Uma plateia com quase dez mil pessoas assistiu à sexta edição do Game Changers Forum, no qual, o antigo Presidente Barack Obama foi o cabeça de cartaz. Além das reflexões e lições do ex-governante norte-americano, um leque de empresários e opinion makers portugueses e estrangeiros não deixaram os créditos por mãos alheias e deram os seus contributos de como Portugal pode aproveitar os benefícios da inteligência artificial para ganhar produtividade, mas sem nunca deixar para trás a necessária componente humana. No que se refere à liderança, o denominador comum que mais se ouviu é que ninguém consegue ter sucesso sozinho, pelo que, um bom líder deve rodear-se do talento das suas pessoas para encontrar as melhores soluções para a sua organização.
O painel “AI as a Game Changer” foi um dos desafios lançados no evento, sendo que, a ideia transversal que ficou das várias intervenções é que a inteligência artificial pode ser um dos maiores aceleradores da economia de Portugal, mas para tal é preciso transformar a tecnologia em conquista de produtividade. Neste painel, o leque de oradores representava algumas das principais empresas do panorama nacional: Ana Figueiredo, CEO da MEO, Miguel Stilwell d’Andrade, CEO do Grupo EDP, João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, e Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade. A moderação esteve a cargo de Pedro Brito, Associate Dean da Nova SBE e CEO da área de Executive Education da universidade.
A CEO da operadora MEO, Ana Figueiredo, lançou a primeira intervenção neste desafio e salientou que “Portugal tem um desafio estrutural, histórico, de produtividade e de competitividade”. Ana Figueiredo não tem dúvidas de que Portugal, com a IA, está perante “o maior acelerador económico da nossa geração”, isto se esta ferramenta for utilizada para tornar as empresas mais competitivas, o Estado mais eficiente e as pessoas mais qualificadas. A ambição e a capacidade de execução serão os fatores que farão a diferença.
IA: oportunidade ou ameaça?
Para o CEO da EDP, Miguel Stilwell d’Andrade, a IA é uma “tecnologia revolucionária”, mas alertou que pode ser “oportunidade ou uma ameaça”, tudo depende da atitude com que for encarada. Ainda assim, Miguel Stilwell d’Andrade assumiu que será a IA a determinar a prosperidade de Portugal nos próximos anos.
O CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, lembrou que num tecido empresarial ainda composto sobretudo por PME, a IA pode abrir caminho para equilibrar as regras do jogo com as empresas maiores. Na sua visão, com esta tecnologia, uma empresa de fora de Lisboa, com dez pessoas, pode competir no mercado com uma que tenha mil colaboradores. João Pedro Oliveira e Costa defendeu que Portugal tem a “oportunidade de uma geração, a oportunidade histórica para nos transformarmos”, desde que se enfrente esta realidade “sem medo, com coragem e com sentido”.
Do lado da seguradora Generalli Tranquilidade, Pedro Carvalho destacou os três passos para o País beneficiar da IA: aproveitar a capacidade instalada de produção de energia, garantir a adoção da IA à escala, e assegurar que a nova prosperidade é partilhada, para que todos beneficiem do valor criado.
Desafiada por Pedro Brito para avaliar sobre se o País está apetrechado no que se refere à conectividade e capacidade de resposta da rede para esta nova realidade, Ana Figueiredo socorreu-se daquilo a que chamou de uma “AI grid”, que contempla três componentes: energia, computação e conectividade. Na vertente da conectividade assumiu que Portugal está na linha da frente, lembrando que a fibra chega a cerca de 95% do território, acima da média europeia, e que a geografia do País faz com que seja na costa portuguesa, onde se amarram vários cabos submarinos desde as Américas, África e Europa. Mas na componente da computação, lamentou que “Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer”. E alertou que partirmos no pelotão da frente não é suficiente para assegurar que se chega primeiro. Para a CEO da MEO é preciso garantir condições para que haja investimentos, que são avultados e de médio e longo prazo, para haver redes mais capazes, seguras e que garantam a soberania digital europeia. Sem estas condições Portugal ficará espetador a ver “os outros a produzir inteligência artificial”, sem aproveitar a oportunidade. Ana Figueiredo defendeu que, num País onde as empresas são mais pequenas face à escala global, a IA pode trazer uma oportunidade para se ganhar vantagens competitivas.
