“Potencial” é uma palavra que Vanderlei Ribeiro, presidente da Associação Agro-Pecuária de Angola (AAPA), diz ter praticamente retirado do seu vocabulário. Angola fala há décadas do seu potencial agrícola, mas a realidade é que esse potencial não se transforma automaticamente em produção. “Uma semente em cima desta mesa é uma árvore em potencial, é uma floresta em potencial, mas não vai dar frutos se não fizermos de facto com que ela produza”, afirmou durante a conferência Global Agri Forum, realizada esta quinta-feira, em Lisboa, pela Vieira de Almeida (VdA).
Para o responsável, Angola está hoje numa fase semelhante àquela em que o Brasil se encontrava há cerca de 50 anos, mas tem condições para encurtar esse caminho graças ao acesso a tecnologia e conhecimento já desenvolvidos pelo país sul-americano.
A agricultura é um dos pilares da diversificação de uma economia ainda fortemente dependente do petróleo. Segundo Ribeiro, 95% das exportações angolanas dependem ainda do ouro negro, enquanto a agricultura representa já cerca de 25% do PIB, depois de ter duplicado o seu peso na economia na última década.
Mas a produção nacional continua longe de satisfazer a procura: Angola importa anualmente cerca de 2,3 mil milhões de dólares em alimentos, um valor que o presidente da AAPA considera elevado para um país com as condições agrícolas de Angola.
É precisamente aqui que entra a oportunidade para o investimento privado. “Nós temos pressa”, afirmou Ribeiro, defendendo que o país precisa de parceiros com conhecimento de agricultura tropical e capacidade para desenvolver o setor à escala necessária.
O Brasil surge naturalmente como um dos principais parceiros. “Angola está muito mais próxima do Brasil em relação à agricultura do que qualquer outro país da região”, explicou, destacando a experiência brasileira em agricultura tropical e a possibilidade de transferir tecnologia e conhecimento.
Mas o desenvolvimento do setor enfrenta obstáculos. Um dos principais é o financiamento. De acordo com Ribeiro, apenas cerca de 16% do financiamento bancário disponibilizado ao mercado no último ano terá sido dirigido ao setor produtivo, com particular destaque para a agricultura. E, para os produtores, os instrumentos financeiros utilizados continuam muitas vezes desenhados para setores com ciclos muito diferentes.
“Temos que convencer o sistema financeiro a entender o negócio da agricultura”, afirmou. Taxas de juro elevadas, períodos de carência reduzidos e modelos de financiamento pouco adaptados aos ciclos agrícolas dificultam a ligação entre a capacidade instalada da indústria e a produção no campo.
Ainda assim, começam a surgir novos instrumentos e destacou a iniciativa AgriConnect, que pretende mobilizar 1,4 mil milhões de dólares para financiar a agricultura, e referiu ainda um programa de 211 milhões de dólares destinado ao leste de Angola, uma das regiões menos desenvolvidas do ponto de vista agrícola. O corredor do Lobito é igualmente apontado como uma nova fonte de investimento e infraestrutura para o setor.
O problema torna-se particularmente evidente porque a indústria angolana já dispõe de capacidade de transformação, enquanto a produção agrícola permanece limitada. Cerca de 90% da agricultura angolana continua a ser familiar, segundo Ribeiro, enquanto os produtores de maior escala representados pela AAPA são pouco mais de 100.
Michael Nisser, presidente da Phoenix Eagle Group, conhece essa realidade há mais de três décadas. Está em Angola desde 1992, inicialmente como importador e distribuidor, e foi progressivamente avançando para a transformação agroindustrial. Em 2003 entrou na indústria, começando pela moagem de milho e pelo refino e engarrafamento de óleo.
A estratégia passou por importar, aprender o mercado e, gradualmente, substituir as importações por produção local. Atualmente, o grupo tem capacidade para processar 700 toneladas métricas de trigo e duas unidades de milho com 300 toneladas cada, num total de 600 toneladas métricas, produzindo farinha de milho para a indústria alimentar e de bebidas.
O grupo prepara agora um novo investimento para processar cerca de 450 toneladas métricas de soja — a gravação refere também 452 toneladas — destinado ao consumo humano e à alimentação animal. O projeto deverá avançar entre março e abril do próximo ano, segundo Nisser.
