A Cegid é uma empresa especializada em soluções de gestão empresarial na cloud, com oferta dirigida a profissionais e empresas das áreas financeira — incluindo tesouraria, fiscalidade e ERP —, Recursos Humanos, processamento salarial e gestão de talento, Contabilidade, Retalho e Empreendedorismo.
Com presença em Portugal e uma forte aposta na inteligência artificial, a empresa está a acelerar a transformação dos seus produtos para responder a um novo contexto em que o software deixa de ser apenas uma ferramenta de consulta e registo e passa a assumir um papel mais ativo na gestão das organizações. Nesta entrevista, Javier Torres, Diretor-Geral da Cegid para Portugal, Espanha, América Latina e África, fala sobre esta mudança, o impacto da IA nas empresas portuguesas e a estratégia da Cegid para os próximos anos.
Qual é o valor/peso que o negócio em Portugal tem para a Cegid?
Portugal é um dos mercados prioritários da Cegid e desempenha um papel fundamental na nossa estratégia de crescimento. Não apenas pela dimensão do negócio, mas também pela capacidade de inovação, pelo talento e pela relação sólida que construímos com o tecido empresarial português.
Em 2025, alcançámos uma faturação de 85 milhões de euros e, para 2026, definimos o objetivo de crescer cerca de 10%. Se alargarmos a perspetiva a Portugal e África, ultrapassamos os 90 milhões de euros de faturação, o que representa aproximadamente 40% do negócio da nossa região de Iberia, América Latina e África. Portugal é também o nosso segundo maior mercado e uma porta natural de entrada nos países africanos de língua portuguesa. Estes números refletem não só o peso económico de Portugal dentro da Cegid, mas também a solidez de um negócio construído sobre uma presença consolidada, uma ampla base de clientes e uma forte capacidade de crescimento.
Além disso, contamos com uma rede de cerca de 700 empresas parceiras e mais de 5.500 profissionais especializados, uma das mais sólidas de todo o grupo Cegid, que nos permite estar muito próximos das necessidades reais das empresas e acompanhá-las nos seus processos de transformação.
Para além dos dados, Portugal é também um centro de inovação para a Cegid. De facto, uma parte fundamental da tecnologia que sustenta o Cegid Pulse, os nossos agentes de inteligência artificial aplicados a todo o portefólio de produtos, foi desenvolvida no país, reforçando o seu papel enquanto polo tecnológico estratégico para a empresa.
Por tudo isto, Portugal é um dos nossos principais polos de crescimento, inovação e desenvolvimento de talento a nível internacional.

Quais são hoje as principais prioridades da Cegid para o mercado português?
A nossa prioridade é continuar a ajudar as empresas portuguesas a serem mais produtivas, competitivas e preparadas para enfrentar as mudanças que o mercado está a atravessar.
Para isso, estamos focados em duas grandes áreas. A primeira é acelerar a adoção das nossas soluções cloud de nova geração. Atualmente, cerca de 75% dos nossos clientes já trabalham com este modelo e esperamos que, até ao final de 2027, praticamente toda a nossa base instalada possa beneficiar das vantagens que oferece em termos de inovação, escalabilidade e atualização contínua.
A segunda grande prioridade é a inteligência artificial. A nossa missão é fazer com que a IA passe a fazer parte da gestão quotidiana das empresas, sobretudo das PME. Não se trata simplesmente de incorporar novas funcionalidades, mas de integrar a inteligência artificial nos processos de negócio para ajudar as organizações a automatizar tarefas, tomar melhores decisões e aumentar a produtividade. E, para que tudo isto seja possível, continuaremos a investir em talento e inovação.
“A nossa missão é fazer com que a IA passe a fazer parte da gestão quotidiana das empresas, sobretudo das PME. Não se trata simplesmente de incorporar novas funcionalidades, mas de integrar a inteligência artificial nos processos de negócio”
O que representa para a Cegid a aquisição da PHC? Haverá ainda mais aquisições, isto depois de terem também comprado a Primavera?
A integração da PHC foi um passo muito importante na estratégia de crescimento da Cegid em Portugal e África. Após a integração da Primavera e, posteriormente, da PHC, reunimos algumas das empresas mais reconhecidas do mercado português de software de gestão, combinando uma sólida base de clientes, uma oferta mais completa de soluções e uma das redes de parceiros mais relevantes do setor.
Estas operações permitiram-nos ganhar escala, reforçar a nossa capacidade de investimento e impulsionar a inovação em áreas-chave como a cloud e a inteligência artificial. Trouxeram também um profundo conhecimento do mercado português e uma vasta experiência no desenvolvimento de soluções para PME.
