A persistente fraqueza do consumo interno e a aposta crescente da China na indústria de alta tecnologia e nas exportações estão a agravar desequilíbrios económicos que estão a alimentar tensões comerciais com a União Europeia, segundo analistas.
Embora a economia chinesa tenha crescido 4,7% no primeiro semestre, economistas alertam que os indicadores escondem problemas estruturais: o setor imobiliário continua em crise, o investimento privado permanece débil e a procura das famílias não acompanha o ritmo da produção industrial.
“O crescimento do consumo das famílias continua demasiado fraco para acompanhar os bens produzidos pela máquina industrial chinesa, deixando as exportações preencher essa lacuna”, escreveu Eswar Prasad, professor da Universidade de Cornell e investigador do grupo de reflexão Brookings Institution, num artigo publicado no jornal Financial Times.
Segundo Prasad, a China necessita de um novo modelo de crescimento, menos dependente do investimento público e das exportações e mais assente no consumo privado e no setor dos serviços.
Stephen Roach, antigo presidente do Morgan Stanley Asia e professor da Universidade de Yale, considera que a economia chinesa enfrenta uma divisão crescente entre uma “economia produtora” e uma “economia consumidora”.
“O contraste entre a economia consumidora débil e a economia produtora resiliente não podia ser mais evidente”, escreveu o economista, defendendo que um modelo centrado na produção, perante uma procura interna fraca, constitui “uma receita para um excesso de oferta que inunda os mercados externos”.
Na sua perspetiva, essa dinâmica aumenta a probabilidade de respostas protecionistas “não apenas nos Estados Unidos, mas também na Europa”.
É essa crítica que Bruxelas tem intensificado, acusando Pequim de criar excesso de capacidade em setores como os veículos elétricos, as baterias e os painéis solares através de apoios públicos que, na perspetiva europeia, distorcem a concorrência e contribuem para um défice comercial com a China superior a mil milhões de euros por dia.
O Ministério do Comércio chinês rejeitou esta semana essas acusações, afirmando que a competitividade da indústria resulta da inovação tecnológica, da eficiência das cadeias de abastecimento e da dimensão do mercado interno, acusando alguns parceiros comerciais de utilizarem o conceito de excesso de capacidade para justificar medidas protecionistas.
Os próprios dados provinciais mostram, contudo, uma economia cada vez mais desigual. Zhejiang, Anhui, Jiangsu e Xangai, regiões fortemente ligadas à indústria tecnológica e às exportações, cresceram acima da média nacional no primeiro semestre, enquanto províncias mais dependentes do turismo, do consumo ou de setores tradicionais ficaram bastante abaixo.
Xu Tianchen, economista sénior da Economist Intelligence Unit, unidade de investigação da revista The Economist descreveu esta evolução como uma economia em “K”, em que “as regiões fortemente orientadas para as exportações e dotadas de um setor tecnológico ou de indústria transformadora avançada apresentam um desempenho superior”, ao passo que as economias dependentes da procura interna “enfrentam maiores dificuldades”.
A UE estabeleceu outubro de 2026 como prazo limite para reequilibrar as relações comerciais com a China, sob a ameaça de avançar com uma guerra comercial e novas tarifas massivas.
Segundo a agência Bloomberg, o Governo alemão está a identificar vulnerabilidades da economia chinesa que poderão ser exploradas caso as relações comerciais se agravem, analisando setores em que Pequim continua dependente de tecnologia industrial alemã.
Um estudo recente do académico James Curran, da Universidade de Sydney, conclui, porém, que a Europa enfrenta um dilema: pretende responder ao desafio económico colocado pela China, mas procura fazê-lo sem prejudicar a própria economia.
Um responsável europeu citado pelo autor resumiu esse objetivo: Bruxelas quer “aumentar os custos para a China, mas sem infligir dor a nós próprios”.
(LUSA)





