Num incêndio florestal, num acidente rodoviário ou numa ocorrência ferroviária, saber exatamente onde é necessária ajuda faz a diferença na coordenação dos meios de socorro. A informação transmitida por quem pede auxílio nem sempre é suficiente para identificar o local, sobretudo quando a ocorrência se verifica numa estrada isolada, numa área florestal ou num troço ferroviário que não se sabe muito bem onde fica. É precisamente para responder a este tipo de dificuldades que surgiu o WazePT Location, uma plataforma de geolocalização e apoio operacional desenvolvida de forma gratuita pela comunidade Waze Portugal.
Disponível como uma web app (ou aplicação web que funciona diretamente no navegador), através do endereço location.wazept.com, a ferramenta começou a ser desenvolvida em julho de 2026 por duas pessoas, de forma voluntária. Em três meses, montaram uma plataforma que suplanta em eficácia o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), como alguns operacionais que já a utilizam notam, mas que preferiram não ser citados neste artigo.

O trabalho contou com o apoio da comunidade de editores do Waze em Portugal, que há vários anos desenvolve ferramentas e disponibiliza informação geográfica para melhorar a utilização da aplicação de navegação. Ou seja, não é um produto oficial da Waze, mas é um projeto da comunidade de editores voluntários portugueses do Waze.
Embora tenha origem numa comunidade – a do Waze – associada à cartografia e à circulação rodoviária, o projeto ultrapassa em muito a mobilidade quotidiana.
A plataforma está em comunicação com os servidores da Infraestruturas de Portugal (IP) e reúne funcionalidades úteis para bombeiros, agentes de proteção civil e equipas de socorro (PSP, GNR, INEM), permitindo identificar localizações, converter coordenadas, calcular distâncias e áreas, perceber o melhor caminho para lá chegar e partilhar posições geográficas (por SMS ou WhatsApp) com outros operacionais. Tudo de forma rápida, através de tecnologia acessível.
Os criadores desta ferramenta nunca tiveram reuniões diretas com nenhuma das entidades que prestam socorro, mas foram desenvolvendo este serviço web a partir do feedback dos profissionais que trabalham nestas entidades que foram testando a App.
Os dois grandes rostos associados à divulgação do projeto são António Antunes e Jonathan Serrario, ambos membros da comunidade WazePT.

António Antunes é a figura central de coordenação e representação da comunidade, profissional da RTP que, nos tempos livres, se dedica de corpo e alma a este projeto de forma voluntária. O informático Jonathan Serrario é um dos programadores de referência no desenvolvimento de scripts e ecossistema do WazePT.
“A ideia deste projeto surgiu durante uma operação Stop nas portagens de Alverca [em março deste ano], no momento em que [como repórter de imagem da RTP, n.d.r.] acompanhava os trabalhos da GNR. Tinha vestido um polo com referência ao WazePT e o Capitão Miguel Dias Inácio [da GNR, n.d.r.] perguntou-me se eu pertencia à Comunidade Waze, ao que lhe disse que sim. Nessa conversa, ele abordou a importância dos PK [Pontos quilométricos] que indicam com precisão a posição quilométrica e de como ter acesso a essa informação no telefone lhes facilitaria muito o trabalho. Ele deixou claro que seria um projeto muito útil”, refere António Nunes.
A partir daqui, “metemos mão à obra e a aplicação foi crescendo”, explica o mentor do projeto que complementa: além “dos PK que são obtidos da base de dados da IP Infraestruturas de Portugal, adicionámos muitas mais ferramentas, à medida que falávamos com operacionais de entidades que atuam no terreno, como bombeiros, agentes da PSP, militares da GNR, técnicos da Proteção Civil e operacionais do INEM”.
António Antunes salienta que “foi um desenvolvimento que, oficialmente, não envolveu nenhuma destas entidades, mas as opiniões que recolhemos de profissionais destas entidades, que nos faziam chegar as necessidades que sentiam quando andam no terreno, permitiu chegar a esta aplicação”.
Jonathan, o informático que tem montado esta ferramenta, refere que o que o mobiliza ao fazer este trabalho de forma gratuita é prestar um serviço público: “A partir do momento em que consigo salvar uma vida e ajudar no socorro, este trabalho que tenho tido vale a pena. Para mim, é também o exemplo de uma ferramenta simples que pode fazer a diferença na prestação do socorro”.
