“Ninguém nos para este ano”. Foi isto que Afonso e Francisco Soares, irmãos e fundadores da Ivory Therapy, disseram à Forbes Portugal no início de 2026, quando questionados sobre os objetivos e metas definidos para os próximos 12 meses. O ano ainda vai a meio, mas a dupla já se encontra em posição de provar isso mesmo.
A Ivory está a crescer acima do previsto, tanto em faturação (que se espera de 1,3 milhões de euros em 2026) como no número de sessões dadas pela equipa de psicólogos. A empresa nasceu com o objetivo de quebrar todos os tabus que se foram criando na sociedade em relação ao tema da saúde mental. Através de peças como hoodies, t-shirts, sweatshirts, chapéus, tote bags ou capas para o telemóvel, não só espalham a mensagem pelo país – e não só – como também tornam mais fácil o acesso a uma sessão de terapia. É que por cada peça comprada, a Ivory oferece uma consulta com um dos psicólogos da equipa.

Além disso, lançaram recentemente uma nova coleção e preparam-se para lançar uma peça que já vem sendo pedida pelos clientes, mas nunca tinha sido feita. A coleção foi desenhada em parceria com a criadora de conteúdo Rebeca Caldeira e leva-os pela primeira vez ao público infantil: “I can be okay and still need a hug”, lê-se numa das peças exclusivas para crianças. A segunda novidade é a primeira peça da Ivory com uma frase em português: “Saudade não tem tradução”.
No meio de tudo isto, ainda houve tempo para uma pequena mudança de direção. Segundo os fundadores da Ivory, uma das mudanças mais relevantes dos últimos meses foi a identificação de novos públicos. Embora os produtos possam ser usados por homens e mulheres, a empresa pretende desenvolver linhas mais direcionadas para mulheres. “As mulheres compram mais, consomem mais, e por isso queremos ter coisas para elas. Historicamente, a mulher é mais aberta a tópicos de saúde mental e a expor as suas emoções”, afirma Afonso, realçando que chegaram a esta conclusão também pelo facto de as mulheres serem mais procuradas quando perguntam se existe preferência entre um psicólogo ou uma psicóloga. Apenas 5% das respostas mencionam o homem, 50% escolhem uma mulher e os restantes 45% não têm qualquer preferência.
E se voltarmos as atenções para o segundo semestre do ano, o plano também continua de pé e no bom caminho: A Ivory quer mesmo apostar na sua presença no Porto.

Quebrar o estigma
A experiência de Francisco, que está na base da criação da Ivory Therapy, aconteceu em 2019. Começou a sentir, pela primeira vez, o que é passar por um problema de saúde mental: pensamentos obsessivos, uma espiral de ansiedade difícil de controlar, noites sem dormir. Entre esse momento e o dia em que pediu ajuda, passou cerca de um ano e meio. Na tentativa de encurtar este tempo para qualquer outra pessoa, os fundadores da empresa aprenderam muito sobre o impacto deste tema na sociedade.
A má notícia é que existe um lado mau na forma como o tema é recebido, a boa notícia é que esse lado é muito mais pequeno do que se possa pensar à partida.
Diretamente nas plataformas da Ivory não é algo que costume acontecer, mas Francisco, ao expor a sua experiência online, já teve de lidar com comentários que considera ridículos. Até porque quando falamos de redes sociais, são poucas as vezes em que realmente se conhece o que se passa para lá da câmara e por isso torna-se impossível ter toda a informação necessária para julgar seja quem for. “Na minha página pessoal tenho sofrido. Eu fiz um vídeo há pouco tempo a dizer que tomava antidepressivos e a partir daí tenho recebido alguns comentários de pessoas a criticar o facto de eu tomar antidepressivos”, conta Francisco.

Mas no plano geral, Afonso e Francisco dizem ter descoberto uma realidade diferente desta: a de que existe mais empatia e disponibilidade para ajudar do que se imagina.
“Nós combatemos muito bem essa questão. Primeiro porque desmistificamos o tema com a nossa mensagem e em segundo porque trazemos a parte profissional e certificada, que traz uma seriedade”, afirma Afonso.
A prova disso está nas experiências que têm nas ruas. Francisco considera que a expetativa quando se pergunta a um estranho para descrever o ser humano numa palavra, é que venha algo negativo como “egoísta”. Mas ao longo dos anos foi percebendo que o contrário está muito presente. “Eu digo muitas vezes que o amor nasce connosco, o ódio é ensinado. O que aprendemos com este projeto é que há muito mais bondade do que aquilo que as pessoas pensam”, diz.
Essa é, dizem, uma das principais conclusões retiradas do trabalho desenvolvido na área da saúde mental: a de que as pessoas estão mais dispostas a ouvir, compreender e apoiar do que frequentemente se acredita.
Artigo publicado na edição de junho/julho 2026 da Forbes Portugal.





