Canadá alia-se à UE. Trump ameaça com sanções

A União Europeia quer elevar a relação com o Canadá a um novo patamar, numa altura em que as alianças tradicionais estão a ser reavaliadas e as tensões comerciais entre Washington e Otava se intensificam. Durante o discurso sobre o Estado da União, Ursula von der Leyen convidou o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, a trabalhar…
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Ursula von der Leyen propôs que o Canadá se torne o primeiro “membro associado” da União Europeia, aprofundando a cooperação em comércio, tecnologia, defesa, energia e matérias-primas. Mark Carney diz que a parceria assenta em valores comuns. Donald Trump ameaça responder com tarifas se considerar a aproximação um “ato hostil”.
Economia

A União Europeia quer elevar a relação com o Canadá a um novo patamar, numa altura em que as alianças tradicionais estão a ser reavaliadas e as tensões comerciais entre Washington e Otava se intensificam. Durante o discurso sobre o Estado da União, Ursula von der Leyen convidou o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, a trabalhar para que o Canadá se torne o primeiro membro associado da UE.

A proposta não significa que o Canadá passe a fazer parte da União Europeia como um Estado-membro. A ideia de membro associado implica uma relação institucional e política mais próxima, permitindo aprofundar a cooperação com a UE em áreas estratégicas, sem integrar o país nas estruturas da União da mesma forma que os 27 Estados-membros.

No caso do Canadá, a proposta de Von der Leyen aponta para uma parceria que vai muito além do comércio. Bruxelas quer passar do atual CETA, o acordo comercial entre a UE e o Canadá, para uma “Aliança para o Futuro”, criando um espaço comum de prosperidade e segurança económica.

Destacando que o comércio de bens entre a UE e o Canadá cresceu 75% em menos de uma década graças ao CETA, a presidente da Comissão Europeia diz que, no caso canadiano, a “Aliança para o Futuro” proposta pela Comissão pretende aproximar duas economias em setores considerados estratégicos para a próxima década.

Entre as áreas de cooperação identificadas estão a indústria e a produção, uma nova aliança tecnológica, inteligência artificial, energia, minerais críticos, baterias, computação quântica, cibersegurança e segurança económica. A UE pretende ainda aproximar as respetivas indústrias de defesa e transformar o Ártico num projeto conjunto de referência.

Diversificação de parcerias

Para Bruxelas, a relação com Otava enquadra-se numa estratégia mais ampla de diversificação das parcerias internacionais. No discurso do Estado da União, Von der Leyen afirmou que a UE precisa de “reimaginar” as suas parcerias perante a fragmentação do sistema internacional baseado em regras, recordando que a UE assinou este ano acordos comerciais com a Índia, Mercosul, México, Austrália e Indonésia e dispõe atualmente de acordos comerciais com mais de 80 países.

A proposta de transformar o Canadá no primeiro membro associado insere-se numa estratégia europeia de reforço da autonomia económica e estratégica.

No seu discurso, Von der Leyen defendeu que a Europa deve trabalhar com parceiros “like-minded”, ou seja, com países com ideias semelhantes, incluindo o Canadá e o Reino Unido, em áreas como avaliação e verificação de modelos, sistemas de alerta precoce e segurança da IA.

No seu discurso, ao qual assistiu o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, a líder do executivo comunitário propôs ainda que o Canadá se junte a um Conselho de Segurança Europeu, cuja criação foi também proposta na quarta-feira

Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá que esteve em Estrasburgo, ao lado de Von der Leyen, apresentou a relação com a Europa como uma parceria baseada em valores comuns: “Não somos aliados de ocasião. Não procuramos acordos de soma zero”, afirmou o primeiro-ministro canadiano no Parlamento Europeu, defendendo que o compromisso com o Estado de Direito, a liberdade individual e a democracia constitui uma base comum entre o Canadá e a Europa.

Carney classificou ainda a aproximação como uma “parceria por opção, não por coincidência” e defendeu que uma economia forte deve ser um meio para construir uma sociedade justa. O Governo canadiano não confirmou, no entanto, nos termos divulgados, uma decisão de adesão à categoria proposta por Von der Leyen.

Segundo adiantou Mark Carney, a parceria pode ajudar a “criar a próxima ordem mundial” e tornar-se um “farol para outras democracias”. Esta aliança “não será definida por aquilo a que nos opomos, mas por aquilo que defendemos: liberdade, solidariedade, prosperidade, sustentabilidade”, afirmou num discurso que foi fortemente aplaudido pelos eurodeputados.