Funciona offline
Esta web app funciona através da Internet, mas também permite a utilização offline (sem ligação à Internet), em situações em que o utilizador se encontre nas montanhas ou noutros locais remotos, sem cobertura de rede.
Nessas circunstâncias, a localização continua a ser possível através da captação dos sinais GPS emitidos pelos satélites de navegação em órbita, que permitem ao telemóvel determinar as coordenadas geográficas, independentemente da existência de Internet ou de rede móvel. Para transmitir essa informação e comunicar com terceiros, a ferramenta pode recorrer à rede móvel, através de GPRS ou, caso os serviços de dados já não estejam disponíveis, de SMS, desde que exista sinal suficiente.

“Na falta de Internet, a funcionalidade de localização está garantida na mesma, na medida em que a ferramenta utiliza o GPS do telemóvel para obter as coordenadas”, esclarece Jonathan Serrario.
“Sem Internet, para partilhar uma localização num pedido de ajuda ou para outra finalidade, pode recorrer-se ao GPRS, desde que exista cobertura de dados móveis. No entanto, quando o sinal começa a enfraquecer, o SMS é um dos últimos serviços a deixar de funcionar, por exigir muito pouca capacidade de transmissão de informação. Por exemplo, nas serras, onde a cobertura de rede é muito limitada, pode acontecer que o GPRS já não esteja disponível, mas ainda seja possível enviar SMS”, aponta António Antunes.
Este responsável do projeto acrescenta: “Equipas de bombeiros que estejam no terreno, em zonas de serra, sem comunicação por telefone ou rádio, poderão, desde que ainda exista cobertura suficiente para SMS, comunicar através de mensagens de texto curtas e transmitir coordenadas com a sua localização”.
O WazePT Location é a ferramenta gratuita criada pela Comunidade Waze Portugal que permite a localização de ocorrências com precisão.
Num vídeo dirigido especificamente aos bombeiros e disponível na sua página de Facebook, o comandante dos Bombeiros de Loures, Ricardo Correia, com quem também a Forbes Portugal conversou, elogia as funcionalidades da plataforma, explica a sua aplicação em diferentes cenários de emergência e incentiva outros profissionais a experimentá-la e a contribuir com sugestões de melhoria.
“Do ponto de vista prático, o WazePT Location é uma ferramenta informática bastante útil. A mim, é-me útil quando estou em território desconhecido, pois esta web app dá-me a indicação do concelho e da freguesia em que estou, por exemplo. Outra funcionalidade é podermos fazer a medição de uma área que, nos incêndios, é muito importante, designadamente para determinarmos os hectares ardidos. Também útil é a informação do ponto quilométrico que nos dá, tanto para a rodovia como para a ferrovia”, assinala Ricardo Correia.
Ferramenta gratuita contrasta com sistema de milhões
O surgimento desta ferramenta surge num novo contexto particularmente sensível para as comunicações de emergência em Portugal, dadas as limitações técnicas que continuam a ser apontadas ao SIRESP, a rede de comunicações do Estado, cujo funcionamento exige um investimento público anual de dezenas de milhões de euros.
A polémica em torno do SIRESP subiu de tom nas últimas semanas pelo facto de o próprio secretário-geral do Ministério da Administração Interna (SGMAI), Ricardo Carrilho, ter sido alegadamente demitido depois de ter proposto a extinção da SIRESP SA, “uma empresa pública, que se se transformou num sorvedouro de dinheiros públicos, e num intermediário burocrático de luxo”, como escreveu o próprio num artigo de opinião no Expresso.
O SIRESP é a rede de comunicações exclusiva do Estado português destinada ao comando, controlo e coordenação das comunicações em situações de emergência e segurança. Foi concebido para responder às necessidades de mais de 40.000 utilizadores e suportar anualmente mais de 35 milhões de chamadas.
A sua missão é assegurar comunicações entre os diferentes agentes envolvidos numa ocorrência, permitindo coordenar equipas e meios numa situação em que a rapidez e a fiabilidade da informação são essenciais. O sistema tem, contudo, sido alvo de críticas sucessivas e constantes há quase uma década, desde o momento em que os incêndios de junho de 2017, nomeadamente o de Pedrógão Grande, expuseram fragilidades nas comunicações de emergência.
