uma empresa de recrutamento, publicar um vídeo no TikTok onde afirmou que fazê-lo “parece um pouco informal demais” aos olhos dos responsáveis pela contratação.…
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Nos EUA, levar um café gelado para uma entrevista de emprego pode não ser a melhor forma de causar uma boa impressão. Mas o debate que se tornou viral nas redes sociais revela sobretudo a mudança das normas no local de trabalho e o choque geracional entre responsáveis pela contratação e candidatos da Geração Z.
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Uma pergunta aparentemente aleatória — é aceitável levar um café gelado para uma entrevista de emprego? — tornou-se viral nas redes sociais norte-americanas esta semana, depois de Caitlin Wehniainen, presidente de uma empresa de recrutamento, publicar um vídeo no TikTok onde afirmou que fazê-lo “parece um pouco informal demais” aos olhos dos responsáveis pela contratação.

“Guarde o café para antes ou depois da entrevista”, defendeu Wehniainen, desencadeando um debate nas redes sociais entre, por um lado, quem considera que o barulho do gelo e o risco de entornar a bebida podem causar uma má impressão e, por outro lado, quem saiu em defesa dos jovens que procuram emprego num mercado de trabalho difícil.

Duas especialistas em carreira ouvidas pela Forbes afirmaram que, nos EUA, os candidatos provavelmente não deveriam levar um café gelado para uma entrevista, para evitar deixar uma má impressão. Ambas reconheceram, contudo, que compreendem por que razão os jovens candidatos podem sentir vontade de o fazer — seja para controlar a ansiedade, seja simplesmente porque desconhecem determinadas normas do mundo profissional.

“Não, não deve levá-lo consigo”, afirmou Beth Hendler-Grunt, fundadora e presidente da Next Great Step, uma empresa de aconselhamento profissional para estudantes universitários e recém-licenciados. Ainda assim, considera que o debate viral é, na realidade, reflexo de uma “desconexão entre aquilo que os jovens candidatos a emprego pensam que estão preparados para fazer e aquilo que os empregadores esperam”.

J.T. O’Donnell, fundadora e CEO da empresa de aconselhamento profissional Work It Daily, disse à Forbes que aconselharia os candidatos a perguntarem a si próprios: “O café vai ajudá-lo ou prejudicá-lo? É desajeitado? Vai entorná-lo todo em cima de si?”

O’Donnell, que é também criadora de conteúdos e tem mais de 1,2 milhões de seguidores no TikTok, afirmou que, se um candidato tiver uma “razão válida”, como controlar a ansiedade, a situação pode ser mais compreensível. Ainda assim, alertou que os responsáveis pela contratação podem não reagir bem.

A frase-chave

“O meu conselho honesto a quem procura emprego é: eu não levaria para uma entrevista mais nada que pudesse distraí-lo, mas, se isto é algo que o vai ajudar, então tem de fazer aquilo que entender”, afirmou O’Donnell à Forbes. “Tenha apenas consciência de que, graças a este debate, haverá pessoas que não vão gostar.”

O que revela o debate sobre os candidatos da Geração Z?

O’Donnell e Hendler-Grunt consideram que o debate sobre o café gelado pode ter as suas raízes num fosso geracional entre os jovens que procuram emprego e os responsáveis pela realização das entrevistas.

A questão do café gelado é um “sintoma de um problema maior que tem vindo a acontecer”, afirmou Hendler-Grunt, sugerindo que alguns candidatos da Geração Z podem chegar ao mercado de trabalho menos preparados devido à pandemia de Covid-19 e à sua reduzida experiência na procura de emprego.

“Para dar realmente um desconto aos jovens adultos, eles honestamente não sabem. Honestamente, não tiveram prática, perderam todos esses anos durante a pandemia”, afirmou Hendler-Grunt, acrescentando que alguns jovens podem nunca ter tido uma entrevista de emprego presencial ou sequer experiência direta num ambiente empresarial.

O’Donnell considera que o debate também pode ter tocado num ponto sensível porque candidatos de várias gerações se queixam de não conseguir encontrar emprego: “É algo que provoca reações num mercado de trabalho muito competitivo”, afirmou. “Acho que havia pessoas mais velhas que queriam uma confirmação da ideia de que é a geração mais jovem, que não tem etiqueta, e que deveriam contratar-me a mim em vez deles”, enquanto os mais jovens estão frustrados com uma “mentalidade antiga”.

Levar café gelado para uma entrevista pode tornar-se normal?

“Cada geração traz novas regras para o local de trabalho porque as regras antigas já não se aplicam”, afirmou O’Donnell, considerando que o debate sobre o café gelado é “um exemplo de como a Geração Z está a afirmar-se”.

Entre as décadas de 1980 e 1990, à medida que os trabalhadores da Geração X entravam no mercado de trabalho, o vestuário profissional tornou-se mais descontraído, com a crescente aceitação das chamadas “sextas-feiras casuais” e do business casual, afirmou O’Donnell. Também essa mudança encontrou resistência.

“Sou da Geração X. Éramos nós que horrorizávamos as pessoas porque não queríamos usar fatos no trabalho. Éramos nós que dizíamos: ‘Vamos tornar isto business casual’”, afirmou, criticando as gerações mais velhas por manterem uma visão “à moda antiga” da cultura profissional.

O contexto

O debate sobre o café gelado ganhou força nas redes sociais norte-americanas esta semana, dando origem a uma discussão sobre se levar uma bebida deste tipo para uma entrevista de emprego é pouco profissional ou se, simplesmente, não tem grande importância. Muitos utilizadores das redes sociais, porém, transformaram a discussão numa piada e num meme.

Uma criadora do TikTok identificada como @ariisaysso transformou o debate num sketch, recriando uma entrevista fictícia num vídeo com a legenda “POV: Levaste um café gelado para a tua entrevista de emprego”.

O vídeo ultrapassou 1 milhão de visualizações. Nele, a candidata interpreta uma situação em que o café gelado mancha uma cópia do seu currículo — numa piada, explica que o utilizou como “base para a bebida” — enquanto o barulho do gelo impede que a sua voz seja ouvida.

No final do sketch, o entrevistador, inicialmente impressionado pelo facto de a candidata ter estudado na Universidade de Harvard, manda-a sair, considerando a bebida uma “distração”.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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