O que “A Odisseia” nos ensina sobre investir em bolsa

A história de Ulisses e das sereias atravessa séculos, mas continua a oferecer lições relevantes — até para quem investe nos mercados financeiros. Liam Nunn, diretor de investigação e gestor de fundos da Schroders, estabelece um paralelo entre a tentação de escutar o canto das sereias e a pressão para investir em empresas cujas avaliações…
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Liam Nunn, diretor de investigação e gestor de fundos da Schroders, recorre à epopeia de Ulisses para explicar por que razão a disciplina na avaliação das ações é fundamental para evitar os riscos de pagar demasiado por uma promessa de crescimento.
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A história de Ulisses e das sereias atravessa séculos, mas continua a oferecer lições relevantes — até para quem investe nos mercados financeiros. Liam Nunn, diretor de investigação e gestor de fundos da Schroders, estabelece um paralelo entre a tentação de escutar o canto das sereias e a pressão para investir em empresas cujas avaliações bolsistas parecem ignorar os riscos. A inteligência artificial é um dos exemplos atuais desta dinâmica.

O canto das sereias da bolsa

No regresso da Guerra de Troia, Ulisses é avisado de que o canto das sereias é irresistível para os marinheiros, levando-os a desviar as embarcações da rota e a naufragar. Quer ouvir esse canto, mas sabe que não poderá confiar na própria capacidade de resistir. Por isso, pede aos companheiros que lhe tapem os ouvidos e o amarrem ao mastro, dando-lhes instruções para apertarem ainda mais as cordas caso, mais tarde, lhes peça para o libertarem.

Liam Nunn, da Schroders.

Para Liam Nunn, esta passagem da obra clássica oferece uma analogia particularmente pertinente com o comportamento dos investidores. “O mercado bolsista está cheio de cantos de sereia”, aponta o responsável da Schroders. “Cada ciclo de investimento produz histórias maravilhosas sobre o futuro: novas tecnologias revolucionárias, enormes mercados por explorar, empresas excecionais, crescimento estrutural e vantagens competitivas aparentemente intransponíveis.”

O problema, sublinha, não é necessariamente a falta de fundamento destas narrativas. Pelo contrário, é precisamente a existência de uma base real que as torna tão convincentes. “As narrativas de investimento mais perigosas raramente são fantasias completas”, observa.

Muitas começam com uma boa empresa, uma inovação tecnológica promissora ou uma oportunidade de crescimento atrativa. Gradualmente, porém, podem transformar-se na convicção de que “vale a pena pagar praticamente qualquer preço” para participar nessa oportunidade.

É neste ponto que, na perspetiva do gestor, a capacidade de avaliar uma empresa de forma racional se torna decisiva. Uma boa história não é, por si só, garantia de um bom investimento. Mesmo uma empresa com perspetivas de crescimento excecionais pode revelar-se um investimento dececionante se o preço pago pelas suas ações for demasiado elevado.

Amarrar-se ao mastro: a importância da margem de segurança

A solução de Ulisses passa por antecipar a tentação e criar um mecanismo que o impeça de ceder quando chegar o momento. Em vez de confiar apenas na força de vontade, estabelece antecipadamente um limite à sua própria liberdade de ação: “Ulisses compreendeu uma importante lição sobre a psicologia humana: saber que algo é perigoso não significa que sejamos capazes de lhe resistir quando a tentação aparece”, escreve Liam Nunn.

Segundo este analista, o momento em que essa restrição é definida é fundamental. Afirma Nunn que quando as sereias começam a cantar, a capacidade de julgamento já pode estar comprometida. No investimento, o mesmo acontece quando o entusiasmo em torno de uma empresa ou tecnologia leva os investidores a relativizar os critérios que habitualmente orientam as suas decisões.

É aqui que entra o investimento “value”, ou investimento em valor, uma abordagem que procura identificar ativos cujo preço de mercado não reflete adequadamente o seu valor. Na interpretação de Nunn, esta filosofia implica estabelecer limites antes de tomar uma decisão: “No seu âmago, o investimento em valor é uma forma semelhante de pré-compromisso”, explica. Em vez de partir de uma visão entusiasmante do futuro e procurar argumentos que justifiquem o preço que se está disposto a pagar, o investidor deve “amarrar-se ao mastro”, exigindo uma margem de segurança.

Em termos práticos, explica este especialista, isso significa procurar investimentos cujo valor possa ser sustentado por elementos concretos e demonstráveis, como a capacidade comprovada de gerar resultados, os fluxos de caixa ou os ativos tangíveis inscritos no balanço de uma empresa. A ideia não é ignorar o futuro: “O futuro é sempre extremamente importante”, reconhece o responsável da Schroders. O objetivo é evitar que a rentabilidade de um investimento dependa exclusivamente da concretização de um cenário futuro especulativo — e, muitas vezes, excessivamente otimista.