A rede nem sempre pertenceu integralmente ao Estado. Só em 2019 é que Portugal passou a deter a totalidade do capital da empresa responsável pelo sistema. O funcionamento da rede representa um encargo anual para o Estado que varia entre 19 milhões e 26 milhões de euros, segundo afirmou Viegas Nunes, presidente da empresa que gere o SIRESP, em entrevista à agência Lusa. No próximo ano, a indemnização compensatória será de cerca de 26 milhões de euros, segundo está inscrito na proposta de Orçamento do Estado para 2027.
Ainda de acordo com as explicações dadas à Lusa por Viegas Nunes, a indemnização compensatória que todos os anos o Estado transfere para a SIRESP SA serve para pagar às seis empresas que venceram em 2022 o concurso público para a operação e manutenção do SIRESP, cerca de 11 milhões de euros, além das intervenções nas infraestruturas, manutenção da rede e despesas correntes.
A utilidade apontada pelos operacionais a esta nova web app, desenvolvida de forma gratuita e num curto espaço de tempo contrasta com os milhões de euros gastos pelo Estado numa infraestrutura que muitos insistem em considerar, há quase uma década, como problemática (o SIRESP).
O facto é que alguns operacionais ouvidos pela Forbes Portugal garantem que o SIRESP funciona mal em diversas circunstâncias: sem sinal em muitos locais e falta de equipamentos (não existem rádios para todos os operacionais).
Num posto da GNR, com cerca de 50 elementos, um dos militares que ouvimos refere que, tirando os rádios de cada comandante (um para cada), estão disponíveis apenas cinco rádios SIRESP para todos os operacionais do posto. Já a web app do WazePT Location pode estar instalada no telefone pessoal de cada um. Mediante isto, os operacionais com quem falamos assumem que preferem recorrer aos seus telemóveis particulares para comunicarem de forma não oficial, optando por utilizar ferramentas de apoio ao trabalho no terreno não oficiais, como a do WazePT Location.
Mesmo que as duas soluções não sejam iguais (o SIRESP assegura comunicações de voz e dados destinadas ao comando e coordenação de operações, enquanto o WazePT Location se concentra sobretudo na identificação geográfica, orientação e partilha de localizações), no terreno, quando é preciso dar indicação do local onde ocorreu uma emergência, operacionais que ouvimos que conhecem as duas ferramentas nem hesitam: preferem o WazePT Location, ainda que oficialmente não o possam afirmar e tenham de continuar a recorrer ao SIRESP.
Em detalhe, o que é que o WazePT Location permite?
São 10 as principais funcionalidades reunidas neste serviço:
1. Localizar uma ocorrência com precisão, mesmo fora da estrada
Ao aceder à plataforma através do telemóvel, o utilizador pode recorrer ao GPS do dispositivo para obter a sua localização atual. A ferramenta apresenta as coordenadas geográficas em diferentes formatos, bem como informação sobre a estrada, o lugar, a freguesia, o concelho e o distrito em que se encontra.
As coordenadas podem ser atualizadas à medida que o utilizador se desloca. Esta possibilidade é relevante porque uma posição GPS corresponde a um ponto concreto no espaço e deixa de representar a localização atual quando o utilizador continua em movimento.
Depois de obter a localização, é possível partilhá-la com outros elementos da equipa (por WhatsApp, por exemplo), guardá-la para utilização posterior ou abrir uma aplicação de navegação (Google Maps) para preparar o percurso até ao local.
A funcionalidade central do WazePT Location é a capacidade de identificar uma posição geográfica e transmiti-la a quem está no terreno ou precisa de enviar meios para o terreno.
A plataforma foi pensada para ser utilizada em diferentes tipos de ocorrência, desde acidentes rodoviários a incêndios florestais, passando por situações em que é necessário localizar equipas, pontos de encontro, zonas de abastecimento ou postos de comando. Esta informação é importante em situações em que o utilizador desconhece a designação exata do local.

