O público habituou-se a vê-la dar vida a histórias no teatro e na televisão e a acompanhá-la, sem personagens, nas redes sociais. Em A Que Sabe o Amor, Ana Guiomar ocupa um novo lugar: imagina o formato, conduz a conversa e convida outras figuras públicas a regressarem às memórias que um prato conserva. À mesa, a atriz descobre que uma receita pode dizer muito mais sobre alguém do que a lista de ingredientes.

Num mercado onde se multiplicam os formatos de conversa, que espaço sentiu que ainda estava por ocupar e o que distingue A Que Sabe o Amor dos restantes videocasts?
Em primeiro lugar, senti que o tema da mesa ainda não tinha sido muito explorado neste formato. Além disso, era muito forte a vontade de fazer um videocast diferente, quase como um programa de televisão. Sabia que a partilha do convidado, aliada ao entretenimento e a rubricas dinâmicas e divertidas, seria muito importante. Sinto também que a componente visual é bastante diferente de tudo o resto.
A cozinha já fazia parte da forma como comunicava com o público. Este projeto nasceu da sua ligação à gastronomia ou também de uma leitura da relação que construiu com a sua audiência?
Sinceramente, acho que nasceu das duas coisas. Durante a pandemia, fiz transmissões diárias no Instagram com receitas, cujo objetivo era entreter e dar a conhecer contas novas ou pequenas, semelhantes à minha, geridas por pessoas anónimas. A experiência de partilha, intimidade e descoberta foi tão feliz que me apeteceu explorá-la um pouco mais, desta vez com figuras públicas. No fundo, acho que todos acabamos por nos conhecer um pouco melhor quando estamos à mesa e partilhamos aspetos da nossa vida, sejam memórias, histórias ou ambições.

Ao longo da carreira, habituámo-nos a vê-la interpretar personagens ou integrar formatos criados por outros. O que a levou, neste momento, a assumir a criação e a condução de um projeto próprio?
Talvez tenha sido a realização pessoal associada ao desafio de construir e tornar real algo de raiz. Sabia exatamente do que queria falar e de que forma pretendia explorar o universo de cada convidado.
Estava a terminar uma peça de teatro e não estava a fazer televisão. Pareceu-me, por isso, uma boa altura para me dedicar a um projeto que exigiria bastante tempo e dedicação da minha parte.
Para além de dar rosto e voz ao programa, até onde se estendeu a sua intervenção na conceção, nas decisões editoriais, na produção e no investimento necessário para concretizar a primeira temporada?
O conceito nasceu ao mesmo tempo que o título e, a partir daí, começámos a desenvolver tudo.
Confesso que sou bastante controladora. Todas as fases e decisões passaram por mim e pelo realizador José Ricardo Lopes, que me ajudou muito e é também autor de muitas das ideias do projeto, além de ser responsável pela realização e pela edição. O José construiu, desenhou e desenvolveu também o cenário, assumindo praticamente toda a direção de arte.
O financiamento ficou a cargo da minha agência digital, a SocialBuzz, liderada por Diana Batalha Ramos, que conduziu e supervisionou o projeto de uma forma que me agrada muito, confiando em nós. A Fábrica dos Óculos – A Original foi a principal marca parceira desta primeira temporada. A vontade de trabalharmos juntos já existia há algum tempo e considerámos que este era o momento certo para estabelecer uma parceria que tornasse o projeto possível. Foi maravilhoso porque nos deram liberdade para criar tudo o que tínhamos imaginado.

