O escritor Richard Zimler lança, entre este mês e novembro, a trilogia “O Voo dos Anjos Caídos”, mostrando Falcão, o protagonista, num mundo devastado por uma catástrofe, em que a intolerância e a perda de direitos proliferam.
O escritor norte-americano, há décadas radicado em Portugal e no Porto, explica em entrevista à agência Lusa que Falcão, o herói e narrador da história, foi o que lhe surgiu primeiro para escrever a trilogia, cujo primeiro livro, “A Beleza das Coisas Imperfeitas”, foi já lançado pela Porto Editora, seguindo-se outro volume em outubro, e um terceiro e último em novembro.
“Já sabia que o livro ia decorrer daqui a 300, 600, 900 anos, depois de uma catástrofe terrível, e o mundo volta aos tempos mais ou menos medievais, sem telemóveis, automóveis, Internet”, conta.
Essa narrativa concretiza-se 300 anos depois de um acontecimento intitulado Juízo Final, uma série de guerras que devastaram o planeta, seguindo Falcão, o herói de uma pequena aldeia que acaba a combater o fundamentalismo religioso da Aliança, com a ajuda de família e amigos.
“Considerando toda a trilogia, este primeiro romance é um começo em que Falcão, o narrador, tem de demonstrar a sua coragem e perspicácia para enfrentar o problema do fundamentalismo. Não vou dar ‘spoilers’. No segundo romance, o mais sombrio dos três, muito difícil, tem de infiltrar a organização fundamentalista para conseguir os seus objetivos. O terceiro romance é luminoso, espetacular”, comenta.
De resto, não queria “escrever romances deprimentes” nem acabar este num sítio em que o leitor saísse “sem esperança, sem a tal coragem para continuar a vida e lutar por um mundo melhor”, antes “convencido de que possa contribuir para conseguir mais justiça e empatia e solidariedade”.
A coragem que gostaria de passar a quem o lê é algo que reconhece na personagem principal de uma trilogia que “é um aviso”, e como para Falcão, “a coragem pessoal é muito importante neste momento, para lutar ativamente contra qualquer medida que tenha como objetivo tirar-nos os direitos civis ou limitar as opções para mulheres, por exemplo”.
“A coragem pessoal é muito importante neste momento, para lutar ativamente contra qualquer medida que tenha como objetivo tirar-nos os direitos civis ou limitar as opções para mulheres, por exemplo”.
“É um aviso, que se não agirmos proativamente, se não mudarmos o rumo de Portugal, da Europa, dos Estados Unidos, podemos acabar por ter um mundo muito pouco sensato, sem empatia, em que qualquer pessoa considerada imperfeita, por uma deficiência mental ou física, por ser de cor diferente, vai ter muitos problemas”, avisa.
Uma reflexão sobre “o rumo do mundo” e um “retrocesso civilizacional” que vê nas várias lideranças pelo mundo fora – “Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro, que esteve no Brasil, Putin na Rússia, Netanyahu em Israel”.
“A perda de direitos fundamentais em muitos países – ainda há fundamentalistas no Irão, por exemplo, no Afeganistão. Fico muito preocupado com isso. Posso imaginar facilmente Portugal cair nessa ratoeira e criar escolas religiosas, (…) posso imaginar a perda de direitos civis, sobretudo em relação a mulheres, LGBTQIA+ e migrantes”, alerta.
Questionado em concreto sobre a ofensiva de Israel sobre a Palestina, Zimler, de 70 anos, afirma que tem vindo a criticar a política israelita para o conflito desde os anos 1990, lembrando ainda o seu livro “À Procura do Sana” (2006), sobre essa “injustiça”.
“Evidentemente, penso que Benjamin Netanyahu e vários ministros são fascistas. A ideia de um judeu ser fascista é quase impensável, mas existe. (…) Em relação a Israel, não estou a ver uma solução. A talvez mais provisória é conseguir afastar Netanyahu, mas acho que isso não vai solucionar o problema inteiro, que é a necessidade de criar ou ajudar a criar um Estado democrático e independente palestiniano”, refere.
Richard Zimler vai estrear-se a escrever primeiro em português
O escritor norte-americano Richard Zimler vai estrear-se a escrever um romance em língua portuguesa para adultos, em vez de começar pelo nativo inglês, contou em entrevista à agência Lusa.