Segundo o líder do Governo canadiano, o Canadá e a Europa devem “assegurar a sua autonomia estratégica através de uma cooperação profunda em toda a gama de capacidades estratégicas, incluindo minerais críticos, capacidade industrial de defesa, inteligência artificial e computação, segurança energética, espaço e pagamentos”.

Nesta aliança com a UE, o Canadá quer investir na Europa e tentar contornar a dependência comercial em relação aos Estados Unidos, para onde se destinam cerca de 70% das suas exportações.

Além disso, deverá haver uma integração do comércio de bens não agrícolas e de vários serviços e um aprofundamento dos laços interpessoais, para “permitir que os jovens vivam, trabalhem e estudem onde quiserem, em ambos os lados do Atlântico”.

A reação de Trump

A proposta europeia surge num momento sensível nas relações entre os Estados Unidos e o Canadá. Donald Trump ameaçou impor tarifas adicionais à União Europeia caso considere que a aproximação entre Bruxelas e Otava constitui um “ato hostil”.

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“Se for uma boa intenção, tudo bem. Se for uma má intenção, imporemos tarifas muito pesadas à Europa”, afirmou o Presidente norte-americano, acrescentando que Washington poderia mesmo cortar o comércio com a Europa em “muitas coisas”. Trump classificou ainda a possibilidade de uma aproximação entre o Canadá e a UE como “ridícula” e voltou a criticar o Canadá enquanto parceiro comercial.

Trump não especificou que produtos poderiam ser alvo de novas tarifas nem explicou como determinaria se a iniciativa europeia e canadiana teria uma natureza “hostil”.

A aproximação entre Otava e Bruxelas surge após Donald Trump ter manifestado vontade que o Canadá fosse o 51.º estado dos Estados Unidos. A ideia foi acompanhada em algumas ocasiões por mapas divulgados pelo próprio Trump ou pela Casa Branca nos quais o território canadiano aparecia representado como parte dos EUA. A posição tem sido rejeitada pelo Governo canadiano, que tem, em sentido contrário, procurado reforçar a autonomia e as alianças internacionais do país.

Perante a reação hostil do Candá às pretensões de Trump, a Casa Branca aplicou tarifas de 50% sobre várias importações canadianas, enquanto o Canadá respondeu com tarifas entre 15% e 50% sobre cerca de 700 produtos norte-americanos, incluindo aço, produtos lácteos, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, pasta e papel e determinados produtos eletrónicos.

PM do Canadá desvaloriza ameaças de Trump face a parceria com UE

O primeiro-ministro canadiano desvalorizou hoje as ameaças feitas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, de cortar relações comerciais com Bruxelas se Otava se tornar membro associado do bloco, garantindo que não será afetado por pressões externas.

“Ninguém nos vai dizer em que língua temos de falar nem com quem podemos assinar acordos internacionais”, afirmou Mark Carney, durante uma conferência de imprensa conjunta com a presidente do Parlamento Europeu que se realizou logo após ter proferido um discurso aos eurodeputados em Estrasburgo, França.

Mark Carney sublinhou que o país tem o direito soberano de alargar a sua rede comercial e garantiu que a parceria com a UE não constitui um ataque contra ninguém, mas sim um meio de duplicar o acesso do Canadá a mercados globais e passar a atingir três mil milhões de consumidores.

O primeiro-ministro canadiano referiu ainda que continua disponível para negociar acordos com os EUA, mas sublinhou que qualquer negociação tem de ser feita com base no respeito mútuo pela soberania e pelas instituições de cada país.

O porta-voz da Comissão Europeia para o Comércio, Olof Gill, já tinha assegurado anteriormente que a nova parceria “não é dirigida contra ninguém”.

Comissária para o Alargamento da UE diz que Europa atrai cada vez mais outros países

A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, sublinhou, entretanto, que a Europa está a tornar-se cada vez mais atraente para países terceiros, que não só pretendem aderir ao bloco como cooperar, dando o exemplo do Canadá: “A Europa nunca foi tão atraente como é hoje”, afirmou a comissária durante uma visita a Oslo.

“Quando falo de atratividade, não me refiro apenas a tornar-se ou não membro da União. Refiro-me à vontade de trabalhar mais de perto connosco ou de explorar outras formas de cooperação que ainda não considerámos, como acontece com o Canadá, referiu.

Marta Kos respondia a uma questão sobre uma possível perda de atratividade da UE após a rejeição, no final de agosto, da Islândia relativamente a uma retoma das negociações de adesão.

Admitindo que lamenta a decisão da Islândia, a comissária europeia para o Alargamento sublinhou a aproximação ao Canadá, que se tornou na quarta-feira no primeiro país a ser proposto formalmente como “membro associado” da União Europeia.

com Lusa e Forbes Internacional

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