No final de 2025, no palco da Forbes Annual Summit, Julieta Rueff disse a todos os presentes: “O meu objetivo é chegar à bancarrota”. Para muitos não é fácil compreender como é que este pode ser o objetivo de alguém que está a construir um negócio. Principalmente quando se trata de um mundo onde os números falam mais alto. Mas quando se entende o propósito de Julieta e da FlamAid, fica muito fácil entender este objetivo.
“O feminismo entrou na minha vida pela porta de trás: pela constatação de que metade da população organiza a sua mobilidade à volta de uma ameaça que a outra metade nem sequer regista”, diz Julieta à Forbes Portugal. Não passou por um despertar ideológico, passou por um momento em concreto que mudou tudo. Seguia a mesma rotina que qualquer outra mulher: mudava de passeio para se sentir mais segura, mandava a localização a amigas, avisava sempre que chegava a casa e chegava mesmo a andar com as chaves entre os dedos. Mas nada disto a impediu de passar pela situação em que foi seguida na rua à noite e ficou bloqueada de tal forma que nem o gás pimenta que tinha na mão conseguiu usar.

Percebeu que se o problema não desaparecia, era necessário encontrar uma solução melhor. A FlamAid e a sua granada pacifica nasceram logo a seguir.
Falamos de um dispositivo em forma de granada, a ativação mais fácil do mundo, que é um método de defesa passivo. Segue o mesmo princípio dos alarmes de casa, mas ao uso do som acrescenta também o GPS, uma vez que o ser humano está em constante movimento. Quando ativado, este dispositivo emite um som, envia os dados de localização aos contactos de emergência e forças de segurança e também inicia a gravação de imagem e som a partir do telemóvel.
“Quero que uma mulher possa decidir voltar a pé para casa às três da manhã sem fazer um cálculo de risco mental. Quero que pais deixem de ter a conversa do ‘manda-me mensagem quando chegares’ como se fosse normal. E quero, ao nível mais estrutural, que a segurança pessoal deixe de ser um problema individual que cada mulher resolve sozinha e passe a ser uma categoria de infraestrutura, como o cinto de segurança ou o capacete”, defende Julieta.
E se, como sociedade, o problema se resolvesse e esta granada deixasse de ser necessária, a fundadora da FlamAid diria ‘missão cumprida’ e passaria ao próximo desafio. Porque visão para o negócio não lhe falta. O crescimento da empresa olhando apenas para o último ano é prova disso mesmo.

“Foi um ano de profissionalização brutal. Saímos da fase em que tudo dependia de mim e da Mireia, a COO, e entrámos numa fase com equipa técnica própria, distribuição em retalho, uma ronda de investimento em curso com nomes como Ilia Topuria e José Avillez, e expansão internacional. Mas mais do que crescimento, foi maturidade: aprendemos a dizer não a oportunidades que nos desfocavam e a defender o produto e a marca de pressões para nos tornarmos mais FlamAid. A FlamAid hoje sabe muito melhor o que é e o que não é”, afirma.
A missão continua
Mas a verdade é que o problema está longe de uma resolução e por isso é importante que a FlamAid continue a existir. Segundo dados do Observatório de Mulheres Assassinadas, divulgados em março deste ano, entre 2002 e 2025 foram assassinadas 709 mulheres em Portugal e 939 foram vítimas de tentativa de homicídio. Na mesma altura, foi divulgada a informação de que à GNR e à PSP foram participadas 29.778 ocorrências de violência doméstica apenas em 2025.
“Preocupação sem ação é uma forma confortável de não fazer nada. Toda a gente está preocupada com a segurança das mulheres, é quase consenso social, mas consenso não muda a realidade de ninguém. O que muda é alguém decidir construir, vender, distribuir, escalar. Não é mais nobre, é só mais útil”, considera Julieta.

Ação essa que se torna ainda mais indispensável quando se tem em conta, por exemplo, o grande aumento de discursos que promovem a masculinidade tóxica, misoginia e antifeminismo nas redes sociais. “Há uma geração de raparigas mais articulada do que nunca sobre os seus direitos, e em paralelo há um regresso muito visível de discursos que pensávamos ultrapassados, sobretudo nos rapazes adolescentes, alimentados por figuras nas redes sociais que faturam com a polarização. O meio termo está em vias de extinção”, realça.
Quando criou a FlamAid, Julieta tinha a maior motivação que poderia ter: “Construí-a porque precisei do produto e ele não existia”. No mundo ideal, ela própria nunca tinha precisado de um produto destes. Mas enquanto existirem sociedades capazes de negar os direitos conquistados pelo feminismo, é bom que existam pessoas como Julieta prontas para lhes dar resposta.
“Não me considero ativista, considero-me empreendedora. A sustentabilidade do projeto é, ela própria, a forma mais eficaz de ativismo a que tenho acesso, porque cada unidade vendida é uma mulher com uma ferramenta real, e isso só continua a acontecer se a empresa continuar de pé”, conclui.
Artigo publicado na edição de junho/julho 2026 da Forbes Portugal.