João Pedro Oliveira e Costa deixou o repto final aos líderes ao lembrar que “falta esperança” no País e que só depende de nós para a conquistar. Dirigindo-se à plateia de líderes de empresas disse-lhes que tudo “começa com a indignação, falarmos sobre o assunto e depois a execução, para trazer para dentro das empresas”, rematando que já chega de conferências e palavras.
Os oradores do painel “Can Working Better Together Change Portugal?” juntou em palco Julien Haex, diretor-geral da Central de Cervejas, Chitra Stern cofundadora do Martinhal Hotel Group, António Cunha Vaz, CEO da H/Advisors CV&A, Ricardo Costa, presidente do grupo Bernardo da Costa, Inês Odila, general manager da Coverflex como speaker challenger e Fred Canto e Castro fundador da Seekers e também como speaker challenger. Aqui o denominador comum foi que diferentes formas de pensar, experiências diversas, diversidade nas equipas são trunfos para se definir as melhores estratégias de crescimento. E que uma cultura de respeito pela dignidade humana, com empatia, propósito são “superpoderes” que ajudarão a construir um mundo melhor.
Gerir os negócios para a mudança
O painel ‘How Can Business Change Portugal for the Better?’ trouxe ao palco Carlos Moreira da Silva, fundador e CEO da Teak Capital, Roberta Medina, do Rock in Rio, Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro – Delta Cafés, e Joana Pina Pereira, Chief Commercial & Marketing Officer na Generali Tranquilidade. O speaker challenger foi antigo CEO da Devoteam Portugal, Bruno Mota.
O CEO da Delta Cafés, Rui Miguel Nabeiro, foi desafiado a avaliar se manter a sede em Campo Maior é uma desvantagem, ao que respondeu lembrando as palavras do avô fundador do grupo, Rui Nabeiro: “Nós não estamos no interior, estamos no centro da Península Ibérica”, logo é uma vantagem. O gestor garantiu que não é por se estar no interior que “não há ambição”. O avô, lembrou, é o maior exemplo desta ideia. E acrescentou que quando as empresas fazem bem o seu negócio já é suficiente para o país ser melhor.
Para Joana Pina Pereira é importante que as empresas tenham uma posição que não seja diferente daquilo que comunicam para o exterior. A responsável disse que há empresas “fantásticas a apostar em Portugal” e sugeriu que a mudança game changer que faria seria que se garantisse “estabilidade que ultrapasse os quatro anos de liderança política”, já que é um mandato muito curto para que ocorra uma mudança estrutural.
Com a experiência de vários anos no meio empresarial, Carlos Moreira da Silva foi assertivo em lembrar que “Portugal está pessimamente classificado na qualidade de gestão e no nível de literacia dos empresários e gestores. E temos uma baixa produtividade. Isto tem a ver connosco”. Por isso, deixou o conselho: é “ficarmos menos dependentes das rendas, dos subsídios, arregaçarmos as mangas, comparar com os melhores, ir à luta e ganhar”.
Rui Miguel Nabeiro também deixou o seu conselho game changer, quase parafraseando o antigo governante Cavaco Silva ao afirmar que “é mesmo deixarem-nos trabalhar”.
Roberta Medina destacou que se deveria gerir o País como uma empresa cumprindo os prazos “que a gestão pública tivesse o mesmo nível de exigência”.
Com a experiência de vários anos no meio empresarial, Carlos Moreira da Silva foi assertivo em lembrar que “Portugal está pessimamente classificado na qualidade de gestão e no nível de literacia dos empresários e gestores. E temos uma baixa produtividade. Isto tem a ver connosco”. Por isso, deixou o conselho: é “ficarmos menos dependentes das rendas, dos subsídios, arregaçarmos as mangas, comparar com os melhores, ir à luta e ganhar”.