O programa está disponível na íntegra no YouTube, no Spotify e na Apple Podcasts e é promovido através das redes sociais. Que estratégia foi definida para estes canais e onde acredita que poderá construir uma comunidade mais consistente?
Na realidade, o programa completo está disponível apenas nas três plataformas habituais: YouTube, Spotify e Apple Podcasts. São universos dos quais, até agora, eu não fazia parte. Foi muito gratificante termos alcançado números tão bons na semana da estreia. Estivemos durante uma semana entre os três primeiros do nosso segmento na Apple Podcasts e os resultados no YouTube também foram suficientemente fortes para justificarem o destaque dado ao programa.
A nossa estratégia passa por não fazer uma grande distinção na forma como promovemos ou divulgamos o conteúdo. Nas redes sociais, no entanto, os excertos de cada episódio têm de gerar impacto ou curiosidade junto do público que me acompanha. Acho que arrancámos com um vídeo de apresentação forte, que mostrava de forma clara do que tratava o programa.
A ideia era que as minhas redes sociais funcionassem como janelas capazes de captar a atenção e o interesse de públicos diversos. Considero também que o podcast é bastante transversal. Cada convidado representa uma descoberta muito interessante, o que tem ajudado a fidelizar o público e a construir uma comunidade consistente.
Depois dos primeiros episódios, que reação do público mais a surpreendeu?
Confesso que não esperava que os debates nas redes sociais fossem tão intensos, nem que o programa pudesse chegar tão rapidamente a outros públicos e países. O quarto episódio, por exemplo, com Nilsa Carona, uma personalidade moçambicana que admiro bastante e que fiz questão de ter nesta primeira temporada, é revelador disso mesmo.
De repente, a sua opinião e a forma como encara e vive a vida eram debatidas diariamente a muitos quilómetros daqui e, ao mesmo tempo, chegavam até nós no mesmo segundo. É muito interessante e enriquecedor perceber que conseguimos chegar a tantas pessoas e que os temas, as histórias e os assuntos abordados no programa funcionam como pontos de partida para conversas, reflexões e, por vezes, opiniões muito diferentes.

Que indicadores serão determinantes para avaliar o sucesso da temporada: visualizações, tempo de retenção, envolvimento da audiência, retorno para as marcas ou continuidade do formato?
Na realidade, acho que todos esses indicadores serão importantes. Foi a primeira vez que fiz uma coisa deste género e quero que corra o melhor possível para todos os envolvidos. Até agora, tem corrido bastante bem e acho que temos os ingredientes e os indicadores certos.
Se houver novas temporadas, sei que quero manter a qualidade da imagem e continuar a ter tempo para me dedicar aos conteúdos da forma de que gosto. A ideia é todos sairmos a ganhar, mas de uma forma completamente honesta e prazerosa.
Os convidados pertencem a diferentes áreas, embora vários tenham consigo relações profissionais ou pessoais. Que critérios presidiram à escolha e até que ponto a confiança prévia é necessária para chegar a histórias que ainda não foram contadas?
A escolha dos convidados não foi inocente. Sabia que queria ter à mesa pessoas que admirasse, que estivessem completamente à vontade comigo e que acrescentassem algo ao programa, ou seja, que tivessem coisas para dizer.
Todos têm em comum uma ligação muito forte ao passado e ao lugar de onde vieram. Interessava-me essa dimensão: a ligação ao passado e a memórias que ainda não tinham sido partilhadas, mas que permanecem.

Num projeto que transforma memórias e vulnerabilidade em conteúdo, onde estabelece a fronteira entre uma conversa autêntica e a exposição da vida privada?
Aqui, ninguém estava obrigado a nada e a confiança era mútua. Cada pessoa foi apenas até onde quis e partilhou aquilo com que se sentia confortável. O tom de cada programa é inteiramente definido pelo convidado e a viagem ao passado é conduzida por ele.
Foram todos muito generosos. Numa altura em que parece que sabemos tudo uns sobre os outros, ainda houve muitas histórias novas da vida de cada um para contar.
A Que Sabe o Amor é uma experiência circunscrita ou pode tornar-se uma nova linha da sua carreira?
Sinceramente, não faço ideia. Nunca tive o desejo de ser só uma coisa e vou fazendo aquilo que me faz feliz ou que faz sentido na fase da vida em que estou.
Gostava muito de conseguir fazer mais uma ou duas temporadas. Depois, talvez um dia destes, no trânsito ou enquanto tento adormecer, me surja outra ideia ou a vontade de criar mais alguma coisa.