“Nós já usamos uma app útil há muitos anos, a FEB Monitorização, que foi criada também em Portugal [desenvolvida e mantida pelo Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF) da Força Especial de Proteção Civil (FEPC) desde o ano de 2018]. Usamos bastante essa app nos incêndios rurais, mostrando-nos a localização dos meios operacionais no terreno e a área ardida. Ou seja, mostra-nos os rádios do SIRESP (onde eles se encontram) e dá-nos também as coordenadas. Agora, o que esta nova web app WazePT Location acrescenta é permitir definir o itinerário, através do Google Maps, por exemplo, para os locais onde pretendemos chegar”, afirma o bombeiro Ricardo Correia.
2. Coordenadas em diferentes formatos
Uma das características relevantes para os agentes de proteção civil é a apresentação das coordenadas em formatos distintos, ao invés do SIRESP que refere apenas um formato de coordenadas. Assim, nesta nova ferramenta, as coordenadas são apresentadas em quatro formatos — Decimal (DD, de Decimal Degrees), DMS (Degrees, Minutes, Seconds, também conhecido em português como GMS que significa Graus, Minutos e Segundos), DDM (Degrees Decimal Minutes) e UTM (WGS84) — e morada automática (ex: Loures).
Estes sistemas representam a mesma posição geográfica de formas diferentes, pelo que a possibilidade de conversão facilita a comunicação entre pessoas ou equipamentos que utilizam convenções distintas.
O formato UTM (Universal Transversa de Mercator) é, por exemplo, o utilizado pelos rádios da rede CRESAP (Canais de Rádio de Emergência e Suporte de Apoio à Proteção Civil), de acordo com a demonstração feita pelo comandante dos Bombeiros de Loures no seu vídeo no Facebook. A disponibilização deste formato facilita a utilização das coordenadas em contextos operacionais em que os profissionais estão habituados a trabalhar com essa representação que divide o mapa em quadrículas métricas (distâncias em metros e quilómetros).
A utilidade não se limita à apresentação da posição atual. O utilizador pode também introduzir coordenadas recebidas de terceiros e obter informação sobre o local correspondente, incluindo a sua localização administrativa e opções para partilhar o ponto ou preparar uma rota para lá chegar.
3. Encontrar um ponto quilométrico numa estrada ou autoestrada
Em muitas situações, quando ocorre um acidente de viação, a informação transmitida aos serviços de emergência não inclui uma morada, um nome de rua ou uma referência facilmente reconhecível. E numa autoestrada, por exemplo, a indicação do quilómetro em que ocorreu um acidente seria a referência mais útil para localizar o incidente. A questão é que nem sempre se sabe, de forma rápida, que quilómetro é esse.
O WazePT Location resolve estes problemas, disponibilizando informação sobre o ponto quilométrico (PK) em estradas e autoestradas, incluindo a identificação da concessionária responsável pela via.
A ferramenta permite selecionar a estrada ou autoestrada pretendida e introduzir o respetivo ponto quilométrico. A plataforma devolve as coordenadas geográficas correspondentes, de forma automática, permitindo ao utilizador consultar a localização e preparar uma rota.

Exemplo: em caso de acidente ou avaria numa autoestrada ou estrada nacional, indicar “estou na A1, sentido Norte-Sul, ao km 124.5” permite que o reboque, a Proteção Civil, a polícia ou o INEM cheguem muito mais rapidamente.
A ferramenta apresenta ainda a possibilidade de encaminhar o ponto para aplicações como o Waze ou o Google Maps, bem como de partilhar a informação através de serviços de mensagens.
A indicação da concessionária que gere a infraestrutura acrescenta outra informação relevante quando é necessário identificar (e contactar) a entidade responsável pela estrada.
A experiência de quem trabalha no terreno ajuda a perceber a utilidade prática do WazePT Location. Um militar da GNR que pediu para não ser identificado e que utiliza tanto esta ferramenta como o SIRESP, destaca a “fiabilidade, o nível de informação que o WazePT Location disponibiliza e a facilidade de utilização”. Na sua opinião, a plataforma “é intuitiva e permite obter, na maioria das vezes em apenas um segundo, tanto as coordenadas geográficas como a identificação da área onde se encontra”.
