BABELL: Quando o livro se transforma em moeda, o Porto ganha 54 milhões de euros

O que acontece quando um livro deixa de ser apenas um objeto de leitura e passa a funcionar como moeda de acesso à cultura? No Porto, a resposta chegou com o BABELL, um evento que, durante seis dias, transformou a cidade numa grande livraria a céu aberto e colocou o comércio livreiro no centro de…
ebenhack/AP
Mais de 400 mil pessoas participaram na primeira edição do BABELL, no Porto, num evento internacional que substituiu o bilhete convencional pela compra de um livro. O modelo envolveu mais de 50 livrarias, gerou 13,12 milhões de euros em despesas com livros e contribuiu para um impacto económico direto estimado em 54,1 milhões de euros.
Forbes Life

O que acontece quando um livro deixa de ser apenas um objeto de leitura e passa a funcionar como moeda de acesso à cultura? No Porto, a resposta chegou com o BABELL, um evento que, durante seis dias, transformou a cidade numa grande livraria a céu aberto e colocou o comércio livreiro no centro de uma iniciativa cultural de dimensão internacional. Em vez de um bilhete convencional, os participantes tinham de comprar um livro numa das mais de 50 livrarias aderentes. Uma fórmula que conseguiu aproximar leitores, autores e livreiros, ao mesmo tempo que gerou atividade económica para a cidade.

Foto: Igor Martins

Realizada entre 24 e 29 de junho, a primeira edição do BABELL reuniu mais de 400 mil participantes, de 64 nacionalidades, e gerou um impacto económico direto estimado em 54,1 milhões de euros. Os números constam dos estudos de impacto cultural e económico divulgados pela Fundação Livraria Lello e pelo ISAG–European Business School, respetivamente, e ajudam a perceber a dimensão de um projeto que procurou demonstrar que a literatura pode ser também um motor de desenvolvimento económico e de atração turística.

Impacto económico que vai além dos livros

O estudo do ISAG–CICET-FCVC, baseado em 748 questionários válidos, estimou em 54,1 milhões de euros o impacto económico direto associado ao evento, incluindo despesas em livros, alojamento, restauração, comércio e outros serviços.

A atração de visitantes de fora da região foi outro dos fatores relevantes. Os participantes residentes fora da Área Metropolitana do Porto e no estrangeiro representaram 23% da amostra do estudo. Entre estes, 83% associaram a deslocação ao BABELL e, para 70%, o evento foi o principal motivo da visita à cidade. Dois terços destes visitantes pernoitaram no Porto, com uma estadia média de quatro noites, e 77% aproveitaram a permanência para realizar outras atividades turísticas e culturais.

Livro era a “moeda” para entrar

A ideia central era simples, mas pouco convencional: para entrar nos eventos, era necessário adquirir um livro numa das livrarias participantes. Desta forma, o valor habitualmente destinado à compra de um bilhete passou diretamente para o circuito livreiro, envolvendo livrarias independentes, grandes cadeias e alfarrabistas. O livro tornou-se, literalmente, a moeda de acesso à cultura.

E o público parece ter aderido à proposta. Segundo o inquérito realizado aos participantes, 71% dos inquiridos compraram dois ou mais livros, com uma despesa média declarada de 42 euros. No estudo económico conduzido pelo ISAG–European Business School e pelo Centro de Investigação em Ciências Empresariais e Turismo da Fundação Consuelo Vieira da Costa (CICET-FCVC), as despesas com livros foram estimadas em 13,12 milhões de euros, tendo em conta os padrões de consumo observados e a extrapolação para o universo de 405 mil participantes.

“Levar mais gente às livrarias era um dos grandes objetivos do BABELL. A partir de um modelo inovador, ajudámos livreiros de todos os tipos, dos ditos independentes às grandes cadeias, passando pelos alfarrabistas, que hoje nos pedem um novo BABELL”, afirma Rui Couceiro, comissário do evento.

