O designer galego Adolfo Domínguez criou a marca de moda de vestuário feminino e masculino em nome próprio em 1976. A expansão internacional trouxe a marca para um mercado considerado natural, Portugal, há 32 anos, onde tem uma presença que se estende de Norte a Sul do País.
Em entrevista à Forbes Portugal, a CEO da Adolfo Domínguez e filha do fundador, Adriana Domínguez, realça que o mercado português tem vindo a registar crescimento não só no número de lojas como também de vendas por metro quadrado. Adriana Domínguez salienta que, neste momento, há uma grande aposta em Portugal, o que explica que o grupo tenha trazido, pela primeira vez, um desfile com a coleção CROMA SS27 para a Moda Lisboa. Esta coleção primavera/verão 2027, que foi apresentada no Pátio da Galé, pretende colocar a cor no centro da investigação criativa e aborda-a a partir de três dimensões: científica, material e emocional.
Nos últimos quatro anos a Adolfo Domínguez aumentou a faturação em Portugal em 64% e tem vindo a acelerar a expansão da rede de lojas, que tem mais 47% espaços face a 2022. O grupo galego tem intensificado a presença no mercado português multiplicando por cinco as vendas e duplicando a sua rede comercial. Hoje conta com 22 pontos de venda em algumas das principais cidades portuguesas: Lisboa, Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Vila do Conde, Aveiro, Faro, Oeiras, Cascais e Alcochete. O mais recente espaço da marca abriu portas em Braga no passado mês de junho. A Adolfo Domínguez trabalha também com sete fábricas têxteis portuguesas, onde são produzidas 50 referências de peças de vestuário de cada coleção.
Questionada sobre os nomes que a inspiram enquanto líder, Adriana Domínguez não tem dúvidas em puxar pelo cunho de empresa familiar que caracteriza o grupo para destacar que são os pais e os avós. E lembra frases que sempre ouviu em casa e que ainda hoje a marcam como: “É mais fácil produzir do que vender”, que traduz as dificuldades do mundo da distribuição e que justifica o facto de a marca se manter à frente da própria distribuição e expansão. A CEO da Adolfo Domínguez assume ainda que a integridade e a resiliência dos pais e também dos têm sido uma grande lição de vida.
Portugal é o segundo maior mercado da Adolfo Domínguez. Quais são as principais oportunidades de crescimento que identifica no País?
Portugal é um país que tem estado em crescimento em termos de abertura de lojas, mas também em venda por metro quadrado. Com isto quero dizer que crescer num país não passa necessariamente por uma maior expansão. Por um lado, acho que é importante uma maior eficiência na gestão de lojas e, por outro, a desejabilidade do produto por parte de novos clientes e de clientes mais jovens. Temos um grande foco em Portugal neste momento, e isso explica também que termos estado aqui para desfilar e apresentar a coleção CROMA SS27, que entrará em lojas a partir de fevereiro.
A marca apresentou pela primeira vez uma coleção na ModaLisboa. Porque considerou importante dar este passo agora e que mensagem pretende transmitir ao público português e ao setor da moda através desta participação?
Os desfiles são um momento muito bonito para celebrar o que a moda é e a beleza que coloca no mundo. Às vezes, quando pensamos no que tem de distinto uma marca de autor, vemos que embeleza as cidades e faz com que as pessoas andem vestidas como poemas. E isto não é pouco. A ideia da beleza na vida é uma ferramenta importante para estar bem, mas também para gerar ilusão e economia nos distintos mercados. Um desfile como o de hoje é além disso um momento para nos conhecermos, para conhecer os influencers e personalidades locais e para que eles conheçam melhor a nossa coleção. No final, um desfile é uma festa da moda. E somos espanhóis, pelo que a ideia de fazer uma festa nos parece esplêndida.

É a guardiã de um legado construído pelo seu pai, mas também é a líder que está a redefinir o futuro da marca. Como equilibra o respeito pela herança de Adolfo Domínguez com a necessidade de transformar a empresa para responder a um consumidor cada vez mais exigente e global?
Há duas coisas que me ajudam muito. Uma é a minha idade, embora eu já tenha alguns anos, uma geração mais jovem conecta mais facilmente e mais rapidamente com outra geração mais jovem. A outra é que Adolfo Domínguez é uma marca criada por uma pessoa muito moderna e muito juvenil, que é meu pai. Sempre me chamou a atenção o quão moderno ele é: cada vez que lhe mostramos novas coleções, tudo o mais inesperado da marca ele compreende à primeira e sempre diz: “Isto é muito Adolfo Domínguez, mas a mim não me teria ocorrido fazê-lo”.
Desde que assumiu a presidência do grupo em 2017, quais considera terem sido as decisões estratégicas mais determinantes para reposicionar a marca e garantir a sua relevância num setor da moda cada vez mais competitivo?
Há partes que têm a ver com a reestruturação, como eliminar duas linhas de negócio. Também houve um foco importante em fechar e reabrir lojas para modernizar toda a rede. E outra parte fundamental foi o produto, voltámos a desfilar e fazemos coleções que têm uma parte de Ágora e Design to wear, as peças com uma componente mais elevada de design que saem do nosso laboratório criativo, um processo com o qual desenhamos as nossas coleções há seis anos e que antes não existia.
A sustentabilidade, a digitalização e a inovação tornaram-se pilares essenciais para a indústria da moda. Que inovações acredita que irão marcar a próxima década da Adolfo Domínguez e da moda europeia em geral?
Em sustentabilidade estamos muito avançados, porque somos uma marca B Corp e, portanto, temos um interesse real e genuíno em fazer as coisas o melhor que podemos. Em digitalização, estamos como todas as empresas, a tentar modernizar e automatizar tudo o que podemos conforme surgem tecnologias que o permitem. E em inovação, diria que a inteligência artificial é a grande revolução industrial desta era e creio que acabou de começar, por isso, navegar esta onda é o que temos todos de fazer agora.
Ao longo do seu percurso, quais foram as maiores fontes de inspiração enquanto líder?
É aqui que talvez aflora mais o meu lado de empresa familiar, porque me inspiram muito os meus pais e os meus avós. Talvez porque é uma escola que tenho vivido toda a vida em casa. Há algumas frases que tenho ouvido e que ficaram comigo para sempre. Por exemplo: «É mais fácil produzir do que vender», que reflete o difícil que é o mundo da distribuição e porque uma parte da força de uma marca como a nossa é que estamos à frente da nossa própria distribuição e expansão. E depois há outras coisas que talvez não sejam frases, mas que tenho visto, como a resiliência. Essa capacidade de manter a integridade, ainda que o mercado se torne difícil. E já não falo só a nível internacional: surgem focos de incerteza no Médio Oriente, na América Latina ou em Espanha. Como estamos um pouco em todas as partes, estamos muito expostos a todas estas situações. Creio que a integridade e a resiliência que tenho visto nos meus pais e, antes, nos meus avós, têm sido uma grande lição de vida para mim.
Se pudesse definir, numa frase, o cunho pessoal que deseja deixar na Adolfo Domínguez para as próximas gerações, qual seria esse legado?
Ser uma empresa que aproximou e tornou acessível uma forma poética de se vestir a todo o mundo com preços não proibitivos. E que o fez cuidando do ecossistema, procurando as melhores matérias-primas e inovando na área de sustentabilidade, especialmente trabalhando com o nosso território local, com as cápsulas de algodão espanhol, lã espanhola e, em breve, esperamos que também linho galego.





