Investigação nacional: Rochas porosas podem armazenar energia suficiente para abastecer cidades

Um estudo divulgado esta semana demonstrou, no plano teórico, que rochas porosas em profundidade podem armazenar energia suficiente para abastecer pequenas cidades, constituindo uma alternativa à dependência de combustíveis fósseis como o gás. O trabalho, publicado este mês na revista da especialidade Geoenergy, foi desenvolvido por investigadores do centro GeoBioTec da Faculdade de Ciências e…
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Investigadores nacionais elaboraram um estudo que demonstrou, no plano teórico, que rochas porosas em profundidade podem armazenar energia suficiente para abastecer pequenas cidades, constituindo uma alternativa à dependência de combustíveis fósseis como o gás.
Economia

Um estudo divulgado esta semana demonstrou, no plano teórico, que rochas porosas em profundidade podem armazenar energia suficiente para abastecer pequenas cidades, constituindo uma alternativa à dependência de combustíveis fósseis como o gás. O trabalho, publicado este mês na revista da especialidade Geoenergy, foi desenvolvido por investigadores do centro GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCTUL) e do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

“O estudo analisa, pela primeira vez e de forma sistemática, a influência da profundidade nas condições de armazenamento subterrâneo de energia. À medida que aumenta a profundidade, variam simultaneamente a pressão e a temperatura, fatores que condicionam diretamente a quantidade de energia que pode ser armazenada. Assim, as rochas irão funcionar como uma gigante bateria debaixo dos nossos pés”, afirmou, citado em comunicado da FCTUNL, o coordenador da investigação, o geólogo Ricardo Pereira.

A investigação, que se baseou em modelos teóricos construídos a partir de dados geológicos e termodinâmicos, visou avaliar o potencial do armazenamento de energia por ar comprimido em meios porosos.

“Ao contrário das baterias convencionais, o armazenamento por ar comprimido utiliza o excesso de eletricidade produzida por fontes renováveis para comprimir ar atmosférico, que é posteriormente injetado em reservatórios geológicos profundos. Quando existe necessidade de produzir eletricidade, esse ar é libertado e utilizado para acionar turbinas”, explica o comunicado da FCTUNL, salientando que a tecnologia, por usar apenas ar atmosférico, “evita muitos riscos associados ao armazenamento subterrâneo de gases combustíveis ou tóxicos, como o hidrogénio ou dióxido de carbono”.

Países como Estado Unidos, China e Alemanha usam a tecnologia, mas a partir de cavernas de sal, que armazenam “um volume mais baixo” de energia, adiantou à Lusa Ricardo Pereira.

Os autores do estudo, que tiveram em conta diversas variáveis nos modelos, como propriedades da rocha, condições de armazenamento e injeção de ar comprimido, pressão e volume de energia armazenada em diferentes profundidades, concluíram que reservatórios geológicos porosos, a uma profundidade entre os 1.000 e os 2.500 metros, reúnem as melhores condições para armazenar energia produzida a partir de fontes limpas (energia eólica, solar ou hídrica).

Neste cenário, um único reservatório poderá atingir a capacidade de armazenamento de um terawatt-hora, o suficiente para abastecer uma pequena cidade, disse à Lusa Ricardo Pereira. Nas grandes cidades, não permitindo garantir autossuficiência energética para consumo, a tecnologia permitirá “reduzir o consumo de combustíveis fósseis como o gás” com cinco ou 10 unidades de armazenamento, exemplificou o investigador do centro científico GeoBioTec da FCTUNL.

Num estudo anterior, Ricardo Pereira e outros cientistas concluíram que em Portugal a faixa costeira entre Torres Vedras e Aveiro possui rochas sedimentares (com areias porosas onde é possível extrair água e injetar ar comprimido nos poros) com potencial para armazenar em profundidade o excesso de eletricidade produzida por fontes renováveis.

Estudos subsequentes serão necessários fazer para avaliar o impacto da tecnologia (incluindo custos) na descarbonização da economia e na gestão eficiente, e resiliente, da rede elétrica e dos consumos. “As tecnologias de armazenamento de longa duração são consideradas fundamentais para a redução de desperdícios de produção renovável, para o aumento da estabilidade das redes elétricas e para assegurar serviços críticos, como o restabelecimento da rede após falhas generalizadas, como o apagão que afetou Portugal e Espanha em abril de 2025”, realça a nota da FCTUNL.

Países como Estado Unidos, China e Alemanha usam a tecnologia, mas a partir de cavernas de sal, que armazenam “um volume mais baixo” de energia, adiantou à Lusa Ricardo Pereira. O geólogo e restante equipa pretendem, num próximo passo, estudar com mais detalhe as rochas para terem “modelos mais sólidos”, o que pressupõe a recolha de amostras para análise em laboratório.

“O sucesso desta tecnologia depende não apenas das soluções de engenharia, mas fundamentalmente de uma caracterização geológica rigorosa. A dimensão do reservatório, a porosidade, a permeabilidade, os limites de pressão e as condições geotérmicas são fatores determinantes para a viabilidade técnica e económica destes sistemas”, sublinha o comunicado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Apesar do seu potencial, o armazenamento subterrâneo de energia em reservatórios geológicos esbarra em Portugal com uma lacuna, a lei, que, segundo Ricardo Pereira, não permite fazê-lo nem mesmo testá-lo. “É preciso regulamentá-lo”, assinalou.

(Lusa) 

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