Para ilustrar este princípio, Liam Nunn recupera uma ideia de Benjamin Graham, uma das principais referências históricas do investimento em valor: “A função da margem de segurança consiste, essencialmente, em tornar desnecessária uma visão exata do futuro”. Por outras palavras, o investidor não precisa de prever todos os acontecimentos com precisão se comprar com uma margem suficiente entre o preço pago e o valor que considera justificável. Essa margem não elimina o risco, mas pode ajudar a proteger o capital contra erros de avaliação ou expectativas que não se concretizam.

Quando a disciplina parece um obstáculo

Manter esta abordagem nem sempre é fácil, assume este analista, sobretudo quando as empresas mais valorizadas do mercado apresentam rendibilidades extraordinárias e os investidores que optaram por ficar de fora começam a sentir que estão a perder oportunidades: “Quando as empresas de crescimento com avaliações elevadas proporcionam rendibilidades espetaculares, pode ser genuinamente doloroso ficar de fora”, admite Nunn.

É nesses períodos – diz o analista – que surgem argumentos para defender que os critérios tradicionais de avaliação já não são tão relevantes como antes. No final da década de 1990, recorda, a narrativa dominante era a Internet. Noutros períodos, foram o crescimento dos mercados emergentes ou as taxas de juro extremamente baixas a alimentar o entusiasmo dos investidores. Hoje, essa função é desempenhada, em larga medida, pela inteligência artificial.

A tecnologia representa uma transformação com potencial para alterar profundamente setores, modelos de negócio e níveis de produtividade. Mas, para o gestor, reconhecer esse potencial não significa aceitar qualquer avaliação bolsista: “As manchetes e os detalhes mudam, mas a tentação comportamental é sempre a mesma”, observa. E quanto mais tempo os ativos caros continuarem a apresentar um desempenho superior, maior será a pressão para flexibilizar os critérios de investimento. O processo – diz – tende a ser gradual. “Primeiro, pagar um pouco mais por um crescimento fiável parece um compromisso sensato. Depois, pagar substancialmente mais começa a parecer razoável, tendo em conta o caráter excecional da oportunidade”, descreve. Até que, por fim, questionar a importância do preço pago pode começar a parecer uma atitude ultrapassada, destaca Nunn. É precisamente por isso que Ulisses não se limitou a pedir que o amarrassem ao mastro. Deu também instruções para que os companheiros apertassem as cordas caso tentasse libertar-se, aponta o consultor: “O momento em que a disciplina de avaliação parece mais frustrante é, muitas vezes, aquele em que ela é realmente mais importante.”

Ouvir as sereias sem seguir o seu canto

Nunn salienta ainda outra analogia entre a história de Ulisses e a abordagem defendida pela Schroders. O herói não tapa os próprios ouvidos: quer ouvir o canto das sereias, mesmo sabendo que não deve ceder-lhe. Da mesma forma, o investimento em valor não exige ignorar a inovação tecnológica ou rejeitar, à partida, a possibilidade de o futuro ser diferente do passado.

“O investimento em valor não exige que ignoremos as forças da mudança tecnológica”, esclarece o gestor. Pelo contrário, compreender as transformações estruturais é essencial para avaliar tanto as oportunidades como os riscos que estas representam para as empresas.

O objetivo não é, portanto, fechar os olhos à inovação ou refugiar-se em modelos económicos do passado. É distinguir entre reconhecer o potencial de uma transformação e aceitar que esse potencial justifica qualquer preço: “Não queremos fechar os ouvidos nem viver na negação da mudança disruptiva”, escreve. “Mas queremos evitar ser atraídos para os rochedos pelo canto das sereias de que ‘desta vez é diferente’.”

Esta distinção é especialmente relevante num contexto em que as expectativas sobre novas tecnologias podem alterar rapidamente a perceção do valor de uma empresa, refere. Uma oportunidade real de crescimento não elimina a necessidade de avaliar quanto desse crescimento já está refletido no preço das ações.

Manter o rumo quando o mercado se entusiasma

Para Liam Nunn, os mercados continuarão a produzir histórias capazes de despertar o entusiasmo dos investidores. Haverá sempre uma empresa, uma tecnologia ou um momento histórico apresentado como excecional, com potencial para desafiar as probabilidades e reescrever as regras do investimento. A questão é saber como reagir a essas narrativas sem abandonar os critérios que sustentam uma estratégia de longo prazo.

Nunn sustenta que a história dos mercados reforça a importância desta cautela: “Quando o canto das sereias é mais tentador, esse é, geralmente, o pior momento possível para desatar as cordas.”

Embora nem sempre fácil de aplicar, o conselho dado por Liam Nunn é o de que investir não consiste apenas em identificar boas empresas ou antecipar tendências promissoras. Implica também avaliar o preço a pagar, reconhecer a incerteza e resistir à pressão para seguir o entusiasmo dominante.

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