O mercado editorial português tem uma nova protagonista. Chama-se Monstro, é uma editora literária independente fundada por Ricardo Leitão e Teresa Esgaio e chega com uma ambição assumida: publicar livros que desafiem convenções, despertem curiosidade e não se deixem limitar por categorias ou fórmulas comerciais. A apresentação oficial aconteceu a 29 de outubro, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, e ficou marcada pelo lançamento de “Acrobata”, livro de poesia da autora brasileira Alice Sant’Anna, apresentado por Anabela Mota Ribeiro.
Mais do que acrescentar um novo nome ao panorama editorial, a Monstro pretende afirmar uma forma diferente de olhar para a edição de livros. O catálogo deverá abranger poesia, ficção, ensaio e outras obras que os fundadores descrevem como “monstruosidades difíceis de catalogar”. A prioridade será a qualidade literária e a liberdade de escolha, sem que as decisões editoriais estejam subordinadas a critérios de rentabilidade comercial.
O catálogo deverá abranger poesia, ficção, ensaio e outras obras que os fundadores descrevem como “monstruosidades difíceis de catalogar”.
“Sentimos que há, no campo literário, uma segmentação rígida dos estilos, principalmente em Portugal, e casos há em que a obra não se encaixa num estilo predefinido, é um monstro de algum modo”, explica Teresa Esgaio, cofundadora da editora. Na sua perspetiva, essa dificuldade de classificação acaba por afastar determinadas obras das livrarias, por serem consideradas confusas ou pouco vendáveis.
“Esse tipo de mistura literária, por não ser óbvia, fica fora das livrarias porque crê-se ser confusa, não vendável, quando muitas vezes reflete apenas originalidade, modernidade, liberdade criativa, provocação, génio. Nós queremos esses monstros à solta nas livrarias, prontos para atacar leitores que gostam de se surpreender”, acrescenta.

A ideia que deu origem à Monstro começou a ganhar forma a partir de uma biblioteca herdada pela família de Ricardo Leitão. Entre os livros encontravam-se títulos esquecidos e obras de qualidade que, apesar do seu valor, tinham deixado de encontrar espaço ou visibilidade. A descoberta dessas pequenas relíquias despertou a vontade de recuperar livros e, simultaneamente, criar oportunidades para outras obras que dificilmente chegariam ao mercado através dos circuitos editoriais mais convencionais.
A ligação a Jorge Reis-Sá, que assumiu o papel de consultor editorial, ajudou a transformar essa vontade num projeto concreto. O seu contributo passa pelo aconselhamento e pelo conhecimento do setor, mas a escolha dos títulos continua a pertencer aos dois fundadores.
Ricardo Leitão defende que a Monstro parte também de uma visão diferente dos leitores e da sua capacidade de descobrir literatura fora dos formatos mais previsíveis. “A Monstro é uma editora em que o único critério editorial é o nosso apetite, aquilo que consideramos pertinente trazer aos leitores”, afirma.

O fundador considera que existe uma tendência para subestimar o público, partindo do princípio de que os leitores procuram sobretudo narrativas simples e facilmente reconhecíveis. “Temos uma visão otimista dos leitores, parece-nos que há por vezes uma desvalorização do leitor, a ideia que são preguiçosos, só os romances mais básicos são aceites e vendem”, observa.
“Estamos cá para convidar todas as pessoas a ler outras coisas, a pensar, a sentir, a duvidar, a refletir”
Para Ricardo Leitão, esta perceção, conjugada com a pressão comercial, acaba por limitar a diversidade e a exigência da oferta disponível nas livrarias. “Esta visão de um leitor preguiçoso, aliada à ganância comercial, acaba por baixar a fasquia intelectual das obras que chegam às livrarias, como dizia um amigo sábio editor – ‘Os maus livros tiram os bons livros das livrarias’. Estamos cá para convidar todas as pessoas a ler outras coisas, a pensar, a sentir, a duvidar, a refletir”, sublinha.
Apresentação física dos livros
A ambição de construir uma identidade própria estende-se também à apresentação física dos livros. A identidade gráfica da Monstro foi desenvolvida por Inês Cox, designer reconhecida pelo trabalho nas áreas da tipografia e do design editorial. As publicações terão uma linha visual coerente, assente na sobriedade, na elegância e na valorização da leitura.
A escolha dos materiais, do papel à tipografia, faz parte dessa preocupação com o livro enquanto objeto. A intenção é criar uma coleção visualmente reconhecível, sem que o design procure antecipar ou condicionar a interpretação do conteúdo.
Primeiro lançamento
O primeiro lançamento, “Acrobata”, de Alice Sant’Anna, dá início a um catálogo que pretende combinar literatura portuguesa com obras internacionais traduzidas. A escolha da poesia para a estreia é também um sinal da abertura editorial que a Monstro quer assumir desde o primeiro momento.

Num setor em que a visibilidade comercial e a categorização dos géneros podem determinar o percurso de uma obra, a nova editora propõe-se recuperar espaço para a surpresa e para a experimentação. A Monstro chega, assim, com uma convicção que pretende transformar em princípio editorial: há livros que não cabem em nenhuma categoria e leitores que continuam disponíveis para serem surpreendidos.





