Portugal está a ganhar importância na estratégia económica dos Estados Unidos para a Europa. Durante a visita oficial a Lisboa, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, destacou a posição geográfica e os recursos do país como fatores que podem reforçar o comércio bilateral e facilitar a entrada de tecnologia norte-americana no mercado europeu: “Portugal desempenha um papel fundamental na promoção do comércio dos EUA e na entrega de tecnologia americana ao continente europeu e além”, afirmou Rubio, numa conferência de imprensa conjunta com o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel.
O responsável norte-americano apontou os cabos submarinos, a energia acessível, as reservas de minerais críticos e os centros de dados em hiperescala como algumas das principais vantagens de Portugal. Em conjunto, considerou, estes fatores fazem do país “a porta ideal, do ponto de vista geográfico e económico, para as empresas tecnológicas americanas entrarem na Europa”.
A declaração surge num momento em que Lisboa e Washington procuram aprofundar uma relação económica que já tem uma expressão significativa. Segundo Rubio, no ano passado, empresários norte-americanos investiram mais de 20 mil milhões de dólares (17,9 mil milhões de euros) em Portugal, enquanto as empresas portuguesas investiram mais de 2 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros) nos Estados Unidos.
“Isso só vai crescer e temos ideias sobre como vai continuar a crescer”, afirmou o secretário de Estado norte-americano, acrescentando que os dois governos vão continuar a trabalhar nos caminhos necessários para futuros investimentos em “indústrias críticas”, incluindo a superinteligência, o setor aeroespacial e a defesa.
Para Rubio, o aprofundamento da relação económica não deverá limitar-se ao crescimento do comércio e do investimento. A diversificação das cadeias de abastecimento e a redução de dependências externas assumem também uma dimensão de segurança económica: “Há um desejo da nossa parte, como penso que há da parte de muitos países, de diversificar de onde obtemos as coisas, sejam minerais críticos ou tecnologias-chave”, explicou.
O secretário de Estado norte-americano deixou ainda um alerta sobre a concentração excessiva de dependências. “Não é bom para nenhum país depender de qualquer país para 95% de qualquer coisa”, afirmou, defendendo maior diversidade nas fontes de fornecimento, sobretudo em áreas consideradas estratégicas.
Cabos submarinos ganham importância estratégica
Entre os ativos portugueses destacados por Rubio estão os cabos submarinos, uma infraestrutura invisível mas essencial para as comunicações e para a economia digital global. Portugal é um importante ponto de entrada de cabos que ligam a Europa à América do Norte, uma característica que ganha particular relevância num contexto de crescente preocupação com a segurança das infraestruturas críticas: “É algo em que as pessoas não pensam muito porque não se veem, mas os cabos submarinos estão cada vez mais ameaçados em todo o mundo por atores mal-intencionados que tentam aceder a eles e cortá-los em tempos de conflito ou até como ponto de pressão”, afirmou Rubio.
Paulo Rangel confirmou que a segurança destas infraestruturas está entre as principais preocupações nas conversações com os aliados: “Não há reunião em que este assunto não esteja sempre na agenda. É uma das nossas grandes preocupações, justamente porque nós somos uma porta da entrada de muitos cabos submarinos que ligam os dois lados do Atlântico”, afirmou.
A posição de Portugal na infraestrutura digital transatlântica pode ganhar ainda maior importância à medida que aumentam as necessidades de conectividade associadas à inteligência artificial e aos centros de dados.
Investimento norte-americano cresce em Portugal
O reforço da dimensão tecnológica acompanha uma relação económica que, segundo Paulo Rangel, atravessa atualmente um período de “grande desenvolvimento”. Os Estados Unidos são “um parceiro estratégico” para Portugal, afirmou o ministro português, sublinhando que, enquanto Estado-membro da União Europeia, Portugal está entre os países que defendem uma relação transatlântica mais forte.
O interesse norte-americano em Portugal tem crescido em diferentes setores. Rangel destacou investimentos de empresas como Goldman Sachs, Aquaterra, UPS, IBM, AWS e Google. Ao mesmo tempo, as empresas portuguesas estão cada vez mais presentes nos Estados Unidos, nomeadamente nas áreas das energias renováveis, farmacêutica e automóvel.
Também o turismo contribui para a aproximação entre os dois países. No ano passado, os turistas norte-americanos foram responsáveis por quase 11% das receitas do turismo em Portugal e, no primeiro semestre deste ano, os EUA foram o terceiro maior mercado em número de visitantes.
A relação bilateral esteve também no centro do encontro entre Marco Rubio e Luís Montenegro. O primeiro-ministro português classificou a relação entre os dois países como “excelente a todos os títulos” e afirmou ter discutido com o secretário de Estado norte-americano a cooperação económica, a comunidade portuguesa nos Estados Unidos e várias questões internacionais: “Perante a relação bilateral excelente a todos os títulos e o grande potencial de colaboração entre Portugal e os Estados Unidos, falámos desde da enorme comunidade portuguesa nos EUA até à nossa cada vez mais profunda cooperação económica, passando também em revista as grandes questões internacionais, incluindo a situação na Venezuela e no Médio Oriente”, escreveu Montenegro numa publicação no Instagram, acompanhada por uma fotografia do encontro em São Bento.
A visita de Rubio acontece num momento em que os dois países procuram aprofundar uma parceria que ultrapassa a tradicional dimensão diplomática e de segurança.
O secretário de Estado norte-americano lembrou que os Estados Unidos e Portugal são “parceiros há muito tempo” e destacou a história da presença diplomática norte-americana no país. O consulado dos EUA em Ponta Delgada, nos Açores, existe desde 1795, tornando-o, segundo Rubio, o consulado americano em funcionamento contínuo mais antigo do mundo.
“Aguardo com expectativa os próximos séculos de colaboração entre os Estados Unidos e Portugal enquanto criamos uma aliança transatlântica mais segura e mais forte e promovemos um futuro mais próspero para o nosso povo”, afirmou.
Para os dois países, essa parceria passa agora também por garantir maior resiliência das cadeias de abastecimento e das infraestruturas críticas. É uma agenda onde tecnologia, investimento e segurança económica estão cada vez mais ligados — e onde Portugal procura afirmar-se como um dos pontos de ligação entre os Estados Unidos e a Europa.
com Lusa