O antigo líder da BA Vidro admitiu que a decisão de deixar a empresa foi ponderada e demorou três anos, já que considera que “é melhor sair antes do que sair depois porque as capacidades vão se deteriorando”. O empresário rematou dizendo que há que “antecipar a saída e garantir que a sucessão está bem assegurada”.
Rui Miguel Nabeiro também deixou o seu conselho game changer, quase parafraseando o antigo governante Cavaco Silva ao afirmar que “é mesmo deixarem-nos trabalhar”.
O papel da inovação
A inovação também teve um momento de destaque no painel “Can Innovation Change the Way Portugal Works?”. O CEO do grupo Visabeira, Fernando Daniel Nunes, realçou que “a inovação teve um papel fundamental no crescimento” da empresa que hoje está presente em 18 países e conta com um volume de negócios de três mil milhões. O facto de ter o centro de decisão em Viseu, de acordo com Fernando Daniel Nunes, não tem sido uma barreira para que o grupo dê cartas nas áreas em que atua. Mais do que a geografia, o CEO da Visabeira apontou “a velocidade da tomada de decisões e a burocracia” como constrangimentos que encontram no mercado nacional. E concluiu que é preciso “ter ambição, tal como os antepassados [nos Descobrimentos] para se voltar a conquistar o mundo”.
Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, realçou que “Portugal tem a oferecer talento e uma economia que está a crescer e uma realidade estável”. No entanto, destacou que é preciso “ambição para ser maiores. Às vezes pensa-se pequeno quando se poderia ambicionar a ser grande”. Em tempos de domínio das tecnologias, Marcelo Nico sublinhou que “as grandes inovações não são feitas pela tecnologia, mas pelas pessoas”.
Como liderar para o sucesso
Antes do momento da entrada em palco de Barack Obama houve ainda tempo para o painel “What Does It Take to Lead Change?”, cujos protagonistas foram o presidente do Sporting, Frederico Varandas, e e o fundador e antigo CEO da Logoplaste, Felipe de Botton, com o empresário Bruno Mota a assumir de novo o papel de speaker challenger. O papel da liderança e a capacidade de se formar novos líderes nas organizações serviu de mote para a conversa.
O presidente do Sporting voltou aos tempos em que foi médico oficial da missão do Exército português no Afeganistão para mostrar a importância de se “liderar pelo exemplo”. Enquanto Felipe de Botton destacou a “aprendizagem” essencial para a evolução de quem lidera.
Uma das frases marcantes de Frederico Varandas foi que “antes de fazer o que quer que seja, temos de pensar se a solução é melhor”. E não negou que todos os anos, meses comete erros.
Perante a pergunta se a liderança é uma competência que se aprende ou se é uma característica inata, Frederico Varandas referiu que é possível melhorar competências, mas a capacidade de exercer a liderança está no ADN. “Todos melhoramos, sim, mas um verdadeiro líder, para aguentar, isso nasce connosco”, assumiu.
Felipe de Botton não teve dúvidas em defender que “um bom líder é também aquele que consegue criar outros líderes”. Sem esquecer de se rodear das pessoas mais competentes e ajudá-las a crescer. Até porque: “quem aguenta o topo da pirâmide é a base da pirâmide”.
Perante a pergunta se a liderança é uma competência que se aprende ou se é uma característica inata, Frederico Varandas referiu que é possível melhorar competências, mas a capacidade de exercer a liderança está no ADN. “Todos melhoramos, sim, mas um verdadeiro líder, para aguentar, isso nasce connosco”, admitiu.
Felipe de Botton não teve dúvidas em defender que “um bom líder é também aquele que consegue criar outros líderes”. Sem esquecer de se rodear das pessoas mais competentes e ajudá-las a crescer. Até porque: “quem aguenta o topo da pirâmide é a base da pirâmide”.