“Se precisar de saber em que rua estou, o SIRESP não me dá essa informação”, declara este operacional que pediu anonimato.
Um dos exemplos mais claros apontados por este operacional surge nos acidentes rodoviários: “Para identificar o quilómetro exato em que ocorreu um acidente, os militares recorrem frequentemente aos marcos quilométricos colocados na berma da estrada. O problema é que alguns foram destruídos e nunca chegaram a ser repostos, dificultando a localização precisa da ocorrência. Com esta ferramenta, conseguimos saber com precisão em que quilómetro nos encontramos e qual é a concessionária responsável pela via, mesmo que não exista um marco quilométrico na estrada”, explica. É uma funcionalidade que pode poupar tempo na identificação do local e facilitar a transmissão da informação às equipas envolvidas na resposta à ocorrência.
4. Rede ferroviária também está contemplada
A identificação de ocorrências ferroviárias pode apresentar dificuldades semelhantes ou até maiores, pois os pontos de referência utilizados pelos serviços ferroviários nem sempre são familiares para quem está a responder à emergência.
Uma comunicação que indique um ponto quilométrico numa determinada linha de comboio pode ser difícil de converter numa localização geográfica sem ferramentas adequadas. O WazePT Location simplifica esse processo através de uma funcionalidade dedicada às linhas ferroviárias.
O WazePT Location também tem uma funcionalidade dedicada às linhas ferroviárias.
O utilizador seleciona a linha em causa, introduz o quilómetro indicado na informação da ocorrência e solicita as coordenadas. A plataforma apresenta a posição geográfica associada ao ponto e disponibiliza opções para a partilhar ou preparar uma deslocação até à zona identificada.
5. Explorar o mapa e identificar pontos que não estão assinalados
Nem todas as ocorrências podem ser facilmente localizadas através de uma morada, de um ponto quilométrico ou de coordenadas previamente conhecidas. Por vezes, um operacional consegue observar um foco de incêndio, um reacendimento ou outro elemento relevante, mas não dispõe de uma referência geográfica precisa para o transmitir aos restantes meios.
Para responder a este cenário, o WazePT Location disponibiliza uma funcionalidade de exploração do mapa.

O utilizador pode deslocar-se virtualmente pelo território, através do mapa, e selecionar um ponto específico, mesmo que não corresponda à sua localização atual. Depois de marcar o local pretendido (colocar uma espécie de “Pin” ou “alfinete”), pode obter as coordenadas geográficas, consultar a informação associada e copiar ou enviar para alguém os dados.
A funcionalidade permite, por exemplo, que um operacional identifique visualmente um ponto no horizonte e transmita a localização estimada a quem coordena a ocorrência, incluindo ao comandante das operações de socorro.
Mais uma vez, o ponto selecionado pode também ser encaminhado para uma aplicação de navegação, permitindo preparar rapidamente um percurso até à zona identificada.
6. Guardar posições estratégicas para voltar a utilizá-las
O trabalho das equipas de emergência nem sempre termina quando uma ocorrência é resolvida. Em operações prolongadas, especialmente em incêndios florestais ou em situações que envolvem equipas deslocadas para fora da sua área habitual, pode ser necessário regressar repetidamente a determinados locais.
O WazePT Location permite guardar posições geográficas para utilização posterior, sejam zonas de estradas cortadas, locais de abastecimento, postos de comando, locais de encontro ou outros pontos considerados relevantes para a operação.
O objetivo é garantir localizações precisas, o que é especialmente valioso para operacionais vindos, muitas vezes, de outros locais do país e que desconhecem os terrenos que pisam.
Depois de guardada uma posição, o utilizador pode recuperá-la através da lista de locais guardados e utilizar as opções disponíveis para preparar uma rota através do Waze ou do Google Maps.
A gestão de posições pode também ajudar os utilizadores a organizar informação sobre zonas desconhecidas, sobretudo quando estão a trabalhar fora do território que conhecem melhor.
Esta funcionalidade de guardar posições no mapa evita que esses pontos não dependam da capacidade de memorização dos operacionais (cujas indicações podem ser tão vagas quanto “era ao pé de um eucalipto” ou “ficava ao lado de um poste de iluminação inclinado” ou “era junto de um sinal de trânsito caído”). Outro benefício de guardar uma determinada localização é a de evitar que uma localização identificada durante uma operação tenha de ser novamente procurada ou reconstruída quando for necessário regressar ao mesmo ponto.