Quanto ao futuro, o crescimento inorgânico continua a fazer parte da estratégia do Grupo. Nos últimos quatro anos, a Cegid realizou mais de 30 aquisições e continuamos atentos a oportunidades que possam gerar valor para os nossos clientes e parceiros. Neste sentido, anunciámos recentemente a fusão da Cegid com a Silae, uma operação que reforça a nossa ambição de construir um líder europeu de software empresarial. Para Portugal, representa uma oportunidade importante para acelerar a inovação, aumentar a capacidade de investimento e continuar a desenvolver a nossa oferta em áreas estratégicas como a gestão financeira, a fiscalidade, os recursos humanos e a inteligência artificial.
Em suma, o nosso objetivo é continuar a reforçar as nossas capacidades para ajudar as empresas a serem mais eficientes e competitivas perante os desafios do presente e do futuro.
“O crescimento inorgânico continua a fazer parte da estratégia do Grupo. Nos últimos quatro anos, a Cegid realizou mais de 30 aquisições e continuamos atentos a oportunidades que possam gerar valor para os nossos clientes e parceiros”
Que mudanças espera trazer para o mercado português com a integração da PHC na Cegid?
A integração da PHC, concluída em 2026, permitiu-nos combinar o melhor de duas organizações com uma trajetória muito sólida no mercado português. Para os clientes, isto traduz-se no acesso a uma oferta mais ampla, numa maior capacidade de inovação e em mais recursos para acompanhar os seus processos de transformação.
Uma das áreas onde vemos um maior impacto é a inteligência artificial. A combinação do conhecimento da PHC sobre as necessidades das empresas portuguesas com a capacidade tecnológica e de investimento da Cegid permite-nos acelerar o desenvolvimento de novas soluções. Um bom exemplo disso foi o Cegid Partner Summit 2026, realizado no passado dia 15 de setembro, no Porto, onde reunimos mais de 700 parceiros e apresentámos mais de 25 agentes inteligentes concebidos para ajudar as empresas a automatizar tarefas, melhorar a tomada de decisões e aumentar a produtividade.
A integração reforçou também o papel da nossa rede de parceiros, que é um dos grandes ativos da Cegid em Portugal, permitindo-nos levar a inovação mais rapidamente às empresas e acompanhá-las na adoção de novas tecnologias.
Portugal, Espanha, América Latina e África são mercados que dirige, mas que são muito diferentes. O que têm em comum e onde podem trabalhar em conjunto?
São geografias diferentes, mas as empresas destes países partilham um objetivo comum: ser mais produtivas, eficientes e competitivas. Embora o grau de maturidade digital ou o ritmo de adoção tecnológica possam variar, os desafios de fundo apontam na mesma direção.
Em Portugal e Espanha, onde as PME têm um peso particularmente relevante na economia, identificamos necessidades semelhantes em áreas como a gestão, a automatização ou o cumprimento das obrigações legais e regulamentares. Isto permite-nos aproveitar conhecimentos, experiências e inovações desenvolvidos num país para apoiar empresas de outros mercados.
Neste contexto, Portugal desempenha um papel particularmente importante pela sua capacidade tecnológica, pela proximidade aos países africanos de língua portuguesa e pelo seu contributo para a inovação dentro do Grupo.
A nossa vantagem não está apenas em operar em vários mercados, mas em ligar talento, tecnologia e boas práticas para ajudar as empresas a crescer mais rapidamente e a enfrentar com sucesso as mudanças que a economia está a atravessar.
“Portugal desempenha um papel particularmente importante pela sua capacidade tecnológica, pela proximidade aos países africanos de língua portuguesa”
Em termos de IA, as empresas portuguesas estão preparadas para tirar partido deste novo recurso tecnológico?
As empresas portuguesas estão a avançar rapidamente, mas ainda existe margem para transformar a utilização da IA em valor real para o negócio. Segundo o estudo “O momento da verdade da IA nas empresas”, realizado pela OpinionWay para a Cegid, 84% dos profissionais já utilizam inteligência artificial no seu trabalho. Além disso, 71% das empresas portuguesas disponibilizam aos seus colaboradores ferramentas de IA gratuitas, embora apenas 32% invistam em soluções premium.
Isto demonstra que a IA já está muito presente nas organizações, mas também que a sua integração estruturada nos processos empresariais ainda tem margem para evoluir. O próximo passo é avançar para uma IA contextualizada no negócio: ligada aos dados e processos de cada empresa, capaz de compreender a sua realidade e de atuar sobre ela para automatizar tarefas, antecipar necessidades e apoiar melhores decisões.
Para que este potencial se traduza em resultados, as empresas precisam de combinar soluções adaptadas à sua realidade com formação e capacitação das equipas.