Foto: Igor Martins

Os testemunhos dos livreiros confirmam o efeito da iniciativa. Na Flâneur, nas proximidades da Casa da Música, Cátia Monteiro e Arnaldo Vila Pouca consideram que a participação representou “uma ótima oportunidade, quer em termos de faturação, que aumentou consideravelmente assim que anunciaram a forma de acesso aos eventos, quer em termos de prestígio”. A livraria passou a receber “cerca de quatro vezes mais clientes”, incluindo contactos de “pessoas que viviam longe, algumas noutros continentes, e queriam participar”.

Na Canto III, alfarrabista situada na Rua da Boavista, Isabel Gonçalves estima que o aumento de clientes tenha rondado os 60%, descrevendo o efeito como “um balão de oxigénio” para o negócio. A livreira considera que o BABELL representou “um engrandecimento para a cidade” e destaca a capacidade do evento para tornar “a cultura ainda mais acessível a todos”.

Dinamização cultural

Mas o livro como moeda foi apenas uma das dimensões de um evento que procurou ocupar a cidade com literatura, pensamento e arte. Ao longo de seis dias, ruas, praças, equipamentos culturais e espaços patrimoniais do Porto receberam mais de 60 iniciativas e 40 protagonistas, entre conversas literárias, conferências, concertos, performances, exposições, aulas de História, intervenções de poesia e atividades destinadas ao público infantojuvenil.

A programação trouxe à cidade alguns dos nomes mais relevantes da literatura contemporânea internacional. Mais de 35 mil pessoas participaram nas conversas com os autores e oito sessões literárias ultrapassaram os 1200 espectadores.

Foto: Daniel Rodrigues

Entre os convidados estiveram os portugueses Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe, o Nobel da Literatura László Krasznahorkai, Julian Barnes e Javier Cercas. Salman Rushdie levou três mil pessoas ao Coliseu do Porto, enquanto Margaret Atwood e Olga Tokarczuk esgotaram, com várias semanas de antecedência, os lugares disponíveis na Praça dos Leões.

Foto: Igor Martins

A dimensão artística também contribuiu para a mobilização de público. Nas margens do Douro, o artista Cai Guo-Qiang apresentou One Page, uma performance monumental concebida especificamente para o BABELL, que reuniu mais de 280 mil pessoas.

Foto: Daniel Rodrigues

Na Avenida dos Aliados, os concertos de GNR, Pedro Abrunhosa e Rui Veloso, entre outros artistas, atraíram mais de 50 mil pessoas. O programa incluiu ainda cinco exposições, entre as quais Imagens Cativas, de Daniel Mordzinski, visitada por mais de seis mil pessoas, e o BIBLIOTERRA, uma iniciativa dirigida aos mais novos que reuniu mais de 20 artistas.

Mais vontade de ler

O inquérito conduzido pela Fundação Livraria Lello, que reuniu 4808 respostas de pessoas de 42 países, concluiu que mais de três quartos dos inquiridos aumentaram o interesse pela literatura contemporânea depois de participarem no evento. Outros 68% descobriram novos autores ou obras e 86% saíram com maior vontade de ler os escritores convidados. A qualidade artística da programação foi considerada boa ou muito boa por 95% dos participantes.

Pedro Pinto, presidente da Fundação Livraria Lello, considera que a iniciativa demonstrou a importância de investir na cultura como instrumento de transformação das cidades e de afirmação internacional. “A cultura não pode ficar fechada nos círculos de quem já a conhece, nem viver apenas de ideias: exige visão, coragem para arriscar, investimento e capacidade de concretização. Foi com esse espírito, profundamente ligado ao ADN empreendedor do Porto, que criámos o BABELL”, afirma.

O responsável defende que o projeto foi pensado para criar oportunidades para as livrarias, mobilizar os habitantes do Porto e projetar internacionalmente a cidade através da cultura, da liberdade de pensamento e dos valores europeus. Nesse contexto, lamenta que o impulso criado pelo BABELL não tenha sido aproveitado para uma candidatura do Porto a Capital Mundial do Livro 2028.

“Num tempo em que a liberdade de pensamento e os valores democráticos são postos à prova, acreditamos que os livros são uma das nossas maiores armas, pelo continuaremos a trabalhar para que cheguem a cada vez mais pessoas”, conclui.

Mais Artigos