Assume-se como irrequieta por natureza. E o seu caminho é fruto dessa necessidade constante de criar. Médica por formação, mas apaixonada por tecnologia, Daniela Seixas construiu uma ponte entre os dois mundos e é hoje uma das destacadas líderes no setor da tecnologia aplicada à área da saúde. Natural do Porto, a co-fundadora da solução Tonic Easy Medical recebeu, em 2020, o Prémio Portuguese Women in Tech, na categoria de Best Startup in Portugal Started by a Woman. Já anteriormente, em 2018, a Forbes Internacional a tinha destacado como uma das 60 mulheres fundadoras de startups tecnológicas com impacto no mundo.
Como mulher que lidera uma startup tem consciência das dificuldades que muitas empreendedoras ainda enfrentam no mundo dos negócios ligados à tecnologia. Sendo Portugal um dos países do mundo com mais mulheres empresárias, é também um mercado no qual o financiamento a projetos liderados por mulheres, em especial nas startups tecnológicas, é muito baixo. Segundo um whitepaper da organização Empowoman, uma iniciativa da União Europeia para apoiar projectos tecnológicos fundados por mulheres, um dos desafios mais persistentes na Europa em matéria de inovação é a grave sub-representação das mulheres no empreendedorismo de tecnologia de ponta. “Apenas 14 % dos fundadores de startups são mulheres e as empresas lideradas por mulheres recebem menos de 2% do capital de risco total”, pode ler-se no estudo.
“Há uma vantagem importante de uma empresa nascer num mercado pequeno: é que consideramos a internacionalização desde o primeiro dia”, refere Daniela Seixas, co-fundadora e diretora executiva da Tonic Easy Medical
Foi numa chuvosa manhã de fevereiro que Daniela Seixas recebeu a Forbes Portugal na sede da empresa, situada na cidade que a viu nascer, e quis, desde logo incluir a equipa na conversa. Discreta, a gestora não quer os holofotes apontados para si. Contudo, as suas raízes profissionais não podem ser dissociadas do seu empreendedorismo – que vê como uma missão de vida – já que o projeto surgiu de uma necessidade prática sentida pelo exercício da medicina. A Tonic Easy Medical, que começou em 2016 como uma espécie de WhatsApp para médicos partilharem rapidamente informação crucial sobre processos clínicos, é hoje uma ferramenta essencial, inovadora, internacionalizada e que praticamente não enfrenta concorrência no seu nicho de atividade.

Mas comecemos primeiro por perceber como chegou até aqui a médica e executiva. Daniela afirma que nos seus tempos de estudante foi sempre uma aluna versátil. E quando chegou a hora de decidir o seu futuro profissional procurava também algo na mesma linha, que lhe permitisse fazer várias coisas ao mesmo tempo. Era muito apaixonada por tecnologia, uma vez que o seu pai, que trabalhava em artes gráficas usando os primeiros computadores Macintosh, lhe incutiu o bichinho. “Até aprendi a programar com ele”, recorda. Não pensava em ser médica em criança, nem tinha médicos na família que a influenciassem, mas acabou por seguir medicina e especializar-se em Neuroradiologia. “Isto porque era a disciplina mais tecnológica da Medicina e aquela que estava a avançar mais rapidamente. Foi, aliás, nesta área que foram aplicados os primeiros algoritmos de inteligência artificial”, afirma. Desta forma, uniu a tecnologia à neurociência: “O estudo do cérebro também me apaixona”.
Concluiu o curso de Medicina, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel, da Universidade do Porto, no ano 2000, e fez ainda um doutoramento em Neurociências, na mesma instituição, em colaboração com a Universidade de Oxford, local onde esteve dois anos. Exercia a sua profissão no Hospital de S. João ao mesmo tempo que lecionava, como professora auxiliar, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. “Então comecei a ficar irrequieta outra vez e decidi ir fazer um MBA no IE Business School, em Madrid”, relembra. E foi aqui que se deu a reviravolta na sua vida.
Lançar à terra a semente da Tonic
Foi no final desta formação internacional que surgiu a semente da startup. “A Tonic foi um projeto desses seis meses finais do MBA, que depois foi tomando conta da minha vida. Começou apenas com um projeto paralelo às minhas funções como académica e como clínica”, diz. Foi nesse curso que conheceu os seus três amigos e co-fundadores – Andrew Barnes, Christophe de Kalbermatten e Dávid Borsós, ainda hoje acionistas, embora minoritários – que embarcaram com ela nesta aventura.
A ideia surgiu pelas dificuldades sentidas na sua prática clínica. “Por ser neuro-radiologista, lidava muito com a doença cerebrovascular, com enfarte agudo, e sabia que quanto mais rápido o tratamento for implementado, mais cérebro se recupera. Quando era necessário transferir o doente demorava-se até meia hora para entrar em contacto e passar toada a informação aos colegas. E isso era algo que me frustrava porque sabia que 30 minutos podiam fazer a diferença entre falar ou não, caminhar ou não”, recorda a empreendedora. Assim, a primeira versão da Tonic App – o primeiro nome da aplicação -, nasceu, em 2015, com a missão de ajudar a resolver as barreiras à comunicação entre profissionais de saúde. A empresa viria a ser fundada no ano seguinte, e ficou decidido, entre os quatro sócios, que Daniela Seixas seria a diretora executiva do projecto.
“Já temos uma comunidade de utilizadores de cerca de 200 mil médicos. O mercado mais maduro é o português, onde já temos 57% de todos os médicos e 70% de todos os médicos de família”, diz Daniela Seixas.