“O que vou fazer é surpresa, mas vou revelar, pela primeira vez, que estou a escrever um romance em português primeiro. Estou a escrever uma versão portuguesa e uma versão inglesa e fazer uma comparação, e depois vou mudando as duas versões conforme o que encontro”, explicou, em entrevista à Lusa, na Foz, no Porto.
Zimler, há décadas radicado em Portugal e no Porto, já o tinha feito nos livros infantis mas é a primeira vez que escreve em português primeiro (e não como processo de tradução) para adultos, considerando que isto revela a forma como as duas línguas se entrelaçaram no seu pensamento literário.
“Leva mais tempo, mas é muito útil, porque possivelmente o meu cérebro funciona de uma maneira diferente nas duas línguas. Não sou a mesma pessoa em português do que sou em inglês. Por exemplo, o meu sentido de humor inglês é mais desenvolvido, complexo, porque posso brincar com as palavras mais facilmente”, revelou.
Mesmo sem ter um “português perfeito”, sente que a língua já mudou o inglês que escreve.
“Vários críticos nos Estados Unidos disseram, por exemplo, que eu escrevo um inglês não desajeitado, mas ‘sui generis’, que tem aspetos pouco normais ou habituais da língua inglesa, e eu acho que isso, de facto, é a influência da língua portuguesa”, completou.
Esse novo livro, que sairá após a trilogia “O Voo dos Anjos Caídos”, de que lançou este mês o primeiro tomo, “A Beleza das Coisas Imperfeitas”, será “muito diferente dos romances históricos, ou dessa trilogia”.
“Se calhar, tem a ver com as minhas dificuldades físicas e problemas de saúde nos últimos dois anos. Estava a pensar mais na morte. Não apanhei qualquer doença fatal, não vou morrer em breve, espero eu, mas fiquei com muitas dores, problemas, sofrimento, e pensava mais na morte”, disse.
A nova obra do autor de 70 anos será, por isso, “muito curiosa”, com “depoimentos de pessoas já mortas” numa aldeia que inventou localizada em Portugal.
Questionado sobre se, depois de tantos anos a viver no país, pensa na morte primeiro na língua portuguesa, considerou a teoria “possível”.
“Porque cheguei a ter estas doenças e dificuldades em Portugal e os meus [médicos] especialistas são todos portugueses, então estou mais habituado a falar dos meus problemas em português, nunca falei em inglês com ninguém”, incluindo uma terapeuta francesa com quem tem consultas nessa outra língua, comentou.
Esta forma de encarar a escrita, quando sente que o estilo “de construir frases, personagens, um enredo não mudou muito”, mas sim “as preocupações” que diferem de quando tinha 35 anos, muda também com o reflexo “da vida real e dos traumas”.
“Estou sempre interessado na construção da nossa identidade. Como é que construímos uma identidade e como é que essa identidade muda ao longo do tempo. (…) Reflete a vida real e reflete, sobretudo, os nossos traumas. Tenho uma teoria – não sou psicólogo -, uma teoria de que a gente pode mudar”, atirou.
Hoje, sente que não é a mesma pessoa depois de enfrentar problemas físicos ou da morte do irmão, e por isso “a ideia de não evoluir seria impensável”.
“Eu não sou a mesma pessoa que escreveu ‘O Último Cabalista de Lisboa’, nos anos 1990. O Richard Zimler que escreveu esse livro já não existe. A escrita, pelo menos no meu caso, evoluiu e vai continuar a evoluir ao longo do tempo, conforme a minha condição como ser humano”, concretizou.
Richard Zimler nasceu em 1956, em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque.
Fez um bacharelato em Religião Comparada na Duke University e um mestrado em Jornalismo na Stanford University.
Trabalhou como jornalista durante oito anos, principalmente na região de São Francisco e em 1990 foi viver para o Porto, onde lecionou Jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto.
Desde 1996, publicou doze romances, uma coletânea de contos e seis livros para crianças.
A sua obra encontra-se traduzida para 23 línguas, tendo sido distinguida com importantes prémios literários como o Prémio National Endowment of the Arts Fellowship in Fiction (EUA), o Prémio Herodotus (EUA), pelo livro “O Último Cabalista de Lisboa”, o Prémio Alberto Benveniste, pelo livro “Goa ou o Guardião da Aurora”, e o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância, pelo livro “O cão que comia a chuva”.
Simão Freitas/Lusa