7. Navegação por coordenadas e orientação através de bússola
Uma das funcionalidades mais relevantes para contextos rurais ou florestais é a possibilidade de utilizar coordenadas geográficas para orientar uma deslocação.
O utilizador introduz as coordenadas do destino e a plataforma indica a direção em que esse ponto se encontra e a distância que o separa da posição atual. A informação pode ser acompanhada por uma representação no mapa e por uma bússola que ajuda a manter a orientação.
Esta ferramenta pode ser providencial quando um operacional recebe a localização de um colega que necessita de assistência, mas o ponto não corresponde a uma estrada ou a um acesso reconhecido pelas aplicações de navegação convencionais.

Em zonas de floresta, caminhos rurais ou terrenos onde não existe uma via diretamente utilizável, saber a direção e a distância até ao destino pode constituir uma referência adicional para a equipa.
A bússola e a distância não substituem o reconhecimento do terreno nem garantem um percurso transitável. Obstáculos naturais, declives, linhas de água, vegetação ou outras condições podem impedir uma deslocação em linha direta. Ainda assim, a informação geográfica pode ajudar a orientar o utilizador e a reduzir a incerteza sobre a posição do destino.
8. Medir áreas e distâncias, incluindo zonas ardidas
A plataforma inclui também mais-valias para medição geográfica que podem ser utilizadas para calcular distâncias e delimitar áreas.
No caso da medição de uma superfície, o utilizador pode percorrer o perímetro da zona que pretende registar, permitindo que a ferramenta recolha os pontos necessários para determinar a área total.
Por exemplo, a medição de uma área ardida. Em contexto de incêndio florestal, esta funcionalidade ajuda a representar geograficamente uma superfície e a guardar informação que poderá ser consultada posteriormente.

Quando a medição termina, o utilizador pode rever e editar manualmente os pontos, corrigindo eventuais imprecisões. A área pode depois ser guardada para consulta futura.
A possibilidade de exportar os pontos em formato KML acrescenta outra dimensão à funcionalidade. Este formato permite transportar informação geográfica para outras ferramentas compatíveis, incluindo o Google Earth, onde a área delimitada pode ser visualizada e analisada.
A medição pode, assim, servir como apoio ao registo de áreas, à representação de perímetros e à organização de informação geográfica sobre uma ocorrência.
9. SOS de emergência: enviar a localização por SMS sem internet
Entre as funcionalidades da plataforma, o serviço SOS de emergência destaca-se. Foi concebido para situações em que o acesso à internet móvel não está disponível.
O utilizador pode configurar previamente os contactos telefónicos que pretende notificar numa emergência. Esses destinatários podem ser familiares ou pessoas de confiança, mas, no contexto operacional, a funcionalidade também pode ser preparada para “disparar” para os contactos relevantes para o trabalho de uma equipa, de acordo com os procedimentos e as regras aplicáveis.
Quando é necessário pedir ajuda, o utilizador mantém pressionado o botão SOS durante cerca de dois segundos. A plataforma prepara uma mensagem com a informação de localização e abre a aplicação de mensagens do telemóvel, permitindo enviar o SMS para o destinatário configurado.
A principal vantagem é que o envio não depende de uma ligação de dados móveis. Se existir cobertura da rede celular para SMS, o utilizador poderá transmitir a mensagem mesmo quando não consegue aceder à internet.
O SOS procura reduzir o número de passos necessários para comunicar uma emergência. Em vez de ter de identificar manualmente as coordenadas, copiá-las e construir uma mensagem, o utilizador pode recorrer a um procedimento previamente configurado.
A funcionalidade pode ser especialmente relevante em zonas remotas ou em situações em que o acesso à internet é intermitente.
“Depois de eu ter feito e partilhado no Facebook o vídeo em que eu demonstro o funcionamento do WazePT Location, curiosamente, tive reações positivas também de civis que, especialmente, se interessaram pelo ‘botão SOS’ que a ferramenta disponibiliza”, indica o comandante dos bombeiros de Loures, Ricardo Correia.