Daniela manteve ainda durante algum tempo a sua função como médica e professora, e dessa forma estava muito próxima do utilizar final da aplicação, que começou por ser gratuita para médicos. “Como não tínhamos muito recursos, fui eu que fiz o primeiro website e os primeiros mockups para a primeira versão da plataforma, que na altura era só mobile”, recorda a líder da empresa. Quando começou a profissionalizar mais o negócio, a primeira equipa foi subcontratada. Hoje já são 50 os elementos que compõem a Tonic Easy Medical.
Com o produto testado e aprovado, a primeira ronda de financiamento, no valor de meio milhão de euros, surgiu em 2017, com a entrada da Portugal Ventures, e em 2019 entra a Vesalius Biocapital Partners e a Armilar Venture Partners numa nova ronda que contou também com a participação da Portugal Ventures e a TheVentureCity. Angariou então cerca de 3,5 milhões de euros. Em 2024 a empresa assegurou mais 10 milhões e, no total são já mais de 20 milhões de euros recolhidos através de capital de risco. Em negociações finais está ainda uma nova ronda de financiamento, ainda não fechada.
Uma nova era com a Inteligência Artificial
Se de início, o produto começou por ser apenas uma solução de comunicação segura e privada para médicos, rapidamente a equipa percebeu que a plataforma poderia oferecer muitos outros recursos para além da comunicação. “Acrescentamos mais funcionalidades, mais conteúdos clínicos, como árvores de decisão de diagnóstico ou de tratamento. Juntamos também ferramentas clínicas, como escalas médicas e conteúdos educativos, e criámos um produto 360”, explica Daniela Seixas.
Como modelo de negócio, para gerar receitas, optaram por trabalhar com empresas das ciências da vida, ou seja, as grandes farmacêuticas, num modelo de interseção entre o interesse dos médicos e o interesse das empresas. “A intersecção está em que os médicos têm de conhecer os produtos que são lançados no mercado. Ou seja, a indústria trabalha connosco, com as nossas regras, através da nossa equipa médica, e nós informamos os nossos médicos”. A solução disponibiliza também uma seção de emprego, de jogos médicos, de quizzes educativos, entre outros.

Com o advento da Inteligência Artificial (IA) Generativa, em 2023, a empresa avançou com um copiloto clínico de apoio ao dia-a-dia do médico, que ajuda essencialmente no apoio à decisão de tratamento farmacológico. Esta área de desenvolvimento está na mão de João Guichard, Chief AI Officer da startup, que revela que em dois anos, a utilização do produto já aumentou quatro ou cinco vezes. “Em 2025, conseguimos a certificação como dispositivo médico. Somos uma das primeiras empresas da Europa a conseguir a certificação como dispositivo médico da nossa IA Clínica”, refere o responsável.
Daniela Seixas refere que a estratégia futura é reforçar a internacionalização, estando presente nos cinco principais mercados europeus. Já está presente em Espanha, França, e Itália, mas pretende chegar, com uma nova ronda de financiamento a ser concluída, ao Reino Unido e à Alemanha. “Já temos uma comunidade de utilizadores de cerca de 200 mil médicos. O mercado mais maduro é o português, onde já temos 57% de todos os médicos e 70% de todos os médicos de família, ou seja, praticamente todos aqueles que querem ser digitais. O mercado de maior crescimento é a Itália, no qual já temos mais de 85 mil médicos”, refere Daniela Seixas. Em termos de clientes, são 16 as grandes farmacêuticas que trabalham com esta solução, das quais destacamos a Novartis, a Roche, a Phizer, a AstraZéneca, a MSD, entre outras.
Mulheres na tecnologia: poucas chegam a líderes
“Nos últimos dez anos houve um crescimento importante de mulheres nas áreas de tecnologia. Mas não vemos o mesmo na liderança”, refere Daniela Seixas, a propósito da fraca representação de mulheres na condução dos negócios desta área. Refere ainda que a Tonic Easy Medical tem 67% de mulheres dos seus quadros, mas não consegue explicar o porquê de ser uma percentagem mais elevada. “Penso que temos menos viés na seleção, e há mais meritocracia”, remata. Relativamente ao menor financiamento de startups lideradas por mulheres, refere que nunca sentiu qualquer tipo de problema com os seus investidores, mas sabe que há essa barreira invisível que prejudica o financiamento feminino. Questionada sobre o motivo desta diferença refere que “se prende muito com a educação que damos às nossas crianças, até com questões básicas de género, como «os meninos vestem de azul e as meninas de cor-de-rosa»”, diz. Refere ainda que é certo que os homens arriscam mais. “Como neurocientista, sei que há diferenças biológicas de comportamento, como a questão do risco. Se há ou não um estilo de liderança feminino, penso que estas diferenças podem atuar de forma positiva ou negativa e criar estereótipos de género”. Acrescenta ainda que, culturalmente é mais aceite que as mulheres expressem as suas emoções, e, portanto, acho que conseguem ser líderes talvez mais empáticas ou mais versáteis.
Irrequieta como é, Daniela não se contenta com pouco. Tem como ambição tornar a Tonic Easy Medical a líder europeia no seu setor nos próximos dois anos. E acredita ter boas perpectivas para que isso aconteça. “Há uma vantagem importante de uma empresa nascer num mercado pequeno: é que consideramos a internacionalização desde o primeiro dia”. É o ADN nacional herdado dos nossos navegadores. Olhar para o horizonte e decidir que está na hora de partir.
(Texto originalmente publicado na edição em papel da Forbes Portugal de abril/maio, número 85)