“Passámos de importar para produzir localmente”, resumiu Nisser, defendendo uma maior integração entre comércio, indústria e agricultura.
A soja é, aliás, uma das culturas que poderá ganhar importância nos próximos anos, à medida que a indústria aumenta a sua capacidade de transformação. Para Nisser, o desafio passa agora por garantir que a produção agrícola acompanhe essa capacidade.
Terra continua a ser uma questão sensível
Também a questão da terra, frequentemente apontada como um obstáculo ao investimento agrícola em Angola, foi relativizada por Ribeiro. A legislação angolana estabelece que a propriedade da terra pertence ao Estado, mas permite concessões que podem chegar aos 60 anos e que, cumpridas determinadas condições, podem ser transacionadas e utilizadas como garantia para financiamento.
“É a forma como eu tenho crescido na agricultura”, explicou, referindo que utiliza as concessões de terra como colateral para obter crédito bancário.
O responsável considera que parte da perceção de risco resulta da comparação com modelos de propriedade da terra, como o brasileiro. E vê precisamente aí uma oportunidade para investidores que estejam dispostos a olhar para Angola numa perspetiva de médio e longo prazo.
Para ilustrar a diferença, Ribeiro comparou o preço de uma propriedade no Cerrado brasileiro, que estimou em 15 mil a 20 mil dólares por hectare, com uma concessão em Angola que, no exemplo apresentado, poderia custar cerca de 15 dólares por hectare. É uma comparação apresentada pelo empresário para ilustrar a diferença de custo de entrada, e não uma referência geral aos preços de mercado.
O próprio Ribeiro referiu ter quase 10 mil hectares em Angola, que considera parte do seu património económico apesar do regime de concessão.
O argumento é também demográfico. África terá uma parcela crescente da população mundial nas próximas décadas, criando uma procura adicional por alimentos e transformando a agricultura num investimento de médio e longo prazo.
De fertilizantes a fruta
A oportunidade não está apenas na produção alimentar. Ribeiro antecipa que Angola poderá assumir um papel estratégico no fornecimento de fertilizantes ao Brasil. Dentro de cinco anos, prevê que o país tenha uma das maiores unidades de produção de ureia do continente africano, com capacidade estimada em 1,3 milhões de toneladas.
A proximidade geográfica poderá transformar Angola num parceiro relevante para o Brasil neste segmento, num momento em que o país sul-americano procura diversificar as suas fontes de abastecimento.
Também as exportações alimentares para Portugal poderão crescer. Angola exporta atualmente cerca de 30 a 40 milhões de dólares de produtos alimentares para Portugal, sobretudo fruta. Ribeiro acredita que esse valor poderá duplicar ou triplicar nos próximos cinco anos, acompanhando os investimentos em curso na produção de frutas tropicais.
De acordo com o responsável, alguns dos associados da AAPA estão mesmo a quadruplicar as suas áreas de produção de frutas tropicais, numa estratégia que pretende simultaneamente abastecer o mercado interno e criar capacidade exportadora.
Mas a ambição vai além da relação bilateral. Para o presidente da AAPA, Angola pode funcionar como uma porta de entrada para o mercado africano, num momento em que a Zona de Comércio Livre Continental Africana procura aumentar a integração económica entre os países do continente.
É essa dimensão que, na sua perspetiva, pode alterar a escala da oportunidade: não se trata apenas de produzir para o mercado angolano, mas de posicionar o país numa região com uma população em forte crescimento e com ligações logísticas a outros mercados através, nomeadamente, do corredor do Lobito.
O desafio, agora, é fazer coincidir a velocidade dos empresários com a do Estado e do sistema financeiro. “Nós caminhamos sempre mais rápido do que os governos. Nós caminhamos sempre mais rápido do que o sistema financeiro”, afirmou Ribeiro.
A questão, portanto, deixou de ser demonstrar que Angola tem potencial agrícola. É transformar esse potencial em hectares cultivados, fábricas abastecidas, alimentos produzidos e negócios capazes de sobreviver para lá do discurso.
E, para os empresários presentes no Global Agri Forum, os próximos cinco anos serão decisivos para perceber se essa transformação passa finalmente do potencial para a escala.





