O envelhecimento da população está a colocar uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde, a investigação científica e os modelos de prestação de cuidados. Entre os desafios mais relevantes estão as doenças neurodegenerativas, patologias que afetam progressivamente o funcionamento do sistema nervoso e que podem comprometer a memória, o movimento, a autonomia e a qualidade de vida de milhões de pessoas.
Na União Europeia, cerca de 9,07 milhões de pessoas vivem atualmente com demência. A doença de Alzheimer representa entre 60% e 70% destes casos, enquanto a doença de Parkinson afeta mais de um milhão de pessoas nos 27 Estados-Membros. As projeções apontam para um agravamento significativo deste cenário: até 2050, o número de pessoas com demência poderá aumentar cerca de 58%, atingindo aproximadamente 14,34 milhões.
É perante esta realidade que Cascais recebe, a 23 de outubro, o I Congresso Científico Internacional do Instituto Português das Doenças Neurodegenerativas (IPDN). Subordinado ao tema “Ciência, Cuidar e Futuro”, o encontro terá lugar na Casa das Histórias Paula Rego e pretende aproximar investigadores, médicos, profissionais de saúde e outros especialistas para debater os avanços científicos e as respostas necessárias perante estas doenças.
Da investigação à transformação dos cuidados
A sessão de abertura contará com a participação de Isabelle de Oliveira, presidente do Instituto Português das Doenças Neurodegenerativas, e de Nuno Francisco Piteira, presidente da Câmara Municipal de Cascais.
A coordenação científica do congresso está a cargo de Joaquim Ferreira, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, diretor do Serviço de Neurologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria e fundador do CNS – Campus Neurológico.
O programa contempla sessões dedicadas à realidade das doenças neurodegenerativas em Portugal e no mundo, com particular atenção aos parkinsonismos, às demências e às doenças do neurónio motor. O objetivo é promover o diálogo entre a investigação científica, a prática clínica e a sociedade, explorando novas abordagens ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos doentes. Entre os especialistas participantes encontram-se Miguel Coelho, Isabel Santana e Mamede de Carvalho, numa sessão moderada por Miguel Viana Baptista, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia.
O I Congresso Científico Internacional do Instituto Português das Doenças Neurodegenerativas (IPDN) realiza-se a 23 de outubro, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.
A demência terá igualmente um lugar de destaque, com uma conferência de Alain Berard, diretor da Fundação Alzheimer, em Paris, dedicada à reflexão sobre as respostas necessárias perante uma realidade que representa um dos grandes desafios de saúde pública na Europa.
Um dos momentos do congresso será uma mesa-redonda dedicada à transformação dos modelos de tratamento, com enfoque na articulação entre terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas, intervenções interdisciplinares e novas formas de prestação de cuidados, dado que a progressiva perda de autonomia pode exigir alterações profundas na vida dos doentes e das suas famílias, assim como recursos adicionais por parte dos sistemas de saúde e de apoio social.
Impacto económico e social
A organização do congresso destaca o facto de o crescimento do número de pessoas com demência e outras doenças neurodegenerativas colocar também questões económicas e organizacionais, com a necessidade de acompanhamento prolongado, a mobilização de profissionais especializados e o apoio aos cuidadores a tornarem estas patologias um tema relevante para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e para a definição de políticas públicas.
A programação inclui três workshops dedicados a desafios específicos no acompanhamento de pessoas com doenças neurodegenerativas: alterações da marcha e prevenção de quedas, dificuldades de deglutição e alterações do comportamento.
Autonomia, ética e dignidade humana
A evolução das doenças neurodegenerativas levanta também questões da preservação da autonomia. Uma das sessões do congresso será dedicada precisamente a esta questão, sob o título “Entre a Fragilidade e a Autonomia: O Novo Paradigma Ético do Envelhecimento”. A conferência contará com Christian Byk, ligado à área da bioética junto da UNESCO, em Paris.
Num contexto em que a longevidade aumenta, a discussão sobre o futuro dos cuidados implica, assim, considerar não apenas a capacidade de tratar doenças, mas também a forma como se preservam a qualidade de vida, a participação e a autonomia de quem vive com elas.
Portugal e a cooperação científica internacional
Na parte final do encontro, a mesa-redonda “Caminhos para o Futuro: Ciência, Clínica e Sociedade” reunirá Joaquim Ferreira, Tiago Outeiro, Maria José Diógenes e João Massano. O debate deverá centrar-se nas oportunidades de colaboração científica nacional e internacional, na ligação entre investigação e prática clínica e nos caminhos para melhorar as respostas às doenças neurodegenerativas.