10. Informação geográfica ligada a aplicações de mensagens e de navegação
O WazePT Location permite copiar e partilhar localizações, bem como encaminhar pontos para aplicações de navegação como o Waze e o Google Maps.
Esta integração pode ser utilizada em diferentes momentos de uma ocorrência. Um operacional pode identificar o ponto onde se encontra, guardar a posição, enviá-la a um colega ou preparar um percurso até ao local indicado por outra equipa.
As opções de partilha permitem também utilizar os serviços de mensagens disponíveis no dispositivo, incluindo aplicações como o WhatsApp ou o Messenger, conforme as opções suportadas pelo telemóvel.

Neste ponto, a diferença entre esta ferramenta e o SIRESP é realçada por um elemento da GNR, sob anonimato: “O SIRESP dá-nos, basicamente, comunicação de voz por rádio. Apesar do equipamento nos dar as coordenadas, elas são-nos apresentadas num único formato, o DDM. Depois, tenho de as apontar num papel, memorizá-las ou tirar uma fotografia para depois as transmitir a alguém”.

Com o WazePT Location, o processo é substancialmente mais simples, clarifica este militar: “A plataforma disponibiliza as coordenadas em diferentes formatos e permite copiá-las e enviá-las facilmente por SMS ou WhatsApp. Além da localização geográfica, fornece informação adicional sobre o local, facilitando a identificação da posição e a sua transmissão a outros elementos”, algo que facilita “imenso as tarefas concretas do trabalho operacional”.
“Um bom exemplo”
O desenvolvimento do WazePT Location não elimina a necessidade de investir numa rede de comunicação por rádio ou voz para assegurar a comunicação entre milhares de profissionais e entidades. De resto, os próprios promotores do WazePT Location não pretendem substituir-se ao SIRESP. Mas, ao resolver inúmeras carências do SIRESP, o projeto coloca ainda mais a nu as fragilidades do atual sistema.

Um elemento da GNR ouvido pela Forbes Portugal sublinha que esta nova Web app “é um bom exemplo de como com pouco se consegue fazer muito, com utilidade para muita gente”, rematando que, muitas vezes, só usam o SIRESP porque são obrigados a tal.
António Antunes refere que, até agora, nunca fizeram uma apresentação do projeto a entidades: “Nunca o fizemos de forma oficial, até porque era uma ferramenta ainda em teste. Fomos melhorando e desenvolvendo com o feedback e necessidades de terreno que nos chegavam. A informação sobre esta ferramenta e a sua divulgação têm passado boca a boca por quem utiliza a versão aberta”.
WazePT Location mostra como o conhecimento acumulado numa comunidade de voluntários pode ser aplicado a um problema de interesse público.
O comandante dos bombeiros Ricardo Correia entende que, “neste momento, o WazePT Location precisa de transitar para as lojas das apps, da Google e da Apple, pois se não estiver presente nessas lojas pode afastar utilizadores”.
António Antunes adianta que está pensado esse passo para alojar a ferramenta nas lojas oficiais da Apple e Google para poder ser descarregada por iPhones e telemóveis com sistema operativo Android: “Se for integrada nas lojas de aplicações App Store e Google Play, faremos uma apresentação oficial”, admite.
Nesse cenário, o provável é que venha a ser disponibilizada uma versão paga com um valor simbólico para os operacionais (que teria todas as funcionalidades e com o pagamento a ser necessário para suportar custos de loja, desenvolvimento e impostos com o alojamento na App Store e na Google Play) e outra não paga (para o público em geral, com menos funcionalidades profissionais, mas as principais garantidas como a do botão de emergência e a da localização dos locais com coordenadas que “irá facilitar todo o processo de socorro na identificação imediata do local”, sublinha António Antunes).
O projeto continua a ser melhorado por estes voluntários. Em cima da mesa está a ser analisada a integração de novas ferramentas de apoio ao socorro em emergência, embora, neste momento, a equipa ainda prefira guardar segredo sobre esses futuros desenvolvimentos, dada a sua complexidade. Todavia, para António Antunes e restante equipa de desenvolvimento, “o impossível tem sido sempre aquela barreira que nos desafia a ir mais além”.