“A IA já está muito presente nas organizações, mas também que a sua integração estruturada nos processos empresariais ainda tem margem para evoluir”
Quais são, na sua opinião, os principais desafios que as empresas enfrentam na adoção de IA?
Creio que o principal desafio já não é adotar inteligência artificial, mas conseguir que esta gere resultados reais. A maioria das empresas já está a experimentar esta tecnologia, como referi anteriormente, mas continua a existir uma diferença significativa entre colocar em marcha uma prova de conceito e transformá-la numa capacidade integrada que altere verdadeiramente a forma de trabalhar e gere valor para o negócio. A questão já não é saber se devemos utilizar IA, mas como a podemos escalar com impacto.
Para reduzir essa diferença, são necessários três elementos. Em primeiro lugar, definir casos de utilização concretos, ligados a objetivos de negócio claros e a resultados mensuráveis. A IA não pode ser encarada como um projeto tecnológico isolado; tem de responder a uma necessidade real, seja para melhorar a produtividade, automatizar processos ou apoiar melhores decisões.
Em segundo lugar, a integração é fundamental. As organizações obtêm muito mais valor quando a IA funciona dentro das suas aplicações de negócio, ligada aos seus dados, aos seus processos e ao seu contexto operacional. As ferramentas genéricas podem ser úteis para experimentar, mas o verdadeiro impacto surge quando a inteligência artificial passa a fazer parte do fluxo de trabalho diário e ajuda a executar processos do princípio ao fim.
Por último, está a confiança. Para que a adoção seja sustentável, as empresas precisam de garantias em matéria de segurança, proteção de dados, rastreabilidade e supervisão humana. A inovação só gera valor quando é acompanhada por controlo e por um modelo de governance adequado.
“O principal desafio já não é adotar inteligência artificial, mas conseguir que esta gere resultados reais”
Como é que a inteligência artificial está a mudar os sistemas de gestão das empresas?
A IA está a transformar os sistemas de gestão de soluções que registam e disponibilizam informação em plataformas capazes de interpretar essa informação e automatizar tarefas. Um agente de IA especializado pode, por exemplo, analisar documentos, contratos ou encomendas, gerir guias e faturas ou disponibilizar informação de inventário em tempo real e atuar em conformidade. Isto permite reduzir o tempo dedicado a tarefas repetitivas e disponibilizar mais rapidamente informação relevante para apoiar a tomada de decisões.
Na Cegid, vemos esta evolução como uma passagem dos ERP tradicionais para plataformas de negócio potenciadas por IA. O objetivo não é simplesmente acrescentar uma funcionalidade de IA ao software, mas integrar esta tecnologia nos processos de gestão e na atividade quotidiana das empresas.
Que impacto pode ter a IA na gestão de pessoas e na identificação de talento?
A IA pode ter um impacto significativo na gestão de pessoas, sobretudo ao libertar as equipas de RH de tarefas administrativas e permitir-lhes dedicar mais tempo ao desenvolvimento e à retenção de talento.
Pode também ajudar a analisar grandes volumes de informação e a identificar padrões relacionados com competências, necessidades de formação ou percursos profissionais. Isto pode apoiar as empresas na definição de planos de desenvolvimento, formação e mobilidade interna.
Mas esta é uma área em que a tecnologia deve ser utilizada com particular responsabilidade. Quando falamos de pessoas, é fundamental garantir transparência, proteção de dados e supervisão humana. A IA pode apoiar a tomada de decisões e disponibilizar informação relevante, mas a responsabilidade pelas decisões que afetam as pessoas deve continuar a caber às organizações e aos seus líderes.
“A IA pode apoiar a tomada de decisões, mas a responsabilidade pelas decisões que afetam as pessoas deve continuar a caber às organizações e aos seus líderes”
Que tendências tecnológicas considera que vão marcar os próximos anos?
Estamos perante uma mudança importante na indústria, com a evolução dos assistentes de IA para agentes capazes de executar tarefas e processos e, progressivamente, para sistemas cada vez mais autónomos.
Esta evolução irá também transformar o software de gestão empresarial. Os ERP deixarão de ser apenas sistemas onde os colaboradores introduzem e consultam informação e passarão a ser plataformas capazes de interpretar dados, identificar necessidades, recomendar ações e executar determinados processos.
Ao mesmo tempo, assistiremos a uma maior especialização da IA. Quanto mais contextualizada estiver com os dados, processos e necessidades de cada empresa, maior será o valor que pode gerar.
E haverá uma dimensão transversal que ganhará cada vez mais importância: a confiança. Segurança, proteção de dados, governance e supervisão humana serão fundamentais para que as empresas possam tirar partido da IA de forma sustentável.





