Gonçalo Regalado defende que Portugal deve aproveitar o investimento em infraestruturas de computação e energia para acelerar a transformação digital e reforçar a internacionalização das empresas. Contudo, o CEO do Banco Português de Fomento (BPF) avisa que o país está atrasado em relação ao resto da União Europeia e que precisa de criar as suas próprias soluções. “Não há uma fórmula mágica”, afirmou na sua intervenção sobre os desafios de Portugal para a próxima década, inserida na conferência dos 10 anos do Jornal Económico, que se realiza esta quarta-feira, 7 de outubro, na Alfândega do Porto.
Para o CEO, Portugal tem pela frente dois grandes desafios para transformar a sua economia: aproveitar a oportunidade criada pela inteligência artificial e aumentar a capacidade de internacionalização das empresas. Como tal, defende uma mobilização coordenada de financiamento, infraestruturas, empresas e conhecimento para colocar o país numa posição mais competitiva.
“O futuro é claro, não há muitas dúvidas”, afirmou identificando a inteligência artificial e a transformação de Portugal de uma pequena economia aberta, para uma economia cada vez mais internacional como os dois principais eixos para o crescimento económico português. “Estamos longe, atrasados e temos uma responsabilidade que é colocar Portugal na linha da frente”, salientou.
Na inteligência artificial, Portugal parte, contudo, de uma posição desfavorável. O CEO do BPF sublinha que o país tem uma taxa de adoção ainda reduzida e que não dispõe da mesma capacidade instalada que outros países europeus.
“Portugal é o segundo país mais atrasado naquilo que ao espaço europeu, de uma forma bastante clara e bastante longe, com uma taxa de adoção de inteligência artificial na casa dos 11%. Muito longe, por exemplo, dos 42% dos dinamarqueses, de quase 40% dos suecos ou dos nossos vizinhos espanhóis”, sublinhou.
Perante este cenário, defendeu que a resposta terá de passar por talento, infraestruturas, capacidade de gestão e financiamento. “Não existe uma fórmula mágica ou única para todos os países. Cada país, cada grupo, cada continente vai ter que fazer a sua solução”, sustentou. Portugal terá, por isso, de encontrar o seu próprio caminho, “com soberania e com autonomia”, realçou.
Energia e cabos submarinos podem dar vantagem a Portugal
Apesar do atraso na adoção da inteligência artificial, o responsável do Banco de Fomento identificou um conjunto de vantagens competitivas que podem permitir ao país captar uma parte relevante do investimento associado à nova economia digital.
Entre essas vantagens estão a disponibilidade de energia, as infraestruturas digitais, a rede 5G, a segurança e a ligação dos cabos submarinos portugueses a vários continentes. A disponibilidade de energia assume particular importância numa indústria em que os centros de dados e a supercomputação exigem grandes quantidades de eletricidade. Por isso, a existência de capacidade energética e de infraestruturas de conectividade podem tornar Portugal mais atrativo para projetos de grande dimensão.
O responsável do BPF aponta ainda para a instalação e desenvolvimento de projetos ligados a centros de computação, nomeadamente em Sines, Abrantes e Vila Franca de Xira, e para o envolvimento de empresas e fundos de investimento internacionais.
“Quatro gigawatts estão a mobilizar para Portugal dezenas de milhares de milhões de euros das maiores empresas globais”, afirmou, numa referência ao potencial de investimento associado à capacidade energética disponível.
A ambição, acrescentou, não deve limitar-se à construção de infraestrutura física. O objetivo é criar um ecossistema capaz de gerar conhecimento, investigação, empresas e aplicações concretas para a economia portuguesa.
“Quando construímos um lar onde criamos capacidades de formação e onde criamos valor para a economia portuguesa, vamos passar da indústria física para ter soluções industriais, para ter modelos de computação e para ter aplicações reais para os cidadãos e para as empresas”, afirmou.
Para o CEO do Banco de Fomento, o desafio passa por garantir que o investimento estrangeiro associado à inteligência artificial deixa valor em Portugal. “Não estamos a montar zonas industriais para uma geração ou zonas industriais do passado”, referiu defendendo a criação de infraestruturas com integração física e digital, centros de investigação, ligação às universidades e capacidade de adoção industrial.
O objetivo será transformar o investimento em capacidade produtiva e tecnológica nacional. “O que nós precisamos é que as indústrias do Estado, da indústria digital, sejam indústria do futuro”, realçou.
Banco de Fomento quer acelerar internacionalização
A segunda grande prioridade identificada por Gonçalo Regalado é a internacionalização da economia portuguesa. O responsável defendeu que o Banco de Fomento deve funcionar como parceiro das empresas na entrada em mercados externos, reduzindo os riscos associados a projetos de maior dimensão.
“Temos que criar esse momento para ajudar os empresários portugueses e as empresas portuguesas a investirem em mercados maiores”, afirmou. A estratégia passa por instrumentos de seguro de crédito, garantias e soluções de financiamento capazes de cobrir diferentes fases do ciclo de internacionalização — desde a exportação no curto e médio prazo até ao financiamento de projetos de longo prazo e ao investimento direto no estrangeiro.
“Queremos proteger os exportadores do risco comercial, político, económico e fiscal”, disse Gonçalo Regalado, assumindo a ambição de que as empresas portuguesas possam ter um parceiro financeiro capaz de acompanhar a sua expansão em diferentes geografias, incluindo a Ásia, a América Latina, a Índia e o continente africano. “Temos que ter o banco de investimento lado a lado com os nossos parceiros, que investem com critério”, salientou.
Neste contexto, o Banco de Fomento pretende reforçar a capacidade de financiamento e de prestação de garantias à economia, como por exemplo a inscrição no Orçamento do Estado de quatro mil milhões de euros de crédito com garantias para empresas portuguesas, um montante de “um valor recorde”.
A instituição pretende, segundo o responsável, aumentar progressivamente a sua capacidade de apoio às empresas e contribuir para o crescimento das exportações. “A nossa ambição é clara: queremos, até ao final da década, mobilizar mais cinco mil milhões de euros”, afirmou.





