A revista Forbes Portugal acaba de lançar, na edição em papel que está agora em banca, a sua lista anual que destaca as mulheres portuguesas Mais Poderosas no mundo dos negócios. Tal como já aconteceu em 2024, o ranking deste ano foi novamente organizado por 11 categorias, correspondentes aos vários setores de atividade em que atuam. Este ano, a investigadora Maria Manuel Dias Mota ocupa a terceira posição da categoria de Saúde do ranking anual da Forbes Portugal, com uma avaliação global de 65 pontos, tendo sido destacada com uma das duas capas da edição em papel. Esta categoria é liderada por Isabel Vaz, CEO do Grupo Luz Saúde.
Maria Manuel Dias Mota, 55 anos, é uma conceituada cientista portuguesa que dedicou a sua vida ao estudo da malária. Licenciada em Biologia, mestre em Imunologia e com um doutoramento em Parasitologia Molecular, é atualmente CEO do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), que nasceu da fusão do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) em 2023. Em entrevista à Forbes Portugal, a cientista diz: “Quando nascemos, começamos a correr uma maratona. O problema é que alguns têm pesos nos tornozelos. E nós, mulheres, como é assim desde o início, não sentimos que lá estejam. Mas estão”. Maria Manuel acredita que pouco mudou nos últimos anos no que diz respeito à liderança feminina. No caso particular do instituto que lidera, em que 60% dos colaboradores são mulheres, são ainda muito poucas aquelas que são group leaders. “E dizem-me: mas tu que estás a liderar, podes mudar isso. E eu respondo: não vou escolher uma mulher apenas porque é mulher. Mas, em caso de igualdade, vou escolher uma mulher. Mas, primeiro, as mulheres têm de querer. Mas são demasiado exigentes com elas próprias, e isto é algo que resulta na nossa educação e que está imbuído em toda a sociedade”.
Com uma avaliação total de 65 pontos, a bióloga e investigadora Maria Manuel Mota, ocupa a terceira posição da categoria de Saúde do ranking de 2026 da Forbes Portugal.
A investigadora refere, a propósito das lideranças femininas, que apesar do muito que já foi feito, muito ainda está por fazer. De facto, olhado para os números da Unesco, divulgados no estudo “Status And Trends of Women in Science”, de 2025, no que diz respeito às mulheres nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), estas continuam ainda sub-representadas, com uma fatia de 35% dos graduados e de apenas 33% dos investigadores a nível mundial. E quando chegamos ao tema da liderança, os números pioram. Segundo a Unesco, o défice de mulheres na liderança é grande: estima-se que, nas STEM, apenas um em cada 10 cargos de liderança seja ocupado por mulheres.
Maria Manuel Mota refere que as mulheres ainda sentem um peso invisível sobre o seu papel na sociedade e que por vezes não lhes permite candidatarem-se a certas posições. “Não posso ter, só porque sou mulher e lidero, group leaders mulheres. Tenho de ter uma sociedade que quer que isso aconteça, que elas sintam que devem candidatar-se. Tenho é de ter obviamente, o cuidado de ter júris que sejam justos e que escolhem os melhores”, explica. Há ainda um papel muito ligado à mulher, o da responsabilidade em cuidar da família, que carrega culpa, uma culpa que não é inata, mas fruto da educação, fruto da sociedade.
A cientista nasceu em Vila Nova de Gaia, em abril de 1971, tendo optado, a nível académico, pelo curso de Biologia. Depressa percebeu que não era bem aquilo que queria fazer, porque gostava de microbiologia, mas não de macrobiologia. “Nessa altura pensei em ir para uma parte mais científica, ainda sem perceber exatamente o que isso significava. Surgiu então a oportunidade de fazer um mestrado de Imunologia com a professora Maria de Sousa, uma imunologista que tinha chegado de Nova Iorque, e, eu pensei: é isto mesmo que eu vou tentar fazer”. Durante nove meses, teve aulas com cientistas oriundos do mundo inteiro, e foi aí que começou a crescer como pessoa, com essa diversidade. Mas continuava sem saber o que queria fazer. “Quando vim para Lisboa fazer um curso sobre parasitas e vi uma fotografia de um parasita dentro de uma célula humana, a viver dentro dela – sendo que a célula humana era um macrófago, que foi desenhada para matar organismos estranhos, logo, devia ser desenhada para o matar, mas, no fundo, a evolução fez com que eles se adaptassem a viver juntos – eu percebi: é isto que quero fazer”, recorda. Conheceu também um cientista na área da malária, que a fascinou, tendo então decidido que queria investigar esta doença. “A minha vida é sempre feita de decisões que têm por base alguma coisa me fascina. As pessoas com quem trabalho têm de exercer fascínio e de me inspirar de alguma forma”, diz.
“Sou muito levada pela minha curiosidade, mais até do que propriamente pelo espírito de missão”, assume a cientista.
Voltando à questão do papel da mulher na sociedade, Maria Manuel assume que o retrocesso que estamos a sentir é enorme. E recorda uma entrevista da jurista Leonor Caldeira, num recente podcast do jornal Público, com a qual se identifica: quando damos a um homem o poder de nos alimentar, também damos o poder de nos esfomear. “Eu sou de uma geração em que nem sequer achávamos que podíamos dar o direito a um homem de nos alimentar. Isso já tinha acontecido antes da minha geração, mas na minha não conheço ninguém que achasse que devia ficar dependente de um homem. Agora está a voltar outra vez a esta ideia, com influencers americanos que estão a difundir coisas do tipo stay at home girlfriend”. E acrescenta: “não temos que ser iguais aos homens, de todo, nunca pretendi ser igual a nenhum homem, mas é ridículo pensarmos que vamos dar o direito a alguém de nos alimentar”.
A metodologia aplicada nas avaliações da Forbes Portugal
O ranking das mulheres portuguesas com mais poder nos negócios, dentro e fora de fronteiras, é elaborado com base numa avaliação de centenas de empresas e instituições, das quais são retirados e avaliados mais de 150 nomes de CEO, diretoras-gerais, administradoras, acionistas e empreendedoras.
A avaliação é feita com base em cinco critérios, pontuados de zero a 20, obtendo-se assim uma pontuação final para cada nome analisado. A Forbes avaliou e pontuou estes nomes pela Fortuna, pessoal ou familiar; pelo Poder de Decisão – se é CEO, presidente do Conselho de Administração, administradora ou acionista -, Poder de Influência, ou seja a sua projeção fora da empresa, seja em programas de responsabilidade social e cívica em que se envolve, seja associações em que participa, artigos que escreve e participação ativa nas redes sociais (sobretudo Linkedin); pela Dimensão do negócio – se são grandes negócios internacionais, em que países estão presentes, qual a área geográfica de ação; e pelo seu Empreendedorismo, se apenas fez carreira numa área, ou se envolveu na criação de empresa, etc.
A avaliação da Forbes Portugal é feita com base em cinco critérios ou dimensões, pontuados de zero a 20, obtendo-se assim uma pontuação final para cada nome analisado.
Tal como a lista de 2024, também este ano o ranking foi organizado por setores de atividade. Depois de pontuados, os nomes foram organizados por 11 categorias entrando na lista apenas as cinco primeiras de cada categoria. Nas categorias com mais elementos, como a da Banca, Finanças e Investimento e a de Indústria, as duas com mais nomes analisados, ficaram inúmeras mulheres bem pontuados de fora, com pontuações mais elevadas do que as primeiras cinco de outras categorias.





